Very Nice!
Nice, em França. (Créditos fotográficos: Nick Karvounis – Unsplash)
As companhias aéreas, por vezes, forçam-nos a fazer conexões até chegarmos ao nosso destino. Andava eu pelas Irlandas, farto de chuvas; por isso, ponderei seguir para a Riviera Francesa, para voltar a ter sol. Para voar “low cost”, teria de escolher entre dois caminhos: um seria passar por Edimburgo, na Escócia; o outro seria passar por Londres, em Inglaterra. Não titubeei: escolhi Edimburgo. Não gosto de Londres. Explico as minhas razões.

No ano de 1979, encontrava-me em Paris e agreguei-me a uma excursão de estudantes que se juntaram, decididos a passar um fim-de-semana em Londres. O autocarro saiu bem cedinho; o dia ainda estava escuro. A viagem até Calais fez-se debaixo de chuva e, da janela, via-se tão-somente uma sucessão de camiões. No porto, descemos todos e entrámos no “ferry boat”; o autocarro também viajaria, porém vazio.
A travessia do Canal da Mancha foi estonteante. O clima chuvoso, com fortes ventos, incidia sobre o mar, e as ondas provocavam um baloiço da embarcação verdadeiramente inenarrável. A cadeira em que eu estava sentado movia-se de um lado para o outro. Para me encorajar, tomei uma dose de gin, atribuindo aquele estado de coisas ao efeito da bebida. Por fim, avistaram-se as falésias de giz de Dover. Desembarcou-se naquele mundo “albus”, alvo, de terra firme suspensa sobre o mar revolto.

Mas a velha Albion recebeu-me mal. Os companheiros de viagem, por serem norte-americanos, desembarcaram facilmente: ”Laissez-passer les Américains! Welcome!” Quanto a mim, os guardas de fronteira levaram-me para uma sala, passaram a interrogar-me e fizeram com que eu ficasse apenas em roupa interior. Puseram-se a remexer nas minhas roupas, procurando algo que impedisse a minha entrada. Entretanto, nada encontraram.
Foi inútil a humilhação. As evidências favoráveis a meu respeito comprovavam que eu tinha direito a desembarcar, a entrar em Inglaterra. Lá fora, o motorista francês coçava os bigodes com impaciência. Pensava, com certeza, que da próxima vez não viajaria mais com um latino-americano entre norte-americanos.
O facto é que vi Londres desentusiasmado; achei-a feia. Como a primeira impressão é a que fica, nunca mais quis voltar ali.

Na verdade, enfurecera os guardas ao dizer que deixavam passar os rebeldes que se tinham tornado independentes e estranhavam, dificultando a entrada de quem era natural de uma terra que, à época do Império, declarara o seu porto aberto às nações amigas. Ou seja, naquela época a única amiga era a Inglaterra, que protegia o mundo português contra Napoleão, mas cobrava essa protecção a peso de ouro.
A Inglaterra ganhou o seu viço acumulando tesouros, quer pelas pilhagens dos piratas, quer através das forçadas concessões advindas das ocupações e colonizações. A sua riqueza provinha da exploração. Tentaram punir a minha franqueza, mas não havia qualquer meio legal de impedirem a minha entrada. Enfim, vi Londres com igual desprezo.

Ao embarcar na Escócia, o avião tinha uma fila de três assentos. Viajo sempre no corredor e tinha ao meu lado dois jovens ingleses a conversar; não havia como não os ouvir. A rapariga reclamava da Índia e dos Indianos. Contava ao rapaz que tentara fazer uma viagem em busca de si mesma, recolhendo-se num “ashram”. Contudo, não suportou ficar sem telemóvel, limpar latrinas nem comer sem carne. Descobriu-se avessa a tudo aquilo e, sobretudo, não suportou os limites impostos pelas castas, que demarcam a pobreza indiana e os nascidos favorecidos.
O rapaz, olhando para o telemóvel, queixava-se de lhe terem roubado o anterior numa cidade da América Latina, embora não dissesse qual. Dirigia-se para o Mónaco e afirmava que nunca mais iria a qualquer lugar onde houvesse pobres ou diferentes classes sociais misturadas no tecido urbano. Pensei comigo: raciocínios tão ingleses!

Já em Nice, entrei numa farmácia, nas proximidades da Place Grimaldi, para comprar pensos para os pés; o calçado tinha-me magoado. Na ocasião, o meu desempenho na língua francesa não era nada excepcional. Tentava explicar à funcionária o que queria: um Band-Aid. Ela, como tantos franceses, não revelava qualquer afinidade com o Inglês. Respondeu-me: “Je ne comprends pas.” E voltou-me as costas.
No estabelecimento, encontrava-se um jovem casal que veio em meu socorro. Indicou-lhe o que eu pretendia, e a funcionária retorquiu, com um esnobe orgulho pátrio: “Ah! Oui! Le bandage!”

Saímos os três a rir da pouca propensão dos Franceses para “entender” Inglês. Mas Nice, por sua vez, tivera – ou tem – nos Ingleses uma fonte de contentamento, ou seja, deveras lucrativa. O balneário foi, e continua a ser, desde sempre, um lugar ao sol, objecto da predilecção dos Ingleses, adoradores do Sol.
E os meus novos amigos eram ingleses!
Passeámos pela Promenade des Anglais, seguimos pela Rue d’Angleterre e fomos a uma cave beber vinho e ouvir “les musiciens” cantarem em Inglês. Eu encontrava-me plenamente reconciliado com a Inglaterra. Fizera amigos ingleses.
Nice figurou-se, então, assim para mim: “Very Nice!”
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23/07/2026