O espelho daquilo que se faz

 O espelho daquilo que se faz

Uma menina carrega lenha para um fogão de aquecimento numa casa na região de Kiev. (Créditos fotográficos: Unicef / Dmytrii Bortkevych – news.un.org)

Começo a manhã a ler o portal ONU News para me aperceber e, sobretudo, confirmar o que se passa neste planeta que nos deixou nascer e onde pretendemos viver em paz e em segurança. Mas, de facto, não é nada fácil, sabendo das histórias dos sobreviventes, quase sempre humilhados e ofendidos. Este órgão informativo das Nações Unidas, paradoxalmente, dá-nos conta dos países que se guerreiam e que estão de costas voltadas para um conjunto de urgências que os deveria aproximar na vontade de um desenvolvimento sustentável e de práticas prioritárias perante as mudanças climáticas. Intoleráveis são, sem dúvida, as guerras e as faltas de compromissos com a justiça social. 

Comunidade ucraniana manifesta-se na tarde de 22 de Fevereiro de 2026 (domingo), na Praça 8 de Maio, em Coimbra. (© VJS – sinalAberto)

As reportagens humanas despertam-nos a atenção, enquanto leitores ou ouvintes distantes das experiências de milhões de pessoas cujos percursos de vida são desviados e interrompidos, principalmente, pela crueldade dos poderosos e dos imoderados acontecimentos políticos e económicos. Valorizando o contexto social, como se espera de uma organização como a ONU, estas narrativas fazem um apelo emocional para a realidade vivida por tanta gente.

Moradores de Boryspil, no nordeste da Ucrânia, usam um ponto de aquecimento para se aquecerem. (Créditos fotográficos: Ocha / Ximena Borrazas – news.un.org)

Assim, nesta perspectiva fiel aos factos e à sensibilidade de quem observa, as histórias humanas assumem maior importância, como sucede com as populações ucranianas sem energia eléctrica por causa das investidas russas, “afectando particularmente as mulheres” que atravessam um rigoroso Inverno sem isolamento térmico e sem impermeabilização das habitações. A chefe de Acção Humanitária da ONU Mulheres, Sofia Calltorp, testemunha “o sofrimento das famílias que ficaram sem aquecimento, electricidade e abrigo seguro” no meio de condições climáticas “brutais”.

A este respeito, a Euronews também informa que Kiev sofre o pior Inverno de sempre “com ataques de drones kamikaze [e] de mísseis balísticos”, o que “está a causar um sofrimento indescritível, uma vez que os ataques aos sistemas energéticos mergulham os hospitais na escuridão”. A rede de televisão pan-europeia conta-nos ainda que os “implacáveis ataques russos às infraestruturas energéticas ucranianas”, que assinalam a ofensiva em larga escala contra aquele território, deixaram “mais de um milhão de cidadãos” sem electricidade, sem água e sem aquecimento, com temperaturas que chegam a atingir os 23 graus negativos.

Uma mulher do distrito de Horovan, em Kherson, vive num alojamento sem aquecimento. (Créditos fotográficos: Ocha – news.un.org)

Recuperando a narrativa da ONU News, Sofia Calltorp declara que esses apagões não são apenas problemas técnicos, porque comprometem directamente a segurança, a protecção e a estabilidade económica das mulheres ucranianas, restringindo-lhes “severamente a mobilidade” e aumentando “a exposição ao assédio e a acidentes”.

A guerra perpassa a Humanidade num tempo que é função do espaço e também da barbaridade sem sentido. Uma das ideias mais marcantes de André Malraux, tido como figura central da cultura francesa do século XX, é a de que a esperança não é a certeza de que algo acabará bem, mas a convicção de que algo tem sentido, independentemente do resultado.

(Direitos reservados)

No romance “A Esperança”, que prossigo numa leitura bastante demorada, apesar do seu estilo cinematográfico, Malraux cruza a ficção com as experiências reais da Guerra Civil Espanhola (1936-1939), que opôs os republicanos às forças nacionalistas lideradas por Francisco Franco. O escritor – que também integrou a Resistência, por não aceitar a submissão de França ao poder da Alemanha nazi – diz-nos que a guerra não é feita só de estratégia, mas de homens comuns confrontados com escolhas difíceis.

Não obstante o medo, as dúvidas e os sacrifícios, há sempre alguém que partilha a coragem e semeia a esperança, quando tudo parece perdido. A consciência crítica a retirar desta narrativa de dimensão colectiva é a de que a literatura pode e deve envolver-se com o seu tempo. Como existencialista, naturalmente próximo do pensamento de Jean-Paul Sartre, André Malraux alega que “o homem é aquilo que ele próprio faz”.

 

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Nota:

O presente artigo (na versão de crónica) foi publicado na edição de ontem (domingo, 22 de Fevereiro) do Diário de Coimbra, no âmbito da rubrica “Da Raiz e do Espanto”.

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23/02/2026

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Vitalino José Santos

Jornalista, cronista e editor. Licenciado em Ciências Sociais (variante de Antropologia) e mestre em Jornalismo e Comunicação. Oestino (de Torres Vedras) que vive em Coimbra.

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