Viagem no tempo à boémia Coimbrã (2)

 Viagem no tempo à boémia Coimbrã (2)

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

Se, em agosto, deixámos o nosso amigo Nicolau da Costa com um galinheiro nas mãos e a roupa no prego, com a rentrée de setembro, vamos terminar a viagem no tempo inspirada pelo seu livro “Boémia Coimbrã (dos anos quarenta)”, publicado em 1975. E começamos in medias res com Nicolau e alguns companheiros a terem uma ideia peregrina: já que não havia dinheiro para todos irem de comboio à Figueira da Foz, decidiram ir a pé.  

Calhabé, na Coimbra de outros tempos. (calhabecirculacao.blogspot.com)

Partem à meia-noite – desde o Calhabé!1 – e conseguem chegar até Pereira, uma vila a cerca de 15 quilómetros de Coimbra. Outra situação plena de decisões duvidosas. Cansados e cheios de pó, os estudantes decidem que a melhor opção é ir ao barbeiro para parecerem mais apresentáveis. Discutem o preço com o senhor – utilizando uma expressão que caiu em desuso, mas devia voltar: “Olhe que nós não somos da Lourinhã!” – e acabam por fugir após deixarem os poucos tostões que tinham. Depois, entra a fome, mas lembram-se de que um conterrâneo vive por perto e conseguem um almoço, aproveitando-se da boa educação da esposa do senhor. No final, chegam à Figueira à boleia, uma ideia que podiam ter tido antes de caminhar tanto.

O antigo estádio do Calhabé, em Coimbra. (dk.pinterest.com)

Não duvido de que histórias como esta e as da crónica anterior tenham acontecido. Relatos divertidos quando o pior já passou e os joelhos rangem demais para voltar à pândega. Contudo, como com qualquer memória, muita Coimbra da década de 1940 não chega às páginas. Nicolau da Costa narra um mundo muito masculino onde se fala muito pouco do feminino. Não é de estranhar: as estudantes eram uma minoria que se queria “discreta, honesta e de acordo com o seu sexo”. Nicolau até lembra um professor cuja grande característica era não acreditar que mulheres deveriam estar na universidade.

Outro aspeto que não se toca é a questão da ditadura e do Estado Novo, mesmo com um capítulo dedicado às interações com polícias que, muitas vezes, eram mais companheiros do que antagonistas de Nicolau. O que não impede que, em alguma vez, o tenham “catrafilado”. Sempre sem consequências de maior. Mesmo isto mostra uma tensão escondida: esta era uma Coimbra onde a linha entre futricas e doutores era bem real, em que os estudantes tinham um estatuto especial e, como hoje, viviam desligados da realidade de quem mora em Coimbra a tempo inteiro. Quando as galinhas se criam em casa para consumo próprio, roubá-las já não tem tanta piada.

Esplanada Silva Guimarães, na Figueira da Foz, na década de 1940. (facebook.com/municipio.figueiradafoz)

Vejo nestas páginas estudantes como eu fui e como outros continuam a ser. Pessoas que estudavam quando tinham de estudar – nas palavras de Nicolau, quando chegava a hora “estudávamos como bebíamos ou falávamos, sem método e à tonelada” –, bebiam, ficavam deprimidas por questões amorosas e tomavam decisões duvidosas, muitas vezes, sem saber bem porquê.

Acho que Nicolau da Costa escreveu “Boémia Coimbrã” mais por diversão do que por outra coisa, mas acabou por deixar-nos um artefacto quase arqueológico. Ele dedica grande parte do livro a relembrar, com muito carinho, colegas – esses “grandes Cowboys dos Anos Quarenta” – e professores. De caminho, deixa-nos espreitar e ver como se fazia esta boémia em condições tão diferentes das nossas. Fora as pequenas infrações, pois claro.

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

Quantos disparates e parvoíces se perdem para depois serem reinventados pela geração seguinte? Jantares de curso que se tornaram épicos, festas onde parecia que as vidas mudaram para sempre. Filmes que vivemos. E que, salvo quando um Nicolau os imortaliza, desaparecem quando a pasta e as fitas se guardam no armário.

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Nota da Redacção:

1 – Como nos diz a Infopédia, o termo resulta de “calha bem”, alcunha de um taberneiro alcoólico evocado numa poesia em “latim macarrónico”, inserta no “Palito Métrico”, colectânea de tradições literárias e praxistas conimbricenses. Registe-se ainda a existência dos topónimos “Calhabém” e “Calhabéu”, de origem semelhante.

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07/09/2026

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Marco Dias Roque

Jornalista convertido em “product manager”. Formado em Comunicação e Jornalismo pela Universidade de Coimbra, com uma passagem fugaz pelo jornalismo, seguida de uma experiência no mundo dos videojogos, acabou por aterrar no mundo da gestão de risco e “compliance”, onde gere produtos que ajudam a prevenir a lavagem de dinheiro e a evasão de sanções. Atualmente, vive em Londres, depois de passar por Madrid e Barcelona. Escreve sobre tudo o que passe pela cabeça de um emigrante, com um gosto especial pela política e as observações do dia a dia.

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