O humor

 O humor

(oceandrop.com.br)

“Mirem-se no exemplo / Daquelas mulheres de Atenas / Vivem pros seus maridos / Orgulho e raça de Atenas / Quando amadas, se perfumam / Se banham com leite, se arrumam / Suas melenas / Quando fustigadas não choram / Se ajoelham, pedem, imploram / Mais duras penas / Cadenas […]”

(Chico Buarque)

É provável que quem leia esta crónica pense que ela está, apenas, presa aos acontecimentos dos nossos últimos tempos… Ou, por exemplo, pensar no caso Sócrates. Ou na diatribe que opõe uma diabólica “radiologista”1 a um conjunto de dois angélicos cantores! 

“Diabólica”, pois, conseguiu, por artes malignas, infestar os seus opositores com herpes e outras doenças epidérmicas2, que, como todos sabemos – sobretudo, aqueles que já as sofreram –, são muito incómodas! 

Mas é de humor que devemos falar. Cito, aqui, dois autores que me são muito queridos. O primeiro é o dramaturgo Luigi Pirandello que, no seu tratado “L’Umorismo”3, nos explica, logo no primeiro capítulo: “O humorismo consiste no sentimento do contrário, provocado pela especial a[c]tividade da reflexão que não se esconde, que não se oculta, que não se transforma, como, geralmente, na arte, numa forma de sentimento, mas sim no seu contrário, seguindo passo a passo o sentimento como a sombra segue o corpo.”

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Ao frisar também o lado obscuro do humorismo, Pirandello adianta, no mesmo capítulo: “O artista ordinário fixa-se apenas no corpo; o humorista fixa-se no corpo e na sombra, e às vezes mais na sombra do que no corpo; apercebe-se de todas as piadas dessa sombra, como às vezes se alonga e às vezes se encurta, como se quisesse fazer caretas ao corpo, que, entretanto, não a considera nem se preocupa com ela.”

Para Henri Bergson4, “não há comicidade fora do que é propriamente humano”.

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Como escreve este filósofo e diplomata francês, laureado com o Nobel de Literatura de 1927 (no capítulo I do seu ensaio sobre o significado do cómico “O Riso”) : “Uma paisagem poderá ser bela, graciosa, sublime, insignificante ou feia, porém jamais risível. Riremos de um animal, mas porque teremos surpreendido nele uma atitude de homem ou certa expressão humana. Riremos de um chapéu, mas no caso o c[ó]mico não será um pedaço de feltro ou palha, senão a forma que alguém lhe deu, o molde da fantasia humana que ele assumiu. Como é possível que fa[c]to tão importante, [na] sua simplicidade, não tenha merecido atenção mais acurada dos filósofos? Já se definiu o homem como ‘um animal que ri’. Poderia também ter sido definido como um animal que faz rir, pois se outro animal o conseguisse, ou algum objeto inanimado, seria por semelhança com o homem, pela característica impressa pelo homem ou pelo uso que o homem dele faz.”

Luigi Pirandello (berkshiretheatregroup.org)

Voltando ao mesmo capítulo da referida obra de dramaturgo Luigi Pirandello: “O humorismo não é um ‘género literário’ como o poema, a comédia, a novela, o conto, e assim por diante; é tanto assim, que cada uma dessas formas literárias pode ser ou não humorística. O humorismo é uma qualidade de expressão, que não se pode negar pelo fa[c]to de que toda [a] expressão é arte e que, como arte, não é distinguível da restante arte.” 

E, desta forma, chegamos ao género cómico, cuja maior tradição no teatro ocidental está na Grécia com o nascimento da comédia. Entre os autores mais mencionados está, sem dúvida, Aristófanes. Todavia, a ausência de dados não nos permite reconstruir com segurança uma biografia deste comediógrafo, nascido e falecido entre os anos 450 e 380 a.C. Cidadão adoptivo ou filho legítimo de Atenas, Aristófanes foi testemunha de uma das mais críticas fases da cidade e do mundo grego, em geral, a exemplo da Guerra do Peloponeso, que se reflecte diretamente num bom número das suas comédias. Realmente, nas suas obras, encontramos críticas e menções ao filosofo Sócrates e ao dramaturgo Eurípedes. 

Aristófanes (turismogrecia.info)

A sua obra mais famosa, que nos chegou até hoje, é a “Lisístrata”, cujo argumento se resume: “Cansadas de uma guerra que já durava 20 anos, as mulheres de Atenas, de Esparta, da Beócia e de Corinto (cidades gregas mais duramente atingidas pela luta), chefiadas pela ateniense Lisístrata, decidiram pôr fim às hostilidades usando de uma tá[c]tica pouco ortodoxa: uma greve do sexo, com o fim de constrangerem os homens a firmarem a paz, negando-lhes os prazeres do leito.” 

Sabemos que as peças de Aristófanes e também as de outros autores gregos foram proibidas durante a ditadura dos coronéis gregos (de 1967 a 1974). Assim, fizeram parte de uma  lista negra de livros (em 1970) bastante absurda, que incluía todos os autores russos clássicos (de Alexander Pushkin a Anton Tchekhov e a Fiódor Dostoiévski), mas também as obras-primas gregas antigas, sobretudo, de Prometeu e de Ésquilo; “Ajax”, de Sófocles (que aludia, diretamente, à falta de solidariedade entre as forças armadas); e igualmente “Antígona”. Nessa lista estavam ainda incluídas as comédias de Aristófanes, as quais foram consideradas pornográficas e censuradas – entre elas, “Lisístrata”. 

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São muitas as versões e as adaptações modernas desta comédia. Recordo uma bela adaptação, no Brasil, do Millôr Fernandes; uma versão de Augusto Boal, com canção de Chico Buarque; e uma outra, da qual me lembro perfeitamente, do chileno Sergio Arrau (1928-1973), nos anos 70, no período de Salvador Allende: “Lisístrata González”.

 (bibliotecanacionaldigital.gob.cl)

Acerca do desenlace do julgamento ou do processo judicial que envolve a humorista e os dois irmãos cantores, ficaremos a saber mais. Parafraseando a última frase de “A Ceia dos Cardeais”, de Júlio Dantas, direi: “Como é diferente o humor em Portugal (?)!”5

Em jeito de consideração final, congratulo-me com a escolha de Victor Hugo Pontes para novo director artístico do Teatro Nacional São João, no Porto. Este jovem coreógrafo foi nosso aluno na Escola Profissional Balleteatro, na década de 1980. Parabéns! 

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Notas: 

1 – “Radiologista” (e não radialista!) – tem graça, pois, foi com esta palavra que a advogada do duo se referiu a jovem humorista! 

2 Os Anjos dizem ter sofrido “derrame ocular” e “crise de acne” fruto do stress – como escreve Inês Duarte Freitas, no jornal Público (na edição de 18 de Junho de 2025).

3 – “O Humorismo”, capítulo I, ensaio de 1908. 

4 – “O Riso”, ensaio de Henri Bergson, publicado em 1900 – capítulo I.

5 –  “A Ceia dos Cardeais”, de Júlio Dantas, reúne em diálogo os cardeais Gonzaga, Rufo e Montmorency, os quais, enquanto ceiam, resolvem revelar confidências guardadas durante muitos anos e que eram proibidas.  

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31/07/2025

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Roberto Merino

Roberto Merino Mercado nasceu no ano de 1952, em Concepción, província do Chile. Estudou Matemática na universidade local, mas tem-se dedicado ao teatro, desde a infância. Depois do Golpe Militar no Chile, exilou-se no estrangeiro. Inicialmente, na então República Federal Alemã (RFA) e, a partir de 1975, na cidade do Porto (Portugal). Dirigiu artisticamente o Teatro Experimental do Porto (TEP) até 1978, voltando em mais duas ocasiões a essa companhia profissional. Posteriormente, trabalhou nos Serviços Culturais da Câmara Municipal do Funchal e com o Grupo de Teatro Experimental do Funchal. Desde 1982, dirige o Curso Superior de Teatro da Escola Superior Artística do Porto. Colabora também como docente na Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti, desde 1991. E foi professor da Balleteatro Escola Profissional durante três décadas. Como dramaturgo e encenador profissional, trabalhou no TEP, no Seiva Trupe, no Teatro Art´Imagem, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (UP) e na Faculdade de Direito da UP, entre outros palcos.

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