Portugal é destino “de confiança” para cabos submarinos
Nuvem: novo sistema de cabos submarinos da Google que ligará Portugal, Bermudas e os EUA. (aicep.com)
A 21 de julho, sob o título “Nuvem já está amarrado em Sines, reforçando Portugal como destino ‘de confiança’ para cabos submarinos”, o ECO online publicou um texto do jornalista Tiago Alexandre Pereira, revelando que o cabo submarino “Nuvem”, de cerca de sete mil quilómetros, da Google, já está amarrado em Sines, reforçando o papel de Portugal nas ligações digitais entre a Europa e os Estados Unidos da América (EUA), e que a nova infraestrutura transatlântica, a entrar em funcionamento, em 2027, “liga Myrtle Beach, na Carolina do Sul, a Sines, na costa alentejana, com passagem pela ilha açoriana de São Miguel e pelas Bermudas”.

Segundo a gigante tecnológica de Mountain View, o “Nuvem” será o primeiro sistema de cabos submarinos a ligar, diretamente, os EUA aos Açores e a Portugal continental, bem como o primeiro sistema transatlântico a ter um ponto de aterragem nas Bermudas.
Como explica o jornalista, o “Nuvem” consiste num novo sistema de cabos submarinos transatlânticos, concebido para reforçar a resiliência das ligações de rede, no Atlântico, a fim de responder ao aumento da procura por serviços digitais e de diversificar as rotas internacionais de conectividade. E, para a Google, o projeto contribuirá para o desenvolvimento da infraestrutura de tecnologias de informação e comunicação (TIC), nos países abrangidos.
Também a 23 de julho, surge na Euronews, sob o título “Sete mil quilómetros de cabos submarinos vão ligar Portugal aos EUA: o que é o sistema ‘Nuvem’?”, em que a jornalista Ema Gil Pires, refere que, “anunciada, pela primeira vez, pela Google, em 2023, a nova ligação transatlântica de cabos submarinos conectará Portugal, as Bermudas e os Estados Unidos [da América]”, prometendo a explicação do projeto, dos objetivos e dos principais intervenientes.
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Decorreu, na manhã do dia 21, a cerimónia oficial de lançamento do sistema de cabos submarinos transatlânticos “Nuvem”, da Google, no Oceanário de Lisboa. No seu discurso, no evento, o ministro Adjunto e da Reforma do Estado, Gonçalo Saraiva Matias, afirmou que está em causa um novo investimento que visa ligar “a América do Norte e a Europa, ao longo de um novo corredor digital que atravessa o Atlântico”.

Gonçalo Saraiva Matias.
(historico.portugal.gov.pt)
No dizer do governante, quando “cerca de 95% de todos os dados do Mundo transita por cabos submarinos”, Portugal “chega-se à frente para ser um dos principais atores de um projeto que será o primeiro a conectar, diretamente, o país aos EUA”.
O ministro Adjunto e da Reforma do Estado defendeu que Portugal reúne condições para continuar a atrair investimento tecnológico, destacando que o Estado está a tornar-se “mais rápido, mais simples e mais previsível”, para que os investidores “não encontrem obstáculos, mas parceiros”. E considerou que esse esforço explica a sucessão de investimentos em infraestruturas digitais no país.
Gonçalo Matias sublinhou que o “Nuvem” reforça a posição estratégica de Portugal, nas ligações internacionais de dados, e que o cabo “adiciona resiliência” à rede global ao criar rotas alternativas que reduzem a dependência de um número limitado de corredores, garantindo que, quando uma ligação é interrompida, outras asseguram a continuidade do serviço.

O governante frisou que tal redundância fortalece a segurança e a fiabilidade das comunicações, sustentando serviços essenciais, como hospitais, bancos, administrações públicas e cidadãos. E, em seu entender, o projeto mostra que “as soluções tecnológicas mais avançadas também podem ser as mais seguras”.
Por sua vez, John Arrigo, embaixador dos EUA em Lisboa, defendeu que este investimento confirma a crescente aposta norte-americana em Portugal, onde são esperados, até 2031, mais de 40 mil milhões de dólares de investimento tecnológico norte-americano, valor que, na sua ótica, fará do país “a maior concentração de investimento em infraestrutura de inteligência artificial (IA) americana em toda a Europa”. E, segundo o diplomata, a sucessão de investimentos de empresas norte-americanas mostra que Portugal se consolidou como parceiro estratégico.

(pt.usembassy.gov)
O embaixador sublinhou ainda a importância geopolítica dos cabos submarinos, defendendo que Portugal deve continuar a afirmar-se como destino para infraestruturas seguras: “Cada novo cabo de confiança que chega à costa portuguesa é um cabo que deixa de chegar a outro local menos fiável. Devemos garantir que esta infraestrutura crítica seja tratada como tal”, afirmou John Arrigo, vincando que a política dos EUA procura impedir que fornecedores considerados não confiáveis integrem qualquer etapa da cadeia de abastecimento, uma preocupação que é importante para Washington e também o deve ser para Lisboa.
Na sua intervenção, o embaixador apelou à Europa para aprofundar a cooperação com os EUA no desenvolvimento das infraestruturas digitais. “Este é, exatamente, o modelo de que a Europa precisa, agora”, afirmou, incentivando Portugal a levar a mensagem a Bruxelas. Na sua perspetiva, “a escolha da Europa não é entre soberania e parceria”, mas entre “construir o futuro digital com aliados de confiança ou tentar construí-lo sozinho e ficar para trás”. E acrescentou que Portugal, “situado no lado Oeste do Atlântico e no centro do mapa dos cabos transatlânticos”, mostra que “a abertura e a força não são opostas”.

John Arrigo enquadrou o investimento como uma questão de segurança nacional (deveria sê-lo para as duas partes, e não só para os EUA), lembrando que os cabos submarinos transportam mais de 95% do tráfego mundial de dados. Além de suportarem comunicações e transações financeiras, são, como enfatizou o diplomata, fundamentais para a partilha de informação entre os aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), contribuindo para reforçar a segurança coletiva.
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Após o “Equiano”, lançado em 2022 (que aproximou a Europa e a África) e o “Nuvem”, que foi amarrado, agora, em parceria com a MEO, a Google tem prevista, para 2027, a amarração do cabo submarino “Sol” que, embora não passe pelo território continental, ligará a Florida, nos EUA, as Bermudas, os Açores e a Espanha, funcionando de forma complementar ao “Nuvem”. Em conjunto, estes sistemas deverão interligar-se em pontos estratégicos, reforçando a capacidade e a fiabilidade da rede da Google, designadamente, para suportar serviços de cloud e de inteligência artificial (IA).


equipado com 16 pares de fibras ópticas, o ativo foi desenhado
para atingir uma capacidade de tráfego de até 384 Terabits por
segundo (Tbps). (instagram.com/otimesbrasil)
O “Nuvem” foi, inicialmente, anunciado em 2023, durante a governação socialista de António Costa, tendo sido destacado pelo então ministro das Infraestruturas, João Galamba, “como um investimento estratégico para posicionar Portugal como porta de entrada de conectividade para a Europa e para a ligação entre continentes”, vincando a importância da articulação entre o governo português, as entidades nacionais e a Google.
O cabo submarino tem a extensão de cerca de 6900 quilómetros. Em termos de capacidade, cada par de fibras óticas terá um débito total projetado de, aproximadamente, 24 terabits, por segundo (Tbps). No total, o sistema será composto por 16 pares de cabos, o que permitirá atingir uma capacidade agregada de 384 Tbps.

O projeto “Nuvem” prevê ainda a instalação de um data center nos Açores, reforçando o papel do arquipélago como hub estratégico nas comunicações transatlânticas. E a Google prevê que o projeto tenha um impacto de 500 milhões de euros na economia portuguesa e espera posicionar a região no centro das ligações entre a Europa e os EUA, no contexto da crescente procura por capacidade de processamento e de armazenamento de dados.
Em declarações à margem do evento, o presidente do Governo Regional dos Açores, José Manuel Bolieiro, defendeu que a amarração dos cabos submarinos da Google representa “uma importância disruptiva” para o papel do arquipélago, na economia do futuro, e que estas infraestruturas poderão ter papel relevante, enquanto smart cables, que permitem acompanhar indicadores climáticos, ambientais e energéticos.

José Manuel Bolieiro.
(portaldaacorianidade.azores.gov.pt)
Os Açores deixam de ser só “uma ponte” no Atlântico, para assumirem também o papel de “sala de controlo” das novas economias, graças à conjugação da sua posição geográfica com as novas tecnologias. E o governante açoriano considerou que esta estratégia reforça o posicionamento do país na ligação entre a Europa, a África e todo o continente americano.
O líder do Governo Regional alertou para a necessidade de renovar os cabos submarinos que asseguram as ligações entre os Açores e o continente, salientando que parte dessas infraestruturas já está em fim de vida útil. “Temos vindo a criar, pressão, porque o chamado Anel CAM, que é a responsabilidade do Estado, e que liga, exatamente, o continente aos Açores e à Madeira, tem de ter redundância. Já terminou a vida útil dos atuais cabos, está na hora de os substituir e [de] fazer um upgrade”, conclui José Bolieiro.
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Ema Gil Pires lembra que o projeto foi anunciado, pela primeira vez, pela Google, em 2023, tendo sido, imediatamente, descrito como “um novo sistema de cabos submarinos transatlânticos” para ligar Portugal, as Bermudas e os EUA. De acordo com a empresa, do lado norte-americano, “o ‘Nuvem’ terá como ponto de amarração a Carolina do Sul”, mais concretamente, Myrtle Beach e, em Portugal, Sines será o terminal, com pontos intermédios nas Bermudas e nos Açores.

Unsplash)
Sobre a importância dos cabos, a jornalista, sustenta que estes são a espinha dorsal da Internet mundial, visto que são responsáveis pelo transporte de cerca de 99% de todo o tráfego internacional de dados, desde chamadas, mensagens e vídeos até pagamentos. Sem eles, a comunicação global, transações financeiras e serviços em nuvem seriam inviáveis, já que os satélites não possuem capacidade de banda suficiente.
Ao contrário dos satélites, que podem ser afetados por condições atmosféricas, os cabos repousam no leito oceânico profundo, protegidos por múltiplas camadas de aço, de cobre e de polímeros, que os protegem da pressão, das correntes e até de ataques de tubarões.
É óbvio que os cabos submarinos não estão completamente imunes a avarias, mas a maioria ocorre, acidentalmente, por atividade humana, como a pesca ou a ancoragem, seguidas por riscos naturais, como terramotos, deslizamentos submarinos e tsunamis. Além disso, desafios, como a infraestrutura envelhecida e ambientes regulatórios complexos, podem complicar os esforços para manter a resiliência.
A nível dos objetivos do “Nuvem”, Ema Gil Pires recorda que, ao anunciar o projeto, a Google frisou que o “Nuvem” visava “melhorar a resiliência da rede, no Atlântico, e ajudar a responder à procura crescente por serviços digitais”. Ao mesmo tempo, explicitou que o “percurso do novo cabo” pretende “acrescentar diversidade às rotas internacionais e apoiar o desenvolvimento da infraestrutura de tecnologia de informação e comunicação (TIC), para os continentes e [para os] países envolvidos”.

Do discurso do ministro Gonçalo Matias, na cerimónia de lançamento do “Nuvem”, a jornalista salienta a asserção de que o estabelecimento deste novo sistema “faz mais do que acrescentar mais uma linha” do Atlântico, criando “percursos alternativos para a transmissão de dados” e reduzindo “a dependência da Europa, em relação a um pequeno número de corredores sobrecarregados”. Portanto, o projeto oferece “resiliência”.
Quanto aos envolvidos, o ministro Adjunto e da Reforma do Estado explicitou que o sistema “Nuvem” é um projeto que assenta “na parceria entre a Google e a MEO, entre a ambição pública e o investimento privado, entre duas nações”, Portugal e os EUA, há muito unidas pelo mesmo oceano que, “agora transporta os nossos dados”. E a MEO, em comunicado citado pela agência Lusa, confirmou que vai integrar o sistema de cabo submarino Nuvem, ao tornar-se “investidor e parceiro nacional de uma das mais relevantes infraestruturas digitais do Atlântico”.
No entanto, a MEO não concretizou que investimento realizará no âmbito deste projeto, apenas adiantou que, “ao estabelecer uma ligação direta entre Portugal e os EUA, o sistema reforça, igualmente, a atratividade do país para investimentos em centros de dados, [em] plataformas cloud e [em] serviços tecnológicos globais”.
Porém, como vimos e Ema Gil Pires sublinha, este não é o primeiro investimento deste tipo realizado pela Google, em pleno Oceano Atlântico. Em 2022, o “Equiano” contribuiu para aproximar a Europa e a África. E, tal como descrito pela gigante tecnológica norte-americana, este é um cabo submarino que “começa na Europa Ocidental e percorre a costa oeste da África e liga Portugal à África do Sul, aumentando a conectividade e as oportunidades de envolvimento entre países da Europa e de África”.

À sua instalação seguiu-se a de “Firmina”, um enorme cabo submarino instalado pela tecnológica com vista a conectar a costa Leste dos EUA, uma vez mais, por via da Carolina do Sul, à América do Sul (Argentina, Brasil e Uruguai), não envolvendo, portanto, Portugal.
Porém, ainda sob a alçada da Google, o país espera alojar, em 2027, outro projeto: o “Sol”. Este será, como refere a empresa tecnológica norte-americana, “um novo sistema de cabos submarinos transatlânticos que conectará os EUA, as Bermudas, os Açores e a Espanha”, completando, assim, “o investimento único” da empresa em “resiliência transatlântica”.
A razão de este investimento ser em Portugal é geográfica. “Situamo-nos no extremo ocidental da Europa, no ponto mais próximo das Américas, a ponte natural para África”, sublinhou o governante responsável pela pasta da Reforma do Estado. E a Google tinha já destacado este ponto, apontando que a “localização geográfica estratégica” do país “no Sudoeste da Europa continental” o transformou num “porto para cabos submarinos”.
Porém, o governante acrescentou que o país oferece: “estabilidade, num Mundo onde esta escasseia”; “talento – engenheiros, investigadores, uma geração jovem versada em tecnologia e em línguas”; e “energia limpa e competitiva, de que os centros de dados necessitam tanto quanto precisam de ligação”.
Na verdade, Portugal destaca-se como um dos líderes europeus na transição energética. A Pordata, no “Retrato Ambiental de Portugal, feito a propósito do Dia Mundial do Ambiente, que se assinalou a 5 de junho, releva que o país está entre os quatro estados-membros da União Europeia (UE) onde mais de 95% da energia produzida tem origem em fontes renováveis (97,8%), com base em dados referentes a 2024. Porém, para a Google, outro fator revelou-se importante: o “foco do país no reforço da infraestrutura da economia digital”.
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Internacional de Telecomunicações, Tomas
Lamanauskas. (cerre.eu/biographies/tomas-
lamanauskas)
Os cabos submarinos são uma infraestrutura “essencial para a vida moderna e para a economia europeia”. O secretário-geral adjunto da União Internacional de Telecomunicações (UIT), Tomas Lamanauskas, chama-lhes autoestradas digitais, pois transportam enormes quantidades de informação, em pouco tempo, e oferecem menor latência (tempo necessário para um sinal viajar da origem ao destino), bem como preços grossistas mais baixos do que as ligações por satélite. Precisam, no entanto, de vigilância contra ações de sabotagem e contra avarias.
E a Marinha diz que a chegada da Plataforma Naval Multifuncional (o NRP D. João II) será um contributo importante no zelo da soberania, nas águas territoriais e sob jurisdição portuguesa, por onde passam os cabos submarinos, estruturas vitais para as comunicações de dados.
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23/07/2026