Não será colonialismo geográfico, mas erro lesivo deve ser corrigido

 Não será colonialismo geográfico, mas erro lesivo deve ser corrigido

Mapa-múndi: diferentemente de um globo terrestre, adaptar o planeta terra a uma superfície plana gera distorções. (Wikimedia Commons – exame.com)

A 80.ª Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU) aprovou, a 4 de setembro, uma resolução que promove, embora sem caráter vinculativo, o abandono da projeção de Mercator do globo terrestre, em favor de uma representação cartográfica mais fiel à dimensão real dos continentes, em particular de África, até agora encolhida, o que deverá ter impacto nas aplicações educacionais e tecnológicas. Com efeito, a África é 14 vezes maior do que a Gronelândia, que é oito vezes menor do que a América do Sul, mas, na projeção do Mercator – até agora adotada, parecem semelhantes. Uma alternativa promocional é a projeção “Equal Earth” (“Terra Igual”), desenvolvida, em 2018, por uma equipa internacional de cartógrafos.

***

A projeção de Mercator é uma projeção cilíndrica do globo terrestre, em que os meridianos são planificados na forma de linhas retas paralelas verticais horizontalmente equidistantes, enquanto os paralelos são planificados na forma de linhas retas paralelas horizontais, de modo que a distância vertical entre dois paralelos sucessivos é tanto menor quanto mais próximos os paralelos estiverem da linha do equador. Foi apresentada, pela primeira vez, em 1569, por Gerhard Kramer (em Latim: Gerardus Mercator) cosmógrafo e cartógrafo flamengo, através de um grande planisfério de 250 centímetros (cm) por (x) 128 cm e constituído por 18 folhas xilografadas separadamente.

Projeção de Mercator: Nova et Aucta Orbis Terrae Descriptio ad Usum Navigatium Emendate (1569). (pt.wikipedia.org)

A geometria adotada por Mercator leva a que a superfície da Terra seja deformada na direção norte-sul, tanto mais quanto maior for a latitude. Assim, nessa projeção, a distância entre os meridianos adjacentes é a mesma, em toda a longitude, mas a distância entre os paralelos aumenta com a latitude e torna-se muito grande nos polos, o que impede a representação dos paralelos nos polos e nas suas proximidades. Por se tratar de uma projeção conforme, a escala não varia com a direção e os ângulos são conservados em todos os pontos. Todavia, como em qualquer projeção cartográfica, a escala varia de lugar para lugar, distorcendo a forma dos objetos geográficos representados, de modo que as áreas são fortemente afetadas, transmitindo uma imagem irreal da geometria do planeta, como vimos.

Por outro lado, as curvas loxodrómicas (curva loxodrómica ou loxodromia é uma linha na superfície da Terra que cruza todos os meridianos com um ângulo constante) são planificadas na forma de linhas retas (linhas de rumo constante) e os ângulos que elas formam com os meridianos são preservados, o que faz com que esta projeção seja particularmente adequada ao apoio da navegação marítima, permitindo que rumos e azimutes sejam medidos diretamente na carta náutica, com o auxílio de transferidor e da rosa dos ventos nela impressa. Outros instrumentos úteis numa carta que utilize esse tipo de projeção são o compasso (muito útil para transferir distâncias), a régua graduada (útil para medir distâncias) e um par de esquadros (útil para transferir direções).

A projeção de Mercator é uma projeção cilíndrica do globo. (pt.wikipedia.org)

A “Equal Earth”(projeção da “Terra Igual”) é uma projeção equivalente pseudocilíndrica para mapas-múndi, criada por Bojan Šavrič, Bernhard Jenny e Tom Patterson, em 2018. É inspirada na amplamente utilizada projeção de Robinson (projeção de um mapa-múndi – feita, em 1963, pelo geógrafo americano Arthur H. Robinson – que mostra o Mundo inteiro, de uma só vez, para encontrar um bom meio-termo para o problema de mostrar, prontamente, o globo inteiro como uma imagem plana). Contudo, a “Terra Igual” preserva o tamanho relativo das áreas. As equações da projeção são simples de implementar e rápidas de calcular.

As características da projeção da “Terra igual” incluem: os lados curvos da projeção sugerem a forma esférica da Terra; os paralelos retos facilitam a comparação da distância ao norte ou ao sul do equador; os meridianos são igualmente espaçados ao longo de qualquer linha de latitude; e o software para a projeção é fácil de escrever e executa-se de modo eficiente.

Projeção da Terra igual. Graticulado de 15°. A imagem é derivada do compósito do mês de verão do Blue Marble da NASA, com os oceanos clareados para melhorar a legibilidade e o contraste. Imagem criada com o software de projeções cartográficas Geocart. (pt.wikipedia.org)

Um dos efeitos da projeção da “Terra Igual” é a melhoria da representação de muitos países em desenvolvimento do Hemisfério Sul, particularmente, na África, devido aos tamanhos relativos dos países na projeção de Mercator, afetando fatores económicos, sociais e políticos. Por exemplo, na projeção de Mercator, a Gronelândia parece maior que toda a África, mas possui apenas 7% da área terrestre total da África. As inconsistências na representação das áreas podem levar a uma representação inadequada do impacto da disseminação de doenças transmissíveis.

Há outras projeções, como a projeção equiretangular e a projeção de Robinson, que representam melhor o tamanho desses países, mas apresentam outras limitações, ao passo que a projeção da Terra Igual oferece uma representação visualmente mais precisa da área real de cada país, em comparação com as outras projeções.

Comparação entre Equal Earth e Mercator. (forest-gis.com)

Recorde-se que a projeção equiretangular ou projeção cilíndrica equidistante é uma projeção cartográfica cilíndrica muito simples, cuja invenção se atribui a Marinus de Tiro, a quem Cláudio Ptolomeu credita a invenção no ano 100. Devido à distorção que produz, não pode ser utilizada em mapas de navegação, nem em mapas cadastrais, mas é, habitualmente, usada em mapas temáticos, tendo-se convertido num padrão para aplicações informáticas, devido à sua correspondência entre pixéis e a posição geográfica.

***

Por força da dita resolução da AGNA, sobretudo, se for acolhida pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), que lhe pode dar força vinculativa, a projeção de Mercator do globo terrestre, uma imagem que temos da Terra, há 450 anos, estará em vias de extinção, enquanto aplicação generalizada, pois, como vimos, será difícil bani-la de algumas áreas de atividade, aliás como, por exemplo, a projeção equiretangular.

África no mapa-múndi tradicional baseado na projeção de Mercator (à esquerda) e no mapa Equal Earth de 2018 (à direita). Fonte: Getty Images, via The Guardian. (pplware.sapo.pt)

O Togo foi o maior promotor da resolução #CorrectTheMap (“Corrigir o Mapa”) e recebeu o apoio dos membros da União Africana (UA). Na AGNU, recebeu 164 votos específicos. Alguns países abstiveram-se: a Estónia, a Sérvia, a Geórgia, a Moldávia, a Lituânia e a Ucrânia. Os Estados Unidos da América (EUA) foram o único país a votar contra.

A ONU fundamenta a resolução em vários pressupostos, de que se destacam: os direitos humanos, a soberania dos Estados, o respeito pelas pessoas e povos, a equidade na produção e na distribuição dos recursos, o cuidado do planeta, a verdade no conhecimento geográfico e a sua utilidade nas diversas atividades atinentes à economia e ao bem-estar de todos.

No entanto, a aprovação da resolução não obriga os Estados ou as instituições a abandonar a versão do Mercator. Mas apela à promoção do mapa que mostra áreas mais semelhantes à realidade, sobretudo, nas escolas. E a importância de uma representação fiel da dimensão das nações vai para lá do âmbito educativo.

O exemplo mais evidente da distorção apontada é a comparação de África com a Gronelândia. No mapa-múndi até agora vigente, o continente africano e o território dinamarquês parecem ter dimensões semelhantes. Na realidade, África é cerca de 14 vezes maior do que o território autónomo dinamarquês, exemplifica o jornal The Guardian. E a campanha #CorrectTheMap usa, algumas vezes, uma comparação visual: na África caberiam os EUA, a China, a Índia, o Japão, o México, grande parte da Europa e ainda sobraria território.

A incorreção vai além do facto de os mapa-múndi serem planos, apesar de a Terra ser redonda (e achatada nos polos). Na verdade, as “plantas” do mundo que temos utilizado há séculos não mostram a aparência mais exata das massas de terra. (pplware.sapo.pt)

Esta projeção Mercator foi criada para facilitar a navegação marítima, como lembra o site do Politico. Hoje, sabe-se que é impossível representar, sem distorções, a superfície curva da Terra num plano bidimensional e, por isso, qualquer mapa-múndi implica alguns compromissos. O problema particular da projeção de Mercator é que as massas terrestres parecem progressivamente maiores quanto mais se afastam da linha do equador. As regiões equatoriais ficam reduzidas face às zonas de latitudes mais elevadas. E a projeção “Terra Igual” responde a este problema. É uma projeção de área equivalente e, por isso, o objetivo primordial é preservar as proporções relativas às superfícies terrestres, o tamanho de cada país comparado com outros.

Robert Dussey, ministro dos Negócios Estrangeiros do
Togo. (Créditos fotográficos: Richter Frank-Jurgen –
en.wikipedia.org)

Na verdade, a UA já mudou o mapa em fevereiro. Os 55 estados-membros adotaram a versão “Terra Igual”, depois da campanha ter sido lançada em agosto de 2025, e o Togo ficou responsável por liderar os esforços para levar a questão à ONU em representação da UA.

“Um Mundo justo começa com um mapa justo. Um mapa nunca é neutro”, disse Robert Dussey, ministro dos Negócios Estrangeiros do Togo, citado pela BBC. O Togo defendeu, aquando da votação, que as representações cartográficas desproporcionadas, sobretudo a de Mercator, tiveram efeitos cognitivos, culturais, geopolíticos e socioeconómicos, impelindo a África no imaginário coletivo mundial. “Não se trata de uma discussão ‘política’, mas ‘científica’, porque há evidência científica que nos permite aceitar esta realidade”, enfatizou Dussey.

A resolução da ONU acolheu esta ideia, ao referir-se à intenção de fazer “justiça cognitiva” e “reparação memorial”. E a campanha #CorrectTheMap sublinha a questão de “poder e perceção”, ideia reforçada por Kioko Muendo, um geógrafo do Quénia, em declarações à BBC. O mapa contribuiu, implicitamente, para diminuir a perceção de recursos, de população e de oportunidades, em África, moldando a forma como as regiões são percebidas política e economicamente. Há até ativistas que falam em “colonialismo cartográfico”.

(instagram.com/epandytv)

Os EUA rejeitaram o enquadramento da resolução e classificaram a iniciativa como um projeto ideológico “muito maior e mais radical”, cita o Politico. Yaryna Ferencevych, representante norte-americana na ONU, acusou a resolução de ridicularizar o trabalho e o propósito da Assembleia Geral da ONU, desviando a organização de problemas reais relacionados com a paz e com as riquezas. Ao invés, a França apoiou a resolução e o Ministério dos Negócios Estrangeiros francês declarou que os seus serviços oficiais deixarão de usar a projeção de Mercator e adotarão a projeção de “Eckert IV”, alternativa mais próxima da “Equal Earth”, posição que o The Guardian enquadra como esforço de Paris para melhorar as relações com as suas antigas colónias.

Apesar de a decisão não ser vinculativa, a UA pretende trabalhar nesse sentido. E o governo do Togo planeia realizar, no primeiro trimestre do próximo ano, um encontro dedicado à implementação do novo mapa, com a participação da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e de várias empresas.

***

Uma África encolhida, uma Gronelândia e um Norte da Rússia que parecem estender-se até ao infinito constituem um cenário que vai acabar nos mapas da diplomacia francesa.

Ministro da Europa e dos Negócios Estrangeiros, Jean-Noël
Barrot. (pt.wikipedia.org)

O ministro da Europa e dos Negócios Estrangeiros, Jean-Noël Barrot, anunciou, a 4 de setembro, o abandono, pelos seus serviços, da projeção de Mercator. A França passará a usar, em seu lugar, a projeção Eckert IV, que restitui de forma mais fiel as proporções reais dos continentes. Assim, a França surgirá mais pequena no mapa, em comparação com os países próximos do equador, tal como os EUA ou a Rússia.

No seu discurso na Sorbonne, no evento para o grande público “La Fabrique de la diplomatie”, o governante disse que “chegou o momento” de “corrigir” as perceções do Mundo transmitidas por uma cartografia herdada dos navegadores ocidentais do século XVI. “Um mapa nunca é totalmente neutro. Vejam a projeção de Mercator, aquela que cada um de nós conhece desde a infância. As áreas que aí vemos não correspondem às áreas reais: […] Os Estados Unidos [da América], a Rússia e a China ganham uma importância visual desproporcionada face a África, à América Latina ou ao Sudeste Asiático”, declarou.

Jean-Noël Barrot deu também o exemplo da Gronelândia, que tem, aproximadamente, a mesma dimensão que a República Democrática do Congo ou a Argélia, quando, na realidade, “parece quase tão vasta” como todo o continente africano. “Mudar de mapa não muda, evidentemente, o Mundo. Mas corrigir uma representação que o distorce constitui já um ato de verdade”, sublinhou.

Edifício-sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros, no Quai d’Orsay. (pt.wikipedia.org)

Os mapas do Quai d’Orsay não vão mudar de um dia para o outro: o processo já está em curso. O ministério começou, já em 2021, a reduzir a utilização da projeção de Mercator, “com o objetivo de proporcionar uma representação geográfica mais precisa do Mundo”.

Estas cartas foram “progressivamente retiradas” de todos os sites públicos da diplomacia francesa. “As vantagens e os enviesamentos associados a cada modo de representação são abordados em apresentações realizadas durante os diversos eventos em que participam cartógrafos do ministério, acrescenta o Quai d’Orsay, referindo-se às Jornadas Europeias do Património e ao Festival Internacional de Geografia de Saint-Dié-des-Vosges.

A França continuará este trabalho que consiste em dar prioridade, nas suas práticas diplomáticas, a projeções cartográficas adaptadas às diferentes finalidades e mais fiéis às realidades geográficas. Porém, os diplomatas franceses reconhecem que a projeção de Mercator continua a ser pertinente, “num número limitado de casos”, para utilizações regionais ou para locais na zona equatorial, bem como para mapas de navegação.

***

A ONU diz que a resolução não proíbe a projeção de Mercator, “nem impõe um mapa único”, mas encoraja os governos, os estabelecimentos de ensino, as organizações internacionais e as empresas tecnológicas a recorrerem à projeção “Terra Igual” ou a outros mapas “equivalentes”, que preservam as proporções reais das áreas. A França associou-se a esta orientação, mas adotou a projeção Eckert IV, criada em 1906 (o comprimento das linhas polares é metade do equador, e as linhas de longitude são semielipses ou partes de elipses). É próxima da “Terra Igual”, recomendada pela ONU, embora não idêntica. Ambas representam, de forma mais fiel, a dimensão dos continentes do que a projeção de Mercator, mas diferem, ligeiramente, na forma que atribuem aos continentes.

(instagram.com/bandnewstv)

Como lembra a ONU, a cartografia de Mercator não desaparecerá. Plataformas digitais, como o Google Maps, também têm, hoje, uma versão desta projeção. E, nas escolas francesas, a maioria dos planisférios continua a usar Mercator. “Encontram-se Eckert ou Peters nalguns manuais, mas é muito raro”, diz Grégory, professor agregado de História-Geografia em Rennes.

A ideia não é eliminar, totalmente, a projeção de Mercator, mas introduzir uma representação do globo terrestre, onde a África e a América Latina ficam com dimensões proporcionais, face aos outros continentes. De facto, o mapa-múndi atual aumenta a distorção, à medida que uma região se afasta do Equador. E, como a África e a América Latina são cortadas pelo Equador, tendem a parecer menores do que o tamanho real, comparativamente com a Europa, América do Norte, Gronelândia e Rússia, sobredimensionadas na projeção de Mercator.

(instagram.com/geoludica)

No último ano, a campanha #CorrectTheMap tem ganho cada vez mais assinaturas, porque o continente africano tem sido central, na resolução de desafios globais, pelo que é essencial que seja “representado na sua verdadeira escala”. Assim, o objetivo é incentivar uma utilização mais adequada das diferentes projeções cartográficas: manter a projeção de Mercator, quando as suas caraterísticas são úteis, como na navegação, e recorrer a mapas de áreas equivalentes, para comparar, de forma rigorosa, a dimensão dos continentes.

***

Não é colonialismo, nem anticolonialismo, mas evitar o erro, quando ele prejudica.

.

07/09/2026

Siga-nos:
fb-share-icon

Louro Carvalho

É natural de Pendilhe, no concelho de Vila Nova de Paiva, e vive em Santa Maria da Feira. Estudou no Seminário de Resende, no Seminário Maior de Lamego e na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi pároco, durante mais de 21 anos, em várias freguesias do concelho de Sernancelhe e foi professor de Português em diversas escolas, tendo terminado a carreira docente na Escola Secundária de Santa Maria da Feira.

Outros artigos

Share
Instagram