Basileia
(Créditos fotográficos: Claudio Schwarz – Unsplash)
Reino de Deus e urbe humana. Demasiado humana?

Nos idos do século XVIII, emergiu uma corrente de pensamento dita humanista que considerava o uso da cor sendo um atraso intelectual. Argumentavam que as estátuas gregas nuas de cores representavam o apogeu, o máximo do humano. Nem mesmo se davam conta de que a quase totalidade delas, no passado, eram pintadas. Tão-somente o passar do tempo tirou-lhes as cores. Originalmente, ocorriam aos olhares coloridas.
A “moda” pegou: as cidades europeias revestiram-se de tons pastéis, neutros, “humanizaram-se” rendidas ao rigor da evidência de que menos é mais. Será? Até hoje, nos dias frios, as pessoas usam roupas pretas, cinzentas, castanhas. Assimilam o temperamento do clima, conquanto descoloridas julgam-se humanas, demasiado humanas?


Há uma cidade que contradiz tudo isso: tem nas cores a promoção do humano com o apoio do Divino. Essa cidade é a Basileia. (Teologicamente: o Reino de Deus, onde a sua vontade é soberana, estabelecida e prevalece.) Ao que parece, naquelas paragens suíças, Deus aposta nas cores, incita os humanos a colorirem e nem mesmo Kant, Goethe, Nietzsche, que ali viveram e sendo grandes humanistas, tiveram outra escolha para os seus olhares, a vontade divina prevaleceu na paisagem: o prédio da prefeitura é vermelho, renascentista, a Catedral (construída entre 1019 e 1500, nos estilos românico e gótico) é rosada e tem telhados coloridos voltados para o céu, assim como o Spalentor, portão medieval da cidade velha (um dos três portões sobreviventes da cidade de Basileia).
O. rio Reno que ali faz uma curva é absurdamente azul – e é assim que é visto, por onde quer que se olhe. Permeado pelo verde das árvores que se desverdecem somente quando chega o frio. O rio, no Verão, é o “caminho” favorito das pessoas que se jogam nele para executarem o seu lazer ou mesmo ao voltarem para a casa. Verão desde a água até à cidade alta esplendorosa. As casas têm janelas coloridas.

Tal liberdade criativa – digamos: artística – também incide nos inúmeros museus interativos que incitam as criaturas a desenvolverem percepções “divinas” quanto às criações. Escuta-se a voz sussurrante dos pintores, num jardim com esculturas e águas que dançam ao ritmo de sons envolventes. Repetem o antigo morador, o psiquiatra e psicoterapeuta Carl Gustav Jung (1875–1961), que descobriu na cidade ou formulou o conceito de “inconsciente coletivo”.
Todavia, trata-se de uma arte a não propor barreiras. A Basileia não as tem, basta andar “um quilómetro” e estaremos em França. Com “um outro quilometro”, estamos na Alemanha. Falam ali Alemão, mas agradecem-nos com um “merci”. Ao estar nesta cidade; visitei três países e, talvez, o Reino de Deus, um sítio divino onde a cor e o humano permanecem harmonizados. Um lugar voltado para a criação do humano, demasiado humano, com aprovação divina.
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01/06/2026