O candidato Vieira e a degradação da política

 O candidato Vieira e a degradação da política

(facebook.com/TvSintra)

Um comediante pode, como qualquer cidadão, candidatar-se à presidência da República. Pode também compor um personagem que satirize as várias candidaturas e escancare a hipocrisia das promessas falaciosas. Mas participar efetivamente da campanha, como se fosse a sério, com o lema “só desisto se for eleito”, deveria causar alguma impressão.

Desde 2001, Manuel João Vieira vem lançando a sua candidatura a presidente de Portugal. No fim do ano passado, teve, finalmente, a sua proposta homologada e, na última terça-feira, 6 de janeiro, participou no debate que a RTP realizou com todos os postulantes a Belém. A sua presença, ali, instaurou uma situação inédita num ambiente em que a demagogia está sempre presente, mas pode ser desmascarada, tanto por concorrentes quanto, especialmente, pelo mediador, caso haja empenho, competência e interesse para isso. No meio de candidatos de verdade – mesmo que um deles flagrantemente mentiroso –, Vieira transformou o debate numa farsa.

Manuel João Vieira, em 2028. (pt.wikipedia.org)

Diante disso, cabe ao jornalista entrar no jogo? Não seria possível confrontar o candidato fake sobre a sua opção de transformar a campanha numa comédia, quando há tantos problemas sérios a enfrentar em Portugal e no Mundo, em vez de fingir seriedade e fazer-lhe perguntas sobre o seu programa, sabendo de antemão o que terá como resposta? Os demais concorrentes, por sua vez, ainda que tão distintos entre si, precisam mesmo de submeter-se a essa encenação?

Em algumas das entrevistas como pré-candidato, Vieira mencionou o apoio da classe dominante ao fascismo, o incentivo a “palhaços populistas a dizer disparates” como forma de preservar ou ampliar o seu poder. Exagerar nos disparates – ainda que esta já seja uma fórmula bastante gasta – poderia ser um meio de denunciar o absurdo em que a política se transformou. Mas o caminho adotado, baseado na repetição de promessas estapafúrdias, com piadas frequentemente carregadas de preconceitos, nem sequer arranha a questão crucial e urgente do combate ao fascismo. Pelo contrário, funciona como a outra face do discurso raivoso de terra arrasada, em que a corrupção campeia e a identidade nacional sucumbe diante do crescimento da imigração indesejada.

Manuel João Viera, no concerto dos Ena Pá 2000, em
Coimbra. (pt.wikipedia.org)

O humor sempre foi uma arma poderosa contra o verniz das aparências. Utilizado à margem da campanha, como fazem outros comediantes nos seus programas ou apresentações, pode resultar numa crítica corrosiva aos nefastos projetos de poder que vêm avançando. Incorporado a uma campanha formal, mas que não é para ser levada a sério, apenas contribui para reiterar o senso comum de que “político é tudo igual”, forma mais simples e eficaz de degradação da política, que é exatamente no que a extrema-direita alegadamente “antissistema” investe desde sempre.

Num momento de tamanha gravidade, em que seria tão importante recuperar os valores que orientaram a luta pela democracia, não é difícil perceber a quem serve uma campanha assim.

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Nota do Director:

O jornal sinalAberto, embora assuma a responsabilidade de emitir opinião própria, de acordo com o respectivo Estatuto Editorial, ao pretender também assegurar a possibilidade de expressão e o confronto de diversas correntes de opinião, declina qualquer responsabilidade editorial pelo conteúdo dos seus artigos de autor.

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08/01/2026

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Sylvia Moretzsohn

Sylvia Debossan Moretzsohn atuou como repórter nos principais jornais do Rio de Janeiro e depois como professora e pesquisadora na Universidade Federal Fluminense, onde se aposentou. É mestre em Comunicação e doutora em Serviço Social e mantém a sua atividade de investigação, autónoma ou vinculada a grupos de pesquisa em Portugal (na Universidade do Minho) e no Brasil (nas universidades federais do Rio Grande do Sul e do Ceará). Tem inúmeros trabalhos publicados na área de crítica dos “media” e, na sua atividade académica, dedicou-se principalmente à discussão das relações entre o jornalismo e a vida quotidiana e das transformações no mundo do trabalho dos jornalistas no contexto das novas tecnologias. Atualmente, concentra-se no estudo do processo de desinformação comandado pelas “big techs” e do seu investimento na chamada inteligência artificial generativa, com o objetivo de identificar as formas contemporâneas de alienação e as possibilidades de combatê-la.

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