O fascista mora ao lado… ou mora dentro?
Benito Mussolini e Adolf Hitler inspecionando tropas. (Fonte: Wikipédia – elordenmundial.com)

Falar em retorno do fascismo talvez não seja adequado porque não faz muito sentido falar no retorno de algo que, afinal, nunca deixou de estar aí. Já no início dos anos 70 do século passado, numa comunicação que pode ser lida aqui, o sociólogo Florestan Fernandes afirmava que o fascismo não havia perdido, “como realidade histórica, nem seu significado político nem sua influência ativa”: Hitler e Mussolini foram derrotados no campo de batalha, mas o fascismo, “como ideologia e utopia, persistiu até hoje, tanto de modo difuso, quanto como uma poderosa força política organizada”.

Os “trinta anos gloriosos” do pós-guerra, com a sua promessa de um futuro radioso baseado no avanço da social-democracia, produziram uma ilusão que agora se desfaz com o vigoroso recrudescimento dessa força que jamais foi superada. Tentar compreender por que isso está a acontecer envolve um aspecto ao qual não se costuma dar muita importância, mas que é central: o dos afetos mobilizados para a adesão a uma retórica destrutiva, autoritária e irracional.
“O fascismo é a mobilização de uma violência que visa a modificar os afetos sociais através da dessensibilização e da indiferença”, resumiu o filósofo Vladimir Safatle, numa entrevista em que fala sobre o seu mais recente livro, “A ameaça interna. Psicanálise dos novos fascismos globais” (da Ubu Editora). “É um corpo social marcado pela dessensibilização. Ou seja, eu não sinto mais se você desaparece, se você é exterminado, porque nossa relação não é mais a de fazermos parte de um corpo social só. Em situações como a nossa, onde você tem crise econômica estrutural, crise política de longa duração, crise ecológica, crise demográfica, crise social, numa estrutura de crises conexas que não vão passar, a tendência é que a estrutura autoritária das nossas sociedades se alastre” (sic).

Guerra Mundial. (pt.wikipedia.org)
Safatle defende a tese de que o fascismo é a extensão das relações coloniais com os países centrais. Extermínio, genocídio, campo de concentração, todas as tecnologias de violência do fascismo foram aplicadas inicialmente nas colónias. Foi o que ocorreu no período de dominação colonial dos países imperialistas até os anos 60 do século passado, foi o que os Estados Unidos da América (EUA) praticaram contra parte sua própria população negra, e é o que ocorre, hoje, na repressão aos imigrantes. Por isso, o autor prefere chamar as democracias liberais de “fascismos restritos”, aplicados a determinados setores, numa autoproclamada sociedade democrática. “Não se perde uma democracia, não se passa de uma democracia ao autoritarismo. O germe autoritário está dentro da forma social. Senão você não tem essa degradação”, explicita o autor.

A análise chama a atenção para o que o cineasta Pier Paolo Pasolini já alertava sobre o aspecto cultural, que é a forma pela qual as sociedades se fascistizam. Safatle menciona a indiferenciação entre informação e entretenimento – algo que, como sabemos, vem de longa data e marca a indústria cultural –, que leva a Casa Branca a apresentar “cortes” das investidas do ICE (Immigration and Customs Enforcement) contra imigrantes ao som de “reggae”. É uma forma de dessensibilizar: fazer passar a violência como se fosse uma brincadeira.

esquerda.net)
“Quem controla as formas de sensibilidade controla tudo”, diz o filósofo. “A questão política central sempre foi esta: o que eu sou capaz de sentir e o que eu não sou capaz de sentir. O que eu sou capaz de ver e o que eu não sou capaz de ver. O que eu sou capaz de perceber e o que eu não sou capaz de perceber. O fascismo compreende isso muito bem. Por isso, a questão cultural lhe é tão fundamental. Porque é necessário reorganizar a sensibilidade social [sic]”

Há muito tempo, diante da popularidade crescente de Jair Bolsonaro nas pesquisas – estávamos em fevereiro de 2017, a um ano do início da campanha eleitoral que o conduziria à presidência do Brasil –, Safatle escreveu um pequeno artigo na Folha de S. Paulo em que apontava indícios de fascistização da sociedade: “[…] quem começa tirando selfie com a Polícia Militar em manifestações só poderia terminar abraçando toda forma de violência de Estado”.
E assinalava um equívoco muito comum entre as forças democráticas para o enfrentamento dessa realidade: “Faz parte de um iluminismo pueril a crença de que o outro não pensa como eu porque ele não compreendeu bem a cadeia de argumentos. Logo, se eu explicar de forma pausada e lenta, você acabará concordando comigo. Bem, nada mais equivocado. O que nos diferencia é a adesão a formas de vida radicalmente diferentes. Quem quer um fascista não fez essa escolha porque compreendeu mal a cadeia de argumentos. Ele o escolheu porque adere a formas de vida e afetos típicos desse horizonte político. Não é argumentando que se modifica algo, mas desativando os afetos que sustentam tais escolhas.”

(linkedin.com/in/duarte-rolo)
O título do artigo é “Um fascista mora ao lado”. Mas talvez fosse mais correto dizer que ele mora “dentro”.
No final da entrevista, à historiadora Raquel Varela no podcast “Tempo contra o Tempo” – uma riquíssima discussão sobre as formas contemporâneas de servidão voluntária –, o psicanalista e investigador Duarte Rolo diz isso mesmo, ao recuperar a pergunta formulada por Theodor Adorno para tentar compreender a adesão a Hitler: como é que os dominados aderem a uma ordem social que vai contra os seus interesses objetivos? “Sem a psicanálise”, diz Rolo, “não se consegue explicar esta adesão dos indivíduos a uma ordem social completamente irracional [sic]”.
“O fascismo satisfaz sobretudo necessidades psicológicas. Se as pessoas aderem ao fascismo, é porque o fascismo estimula e satisfaz necessidades que são de um cariz inconsciente e pulsional” Mas não se trata de “psicologizar” o fascismo: o investigador lembra que Adorno passou a vida a dizer que era contra o psicologismo, que os fatores económicos e sociais são determinantes, “e é verdade, o fascismo não é uma questão psicológica, é uma questão económica, política, que acontece em certos contextos históricos e está bem descrita, mas precisa de uma adesão psicológica, só funciona se as pessoas aderirem a essa retórica e a essa propaganda”.

Duarte Rolo alerta para um equívoco comum quando se fala em “personalidade autoritária”, que nos leva a imaginar um líder brutal, como o presidente norte-americano Donald Trump, quando a verdadeira questão da personalidade autoritária diria respeito não a quem exerce a autoridade, mas a quem adere a ela: “É uma personalidade apegada à autoridade, seduzida pela autoridade, que não consegue resistir e criticar a autoridade, é uma personalidade que não tem autonomia de pensamento. O que nos interessa principalmente é a psicologia de quem adere a esse pensamento”. Noutras palavras: “Porque certas pessoas aceitam suspender [o] seu juízo crítico, aceitam suspender [a] sua autonomia de pensamento para embarcarem num movimento profundamente irracional.”

A intuição de Adorno sobre o contexto em que o fascismo emerge estaria correta: uma certa configuração social de crise do capitalismo e o surgimento do homem providencial. Porém, diz o investigador, não seria apenas um certo tipo de pessoa que estaria vulnerável à propaganda fascista e aderiria com entusiasmo a essa liderança: “[…] toda a gente pode aderir, todos os indivíduos têm um potencial psicológico para se tornarem fascistas, todos nós temos um fascista dentro de nós.”
Por que uns aderem e outros não “é uma questão complicada, que provavelmente tem a ver com a infância”. Duarte Rolo cita o médico, psiquiatra e psicanalista francês Christophe Dejours, que aponta nossa tendência a pensar a sociedade sempre “em termos adultocêntricos”, feitas só de adultos, “mas antes de sermos adultos somos crianças, e esta é uma relação desigual, em que a criança é dependente, em que o adulto tem mais poder: entramos na vida numa situação de dependência, não entramos emancipados, entramos alienados e aprendemos a viver numa situação de alienação”.

(projetoconcretamente.com)
O problema estaria no tipo de relação que se estabelece entre o adulto e a criança: pode ser uma relação democrática, em que os limites da autoridade são flexíveis, pode ser o modelo tradicional de educação, baseado no exercício de uma autoridade repressora, que tende a produzir na criança uma dependência da autoridade externa e a transformá-la num adulto mais facilmente passível de ser seduzido por uma liderança autocrática. Faltaria discutir o que ocorre com a situação radicalmente inversa, que é uma forma de reação a esse modelo e equivocadamente encara qualquer sanção como uma violência: que tipo de adulto se torna uma criança a quem tudo é permitido?
Não há respostas simples, mas colocar as coisas nesses termos nos ajuda a alargar o horizonte de análise e a compreender a profundidade do problema com o qual nos defrontamos.
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12/03/2026