O Éden que nunca nos abandonou

 O Éden que nunca nos abandonou

“O Jardim do Éden”, obra de Erastus Salisbury Field. (Créditos de imagem: Reprodução/Wikimedia Commons – extra.globo.com)

“O Oeste Global” é o título do texto que hoje também publico no jornal sinalAberto e que resultou da minha longa incapacidade para aceitar o mundo em que vivemos, de agressões, de ódios, de guerras permanentes, de egoísmos, de destruição, de desprezo pela natureza humana, de inferno. No fundo, é a imagem do mundo ao contrário. E foi esta ideia do mundo ao contrário que  fez ecoar em mim o conceito de “Éden”, uma palavra há muito esquecida no meu imaginário.

Há palavras que carregam mundos inteiros. “Éden” é uma delas. Dizemos o nome e, sem esforço, aparece uma imagem: um jardim perfeito, luz suave, água limpa, silêncio bom. Um lugar onde nada falta e nada dói. Mesmo quem nunca leu o “Génesis” sabe do que se trata. O Éden entrou na cultura como entram os sonhos: sem pedir licença. Surgiu, antes de tudo, como a ideia de um começo feliz. Um início sem medo, sem pressa, sem luta. Um tempo em que a vida não era uma corrida, mas uma casa aberta.

“O Jardim do Éden com a Queda do Homem” (cerca de. 1615), esta pintura foi executada por dois mestres flamengos: Pieter Paul Rubens, o Velho, e Jan Brueghel. (mauritshuis.nl)

Na história bíblica, Adão e Eva viviam ali como quem vive num verão sem fim: frutos ao alcance da mão, animais que não atacam, trabalho que não cansa. Mas o mais importante não era a paisagem, era a sensação. A sensação de que o mundo fazia sentido. De que tudo estava no lugar certo. Quando o Éden se perde, perde‑se a harmonia. E talvez seja por isso que o Éden ficou a morar na nossa imaginação. Não como um sítio real, mas como uma saudade. A saudade de um mundo que nunca tivemos, mas que gostaríamos de ter tido.

Ao longo dos séculos, foi mudando de forma. Para uns, tornou‑se o Paraíso depois da morte. Para outros, uma utopia política. Para outros ainda, um estado de espírito: paz interior, simplicidade, silêncio. Hoje, no mundo que temos – cheio de ruído, de pressa, de guerras, de disputas, de fronteiras, de medos –, o Éden funciona como contraponto. É o espelho que nos mostra o que falta: a calma, a confiança, a beleza sem preço, a vida sem ameaça.

O Jardim do Éden”, de Lucas Cranach der Ältere, uma representação alemã século XVI do Jardim do Éden. (pt.wikipedia.org)

Quando falamos de florestas destruídas, “perdemos um Éden”. Quando vemos uma criança brincar sem medo, estamos a observar “um pedaço de Éden”. Quando encontramos um momento de paz no meio do caos, sentimos que “é o que o Éden queria ser”.

(Créditos fotográficos: Damian Markutt – Unsplash)

O Éden não é geografia. É um desejo. O desejo de que a vida possa ser mais simples, mais justa, mais humana. O desejo de que o mundo não seja sempre um campo de batalha. O desejo de que a existência não seja apenas sobrevivência. E, no fundo, o Éden é também uma pergunta: se sabemos tão bem imaginar um mundo melhor, porque é que nos contentamos com tão pouco?

Talvez o Éden não tenha existido. Mas continuamos a sentir a sua ausência dentro de nós, como uma memória que não tivemos mas que nos guia. E isso basta para que continue vivo, não no mapa, mas naquilo que esperamos da vida.

Se a espécie humana fosse, na verdade, a detentora da inteligência, guardaria o Éden bem guardado no centro da sua memória e no fundo do seu coração. Recusaria viver na “selva” em que transformou o planeta. Olharia para trás e tentaria restaurar as maravilhas do Éden inicial, sem ódio, sem medo, sem inveja, sem crime, sem miséria, sem egoísmo. Uma sociedade inteligente que tudo faria para voltar à pureza inicial e para proclamar o Éden como modelo político por excelência.

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Nota:

Para definir e relembrar o Éden distante, tive a preciosa ajuda da ferramenta Copilot, da Microsoft.

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07/09/2026

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José Afonso Baptista

José Afonso Baptista é doutorado em Ciências da Educação. Como professor e autor, o seu foco está na organização das aprendizagens, de acordo com os princípios da equidade, da diversidade e da inclusão, numa Escola Autónoma, responsável pela eficácia, pelo sucesso e pela felicidade de todos os seus alunos. Como investigador, deu especial relevo à Educação de Surdos, tema da sua tese de doutoramento e de vários artigos em revistas da especialidade. A sua obra publicada está referenciada no seu ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2107-1997. Merece especial destaque “Dogmas e Fantasmas da Escola”, obra publicada pela Lisbon International Press, em 2026. José Afonso Baptista foi professor destacado (pelo Instituto de Meios Audiovisuais de Educação – IMAVE) na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, além de ter sido metodólogo no antigo Liceu Normal D. João III (atual Escola Secundária José Falcão, em Coimbra), coordenador da Equipa de Apoio Pedagógico (EAP) da região Centro, consultor do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) para Educação em Angola e em São Tomé e Príncipe, bem como diretor regional de Educação do Centro, diretor da Educação da Fundação Bissaya Barreto e professor convidado da Universidade Católica Portuguesa. Foi, igualmente, membro do conselho consultivo de várias instituições públicas.

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