Paraguai (2)
Assunção, no Paraguai. (Créditos fotográficos: Tobias Meza – Unsplash)
“Una noche tíbia nos conocimos”, junto ao lago azul de Ypacaraí… “y por el caminho viejas melodias iguales a mi…” (“Recuerdo de Ypacarahy”, por Demetrio Ortiz).
O Mundo é pequeno. Nada nos impede de estarmos seja aqui ou ali. Pois então: todo lugar é sagrado. Assim seja! Volto para o aeroporto do Porto. Saí de Estarreja, que fica a tão-somente 11 quilómetros daquele lugar onde os Claudinos, os meus antepassados, viveram a sua vida de peleja. O avô foi o sementeiro pioneiro do clã e, por conseguinte, da minha natureza.

Fui de encontro à velha casa próxima de um pinheiro resistente ao tempo, bem-posto, disposto na freguesia do Pinheiro da Bemposta. A casa, por sua vez, aposta numa intervenção, quer justificar-se na paisagem, encontrar-se bem-posta no cenário de hoje. Logo, portanto, ela reclama, clama por atualizações. Exige que alguém aja com vista a um futuro melhor. Quer-se inteira. É necessário atravessar as travessias da memória em bom estado. Tanto o estado do lugar como o de nós próprios.

“Bueno, ahora me voy de encuentro” a uma outra paisagem. Uma outra ruralidade, na realidade. Viajo para os arredores de uma cidade de um outro país, uma terra com húmus: quer seja de humanidade ou de humildade, onde ainda existe a conservação da Natureza, do folclore, das tradições, “de la amistad”. Não se fizeram concessões às transformações que a conduziriam à perda da sua identidade, nem às implacáveis vias apresentadas como sendo as do desenvolvimento – vias de um embelezamento artificial gerado pelo capital. Uma “tierra” que, enfim, escapou ao nihil, ao novo niilismo contemporâneo. Que atrasa o seu relógio para que o seu traço original se mantenha.

Evoluída de ingénuas tribos indígenas, as suas coletividades envolvidas em simplórias atividades no seu dia-a-dia ainda não permitem o desmanche do ethos. Falo do interior do Paraguai. Ali perto, Assunção, assente no Chaco, contempla a Mãe Rainha elevada ao Céu, embora os skyscrapers já tenham chegado e, como um tractor, rasgado o seu chão. Em breve, tratarão de impedir que ainda se possa ver o horizonte.

Terra de “sofrências” onde um terço da população masculina “murió” numa guerra desigual, dada a “tríplice aliança” e a sua vizinhança ter decidido enfrentar um ditador expansionista, deveras manhoso e orgulhoso de ditar dor. E que, ainda, perdeu homens ao enfrentar a Bolívia. Isso resultou numa terra impensada: imprensada, com apenas mulheres e crianças solitárias, por muitos anos. Terra que, em tempos outros, subjugou os pensadores, os contestadores, os portadores da ética e do valor do ethos. Terra que, sem mais nem menos, aprisionou a liberdade, exilou os seus escritores e calou os editores. Terra que, hoje, goza de plenas liberdades. Todavia, faz-lhe falta palavreadores. Daí as suas livrarias venderem pouco. Não, não há nada impresso em Guarani. Madrid ou Miami sejam aqui! A dez guaranis cada página de desvalores importados, os livros irrompem raros e caros.

Não será essa a terra aquela que me interessa ver, haverei de encontrar outros cenários. Ruas de terra, vendedoras de rua vestidas com longas saias, em pleno calor, a oferecer empanadas, artesanías baratas (já o nãduti, aquele trançado bordado, como se obra de uma aranha fosse, estará nas lojas chiques, ainda que a sua origem seja proveniente de mãos humildes). Verei padres, naquele que é, quiçá, o mais católico dos países; vestidos com roupa de padre e de semblante honesto, inseridos no meio do povo de rosto indígena catequisado, a esperançar as fisionomias.

Na capital, verei o Palácio do Governo (ou Palácio de López), que só se pode ver do lado de fora. Dali não se deve prosseguir em passos até ao bairro pobre: o da Chacarita, “muy peligroso”! Tomarei um café no Café Lido, a ver do terraço a Catedral. E, lá em baixo, toda a gente a tomar “téneré”, a “hierba mate” gelada. Toda gente leva garrafas térmicas, cuias e chifres consigo, para não se sucumbir ao calor. O vício do “mate” está plenamente inserido, sobretudo na Calle Palma, onde casarões do tipo daqueles de Cartagena convivem com Burger King, McDonald’s e Starbucks. Ocasionalmente, estarei a ouvir a doce língua guarani expedida pelos passantes rurais nas suas expedições citadinas. Afinal, será uma Semana Santa, os escritórios estarão fechados, o capital estará a descansar na capital, aliás, no país todo. Tempo de o nativo inativo demonstrar o que é. “Voy asi como Dios de encuentro hacia un pueblo religioso”, fidelíssimo!

A cidade quente tem muitas árvores nas praças, a juntar luzes e sombras para um relento do espírito. Uma das praças se chama Uruguai. Justa homenagem ao país que, finda a guerra, perdoou as suas dívidas prontamente. E essa praça leva ao Panteão dos Heróis, que ossos de heróis não contém, mas dispõe de bandeiras plenas de orgulho pátrio.
A parte moderna da cidade tem as avenidas de Espanha, do Brasil, de Buenos Aires, conta de forma amistosa uma outra História. Mas, por ali, há casinos, shoppings, passam carros luxuosos, gente paramentada. Por ali, a velha Assunção; a nova é uma presunção.

Quero conversar com o povo autêntico, lustrar o meu Espanhol, expedir e obter ouvidos auscultadores. Talvez buscar elementos para a escrita de um livro. Quero saborear a sopa paraguaia, que é uma broa seca de milho e umas bolinhas de “maíz y quezo”, que muito se parecem com o pão de queijo mineiro; e buscar às empanadas veganas qualquer coisa que não seja habitual para mim, mas que seja hábito deles. Quero ver o fulgor das chaminés a denunciar que ali se faz alguma comida que eu devo gostar. Quero transitar e, também, quero preguiça. Levar um bloquinho para os meus apontamentos, uma caneta, tecer as minhas impressões. Por ora, só posso imaginar tal cenário, não, exatamente, os enredos.
Leva-se um olhar curioso, suave e sensível – olhar de “panambi” (borboleta, em Guarani). Desta vez, terei dias santos para assuntar. E darei notícias do meu inusitado aniversario a ser celebrado no Sábado de Aleluia, no meio daquele interim, entre os Andes e o Pantanal: o charco. Hei de ver o lago azul de Ypacaraí, mar sugerido com outros fins nos confins, de refresco para o espírito.

Ao atravessar “la sierra, me voy a conocer la basílica de Nuestra Senõra de Caacupé”. Esta, por certo, estará apinhada de gente simples. Templo de inspiração italiana, delírio incompleto que substituiu “una vieja iglesia” franciscana que por lá havia, mas não a fé. Ainda que eu receie usar autocarros, uma vez que “hay registo” de assaltos no percurso com o aval dos motoristas. Vamos ver! “Mientras”, o que não faltará será a meiguice no olhar das pessoas de “sueños con sus acenos delicados”. “La vida és sueño.” Ypacaraí será mesmo um bom lugar para gravar na memória, “un recuerdo” melodioso para atravessar “mi cuerpo y mi alma por inteiro”, a vir a ser sempre, sempre, um sonho guarani.
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02/07/2026