O Oeste Global

 O Oeste Global

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

Há quem ainda acredite que o Mundo é governado por tratados, convenções e assembleias. É uma crença piedosa, quase religiosa. Como acreditar que o xerife chega sempre a tempo ou que o juiz é incorruptível. Mas basta olhar com atenção para perceber que a política internacional se parece, cada vez mais, com um velho filme western: poeira no ar, cavalos nervosos, armas à cintura e uma lei que só existe para quem a consegue impor.

No Oeste Global, os mapas são como cercas de madeira: movem‑se com facilidade. O Estreito de Ormuz transforma‑se num desfiladeiro estratégico que um pistoleiro decide controlar, porque sim. A Gronelândia é vista como um vale fértil que alguém tenta comprar como quem compra um rancho. A Ucrânia é tratada como território sem dono, pronto a ser invadido, queimado, repartido. Beirute, no Líbano, é uma cidade sitiada onde os tiros ecoam até que o mais forte imponha a sua ordem. Cuba, Venezuela e Canadá são nomes diferentes para o mesmo enredo: quem tem armas, manda; quem não tem, perde.

“Três Homens em Conflito”, filme de 1966, embora tenha uma história autónoma, faz parte da chamada “Trilogia dos Dólares”, de Sérgio Leone. (Créditos de imagem: Reprodução/IMDb – techtudo.com.br)

Os presidentes de hoje não são muito diferentes dos pistoleiros de outrora. Chegam à cidade, olham em volta e declaram: “Isto agora é meu.” Uns fazem‑no com tanques, outros com sanções, outros com drones, outros com tratados que valem tanto como promessas feitas ao cair da noite. A diplomacia tornou‑se uma mesa de salão: negocia‑se com um sorriso, mas a mão está sempre perto do coldre.

As organizações internacionais, essas, são como os xerifes cansados. Têm estrela ao peito, mas pouca munição. Falam alto, mas não metem medo a ninguém. Quando tentam impor ordem, os grandes ranchos riem‑se: sabem que a lei é fraca e que a justiça chega sempre tarde demais para quem já perdeu o gado, a água ou a terra.

Denny Glover, Kevin Kline, Scott Glenn e Kevin Costner compõem o elenco do western “Silverado”. (Créditos de imagem: Divulgação/Columbia Pictures – gazetadopovo.com.br)

Os pequenos Estados vivem como colonos isolados. Cultivam o que podem, defendem o que têm, esperam que o próximo cavaleiro que apareça no horizonte não venha para incendiar o celeiro. Alguns tentam alianças, outros constroem cercas, outros rezam. Mas todos sabem que, no Oeste Global, a segurança é uma ilusão que dura até ao próximo tiro. E há tiros todos os dias.

A verdade é simples e brutal: o mundo não está a ser governado, está a ser disputado. Não há moral, há interesse. Não há direito, há força. Não há comunidade internacional, há bandos. E cada bando tem o seu chefe, o seu território, a sua ambição, o seu arsenal.

“Ataque dos Cães” (“The Power of the Dog”) foi realizado e escrito pela cineasta neozelandesa Jane Campion. (Créditos de imagem: Divulgação/Netflix – techtudo.com.br)

O que resta aos espectadores deste filme? Talvez apenas reconhecer que já não estamos num western clássico, com heróis de chapéu branco e vilões de chapéu preto. Estamos num western crepuscular, daqueles em que todos têm as mãos sujas, todos mentem, todos disparam, todos reclamam inocência. Um mundo onde a única regra é esta: quem controla o poço, controla a cidade; quem controla a cidade, controla o desfiladeiro; quem controla o desfiladeiro, controla o destino dos que tentam passar.

O Oeste Global não é ficção. É o que vemos todos os dias, disfarçado de diplomacia, de estratégia, de defesa nacional. Porém, basta retirar o verniz para perceber: estamos a viver num filme de cowboys. Só que ninguém nos garante que o final será feliz.

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04/09/2026

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José Afonso Baptista

José Afonso Baptista é doutorado em Ciências da Educação. Como professor e autor, o seu foco está na organização das aprendizagens, de acordo com os princípios da equidade, da diversidade e da inclusão, numa Escola Autónoma, responsável pela eficácia, pelo sucesso e pela felicidade de todos os seus alunos. Como investigador, deu especial relevo à Educação de Surdos, tema da sua tese de doutoramento e de vários artigos em revistas da especialidade. A sua obra publicada está referenciada no seu ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2107-1997. Merece especial destaque “Dogmas e Fantasmas da Escola”, obra publicada pela Lisbon International Press, em 2026. José Afonso Baptista foi professor destacado (pelo Instituto de Meios Audiovisuais de Educação – IMAVE) na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, além de ter sido metodólogo no antigo Liceu Normal D. João III (atual Escola Secundária José Falcão, em Coimbra), coordenador da Equipa de Apoio Pedagógico (EAP) da região Centro, consultor do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) para Educação em Angola e em São Tomé e Príncipe, bem como diretor regional de Educação do Centro, diretor da Educação da Fundação Bissaya Barreto e professor convidado da Universidade Católica Portuguesa. Foi, igualmente, membro do conselho consultivo de várias instituições públicas.

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