Patagónia
O lago do deserto perto do Monte Chaltén, em Santa Cruz, na Argentina. (es.wikipedia.org)

de artista desconhecido; na Galeria Uffizi, em
Florença. (britannica.com)
Desertor de Portugal, todavia, por não ser castelhano, Fernão de Magalhães era visto com desconfiança em Espanha. Era, portanto, um pária. Entretanto, terá sido o primeiro explorador que veio a descobrir a ligação existente entre os oceanos, o Atlântico e o Pacífico. E, em razão disso, o mapa terrestre ganhou uma dimensão dantes inimaginável.
Dado o seu feito, a figura controversa teve o seu nome dado ao estreito que atravessou. O ponto de encontro dos oceanos, mais tarde, veio a ser Chile e Argentina. A sua expedição encontrou índios altos para os padrões europeus da época (1,80 metros contra 1,68 metros). Estes usavam calçados feitos de peles de animais para exercerem a sua movimentação; sendo assim, deixavam pegadas “gigantescas” e seriam chamados “patagones”, patagões.

(pt.wikipedia.org)
Àquela gente da Patagónia, que era a tribo dos Tehuelches, foi conferido um novo nome. Tinham o hábito de acender fogueiras para se aquecerem no frio. Fernão de Magalhães via-as por todo lado; daí, também, deu nome ao lugar de Terra do Fogo.
Ora Chile, ora Argentina, alterna-se a Patagónia, a Terra do Fogo, ao sul do Sul. A diferença, quase sempre, encontra-se no cenário: o lado argentino vem a ser quase inteiramente uma pradaria avizinhada pelos Andes, onde também cabem alguns bosques e lagos; já o lado chileno é cordilheira, onde igualmente cabem bosques e lagos. As geografias não são limítrofes, há Argentina no Chile e Chile na Argentina. As divisões cartográficas apenas indicam separações, muito pouco se atenta para os pontos de encontro. Consideremos que, para este texto, importa levar em conta o ponto de encontro referente à amizade latino-americana, uma noção de pertença em atitudes, nas mais diversas latitudes.

Eu chegara a um trecho da Patagónia (ela é enorme, sobe e desce, sendo colunas andinas e, por vezes, desce ou sobe, sendo ainda Pampas), mais precisamente em San Martín de los Andes, pertencente à província de Neuquén. Fui a convite de uma operadora turística que levara agentes de viagens e jornalistas para conhecerem e divulgarem o lugar. Na época, eu vivia no Vale do Paraíba, em São Paulo, e acumulava as duas funções; a minha coluna no jornal O Vale Paraibano era, ao que se diz hoje, “influenciadora”, a ponto de ter rendido um convite dessa espécie, e lá fui eu a ter como obrigação conhecer o Cerro Chapelco, a resposta argentina a Pucón chilena, no que tange ao turismo de esquiadores; de resto, eu poderia estar a ver e a fazer o que quisesse.

Não éramos esquiadores nem havia ainda a neve esperada para o inverno. Fomos até ao cerro para “adivinhar” o seu potencial turístico e divulgá-lo em adjetivos favoráveis. Naquele momento, eu encontrava-me incomodado com uma situação que sempre me parece demasiado desfavorável ao meu bem-estar e ao lugar – alguém inventou de levar uma bandeira do Brasil, que era colocada à frente do grupo nas fotografias incessantes. Escapei à captura dos “shots” por considerar essa postura um registo de invasão, uma sublimação de origem que, simbolicamente, desvaloriza o lugar enquanto exalta o “mérito” do feito do invasor, que terá sido tão-somente chegar até lá. Sou desfronteiriço e aprecio estar somatório onde vou, não levo fronteiras comigo, não as tenho.

E, por fim, vi-me a mim livre para conhecer San Martín. Inventar caminhos, encontrar no outro mais um pouco de mim, do que é Nós! A cidade leva esse nome em homenagem ao herói libertador da América do Sul mais ao sul: José de San Martín equivale a Simón Bolívar, o herói libertador do Norte. Líderes das independências, tinham ideais consistentes quanto à libertação da exploração europeia, formadores de uma consciência pan-americana, de identidade com igualdades de oportunidades.
Curiosamente, uns cem anos depois das atuações de ambos, um jovem jogou-se na estrada com um amigo e uma motocicleta a fazer uma viagem que moldou o seu pensamento: o de viabilizar a América Latina inteira como pátria, não circunscrita a fronteiras artificiais, numa conexão profunda com a liberdade e a Natureza.

O jovem era o Ernesto Guevara e o seu companheiro era Alberto Granado, a motocicleta era chamada La Poderosa, e, em 1952, eles passaram por San Martín de los Andes, com fome, sem dinheiro para fornecerem combustível à mota. Todavia, foram acolhidos pelos trabalhadores do Parque Nacional Lanín, que lhes deu trabalho para juntarem dinheiro, assim como acomodou-os num galpão de forragem. O que é contado no seu “Diário” detalhadamente.

Os anos 1950 foram pródigos nessa literatura de aventuras libertárias, é só conferir o romance “On the Road”, do escritor norte-americano Jack Kerouac. Explorações da America do Norte vividas por dois amigos fartos do conservadorismo e das rotinas previsíveis. Eram anos condizentes com a força de um ideal e da amizade. O meu olhar para o lugar expandia-se magnânimo: um lugar especial. Atordoava-me, entretanto, a sua estética ser demasiado alpina. Afinal, eu estava nos limites dos Andes. Tudo era muito Suíça, Áustria, Norte da Itália, quase a poder ver os Andes sendo as Dolomitas, e os povos originários, para onde teriam ido? A sua cultura, as tradições, a identidade? A resposta veio patagónica, a passos largos, na Plaza, onde se reunia uma trupe cantante e dançante. Contaremos o que se passou na próxima crónica.
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08/10/2026