Nas nossas mãos
(Imagem de domínio público gerada por IA)
Já pouco ou nada se pode fazer sem que, pelo menos de alguma forma, estejamos a utilizar tecnologias da informação. Fi-lo enquanto escrevia este texto, fazem-no agora todos os que o leem. Fazemo-lo enquanto trabalhamos e, também, quando procuramos momentos de descanso e lazer. No nosso mundo fortemente tecnológico, já nem sequer nos apercebemos o quão dependentes estamos das comunicações e do processamento de informação. E isso, em si mesmo, não é mau, estando, de facto, na base do extraordinário desenvolvimento da sociedade atual.
Mas o que nos trouxe até aqui? O que nos transformou em seres inteligentes capazes de construir ferramentas tão poderosas como as que utilizamos hoje? Nesta matéria, muitos antropólogos estão de acordo em que o fator que impulsionou o nosso desenvolvimento cerebral foi começarmos a deslocarmo-nos sobre os dois membros posteriores, o que libertou os membros anteriores e, em particular, as nossas mãos, para outras tarefas. Com o tempo, passámos a utilizar as mãos para tarefas muito mais refinadas do que a mera locomoção, como o fabrico de ferramentas e, até, a expressão artística, estimulando, dessa forma, o crescimento do cérebro.
Ao longo dos últimos milénios, a utilização das mãos para todo o tipo de tarefas acentuou o papel que estas desempenharam na evolução da nossa espécie. O ritmo lento e reflexivo do trabalho manual favoreceu a compreensão, permitiu a consolidação da informação na memória, criou um ambiente cognitivo estável. As mãos faziam-nos pensar melhor. E pensar melhor tornava-nos melhores na utilização das mãos. Até que esse nosso cérebro, altamente desenvolvido, criou as tecnologias da informação e comunicação.

Com estas tecnologias e os dispositivos que lhe estão associados, surgem agora sinais extremamente alarmantes, quer nas camadas jovens quer na sociedade, em geral, como sejam a diminuição da capacidade de concentração, de compreensão e de memorização. Para além disso, o acesso praticamente ilimitado a informação que, habitualmente, é escolhida por algoritmos que procuram o envolvimento e dependência emocional, tem efeitos catastróficos na personalidade, com impacto fortemente negativo na atenção, nas relações sociais e na perceção da realidade. Todos estes fatores podem ser fortemente agravados pela inteligência artificial, já que esta é utilizada, entre outras coisas, para substituir esforço cognitivo e reduzir a prática de escrita e de formulação próprias.
A perceção de que a utilização massiva de dispositivos digitais, sobretudo nas idades mais precoces, pode ter custos cognitivos extremamente gravosos levou a que, nos últimos anos, vários países do Norte da Europa, frequentemente apresentados como modelos de modernidade educativa, começassem a travar a digitalização intensiva das salas de aula. A Suécia é um dos exemplos mais citados. Depois de uma aposta decidida em tablets e computadores individuais no ensino básico, o debate público tornou claro que os resultados não corresponderam às expectativas. Também na Finlândia, referência recorrente em matéria de educação, se discute hoje a necessidade de reequacionar o uso das tecnologias.
Reconhece-se, agora, que a escrita manual não é um mero hábito antigo e obsoleto. Ao escrever à mão, os alunos sintetizam, organizam, compreendem e decidem o que registar. Além disso, a utilização das mãos exercita múltiplas áreas do cérebro, essenciais para o desenvolvimento. Como referimos no início deste texto, foi assim – exercitando as mãos – que nos tornámos nos seres inteligentes de hoje. A lentidão do gesto obriga à reflexão. Mas a rapidez dos ambientes digitais, pelo contrário, favorece a transcrição quase automática. A diferença é, claramente, neurológica. A escrita manual ativa circuitos cerebrais ligados à memória e à consolidação do conhecimento.

O mesmo se passa com a leitura em papel. Diversos estudos apontam para melhor compreensão e retenção quando o texto é lido num suporte físico, talvez porque o livro, enquanto objeto, ofereça uma estrutura espacial estável que ajuda a organizar mentalmente a informação.
Tudo isto contrasta com as tecnologias que, tipicamente, introduzem um ambiente de estímulos divergentes. Mesmo quando são usadas com fins educativos, as tecnologias implicam notificações, alternância rápida de tarefas e múltiplas janelas abertas, o que fragmenta a atenção e, portanto, prejudica a aprendizagem.
É claro que isto não significa que devamos regressar a uma escola pré-digital. As ferramentas tecnológicas são, hoje, indispensáveis na sociedade e, também, no ensino. De facto, o problema não é a utilização de tecnologias na escola, mas sim a sua utilização acrítica, substituindo o professor, o pensamento crítico, a reflexão e a análise.

Todavia, o problema não se limita à sala de aula. A escola já não compete apenas com o recreio ou com a televisão – que poucos veem – mas com algoritmos sofisticados, desenhados para monopolizar a atenção. Plataformas como TikTok, Instagram e YouTube não existem para educar, mas para reter utilizadores. Cada segundo adicional traduz-se em lucro para os donos dessas plataformas e, por isso, cada estímulo é calculado. Privilegiam-se ambientes em que a recompensa é imediata, constante e superficial. Depois, dentro ou fora da escola, surpreendemo-nos quando a concentração diminui e o esforço prolongado se torna penoso.
A continuar assim, estamos a formar consumidores de conteúdo, não produtores de pensamento. Jovens que seguem influencers, mas não conseguem sustentar uma argumentação de duas páginas; que dominam aplicações, mas não dominam conceitos; que navegam com destreza, mas sem direção.
Tudo isto nos coloca perante uma escolha que não é técnica, mas, sim, civilizacional. Queremos cidadãos capazes de pensamento crítico e com autonomia intelectual ou indivíduos permanentemente ligados, permanentemente estimulados, permanentemente distraídos? A escolha, aparentemente fácil, tem-se revelado, no entanto, muito mais difícil do que seria de esperar, a avaliar pela gravidade dos efeitos das tecnologias na saúde mental, que já se fazem sentir.
O que fazer, então com as tecnologias da informação e comunicação? Proibir? Banir? Demonizar? Essas seriam atitudes erradas. A única abordagem possível é a da educação, fomentando uma utilização responsável, ensinando os utilizadores a perceber quando são vantajosas e quando são prejudiciais. Para isso, é claro, há que ter a coragem de mudar políticas, o que é sempre difícil. Mas, felizmente, neste caso, pode-se dizer que, por muito difícil que seja essa mudança, a solução está, literalmente, nas nossas mãos.
.
02/03/2026