Pés na terra
(Imagem gerada por IA – freepik.com/pikaso)

Já não conseguimos imaginar o Mundo sem tecnologia digital, ou seja, sem Internet, sem aplicações baseadas na nuvem, sem plataformas de inteligência artificial, sem streaming de vídeo, sem redes sociais e sem uma enorme variedade de outros serviços online que fazem parte do nosso quotidiano, transformando a nossa forma de agir, de pensar e de ser. Em muitos casos, as pessoas quase se esquecem do mundo real, preferindo habitar num mundo cada vez mais imaterial. No entanto, por detrás desta aparência de imaterialidade, por detrás da nuvem digital, escondem-se infraestruturas físicas gigantescas, com implicações ambientais, sociais e políticas de grande relevo, mas que permanecem insuficientemente debatidas.
O consumo energético dessas infraestruturas é colossal. Os gigantes tecnológicos – como a Google, a Amazon, a Microsoft ou a Meta – estão entre os maiores consumidores de eletricidade do Mundo. Segundo dados recentes, o consumo energético global das infraestruturas digitais (incluindo centros de dados, redes de telecomunicações e dispositivos) representa, atualmente, cerca de 2% a 4% do total mundial – mais do que todo o setor da aviação –, sendo que as projeções apontam para um crescimento acentuado destes números, impulsionado pelo uso crescente de inteligência artificial (IA), que exige um enorme poder computacional. Só o treino de grandes modelos de IA, como o GPT da OpenAI ou o Gemini da Google, pode consumir milhões de kilowatt/hora por sessão. Acresce a isto o consumo contínuo dos centros de dados, que processam e armazenam, permanentemente, volumes gigantescos de dados.

As grandes tecnológicas consomem, sozinhas, mais eletricidade do que países inteiros. Por exemplo, o consumo anual total de energia elétrica da Croácia é de cerca de 16 TWh, menos do que o consumo da Google em 2022 (18,3 TWh). Na Irlanda, os centros de dados já representam mais de 18% do consumo elétrico nacional, superando em muito o setor agrícola.

Portugal não está fora deste mapa. Com a sua localização geográfica estratégica, clima ameno, estabilidade política e abundância de energia renovável (em particular, energia eólica e solar), o país está a tornar-se num cobiçado destino para investimentos em infraestruturas digitais. O projeto Sines 4.0, por exemplo, prevê a instalação de um dos maiores centros de dados da Europa, com uma capacidade potencial de 495 megawatts – o que o tornaria, sozinho, num dos maiores consumidores de energia do país. É claro que este projeto é apresentado como um exemplo de modernidade, sustentabilidade e inovação. Fala-se em utilização de energia 100% verde, na criação de postos de trabalho qualificados e no reforço da competitividade de Portugal no mercado digital global. Mas será que a chamada “energia verde” é tão verde como se diz? É cada vez mais claro que a produção de energia eólica e fotovoltaica, em larga escala, representa enormes desafios ambientais, assim como é claro que o consumo de energia dos grandes centros de dados cresce a um ritmo muito maior do que o ritmo do crescimento da produção da tal “energia verde”.

Em países como a Irlanda, os Países Baixos (Holanda) e a Dinamarca, já foram impostas moratórias ou restrições à construção de novos centros de dados, devido à sobrecarga das redes elétricas e ao uso intensivo de recursos. Em breve, é previsível que Portugal enfrente decisões semelhantes, sobretudo, se continuar a atrair projetos de grande escala.
É, portanto, essencial um debate público sério e informado – e não apenas para cumprimento de um qualquer formalismo legal – sobre os reais impactos deste tipo de infraestruturas. A construção e operação de megacentros de dados tem custos ambientais e sociais que não podem ser ignorados: consumo massivo de energia e de água (esta última é necessária para o arrefecimento dos equipamento), impacto no ordenamento do território, pressão sobre os recursos naturais e potencial exclusão das populações locais dos benefícios diretos. Note-se que as regiões que acolhem estas infraestruturas são, muitas vezes, as que menos beneficiam delas e as que mais sofrem os seus efeitos colaterais – como o aumento da pressão sobre os recursos ou a exclusão de pequenas e médias empresas locais devido ao aumento dos preços da energia.

Felizmente, a União Europeia está cada vez mais atenta à realidade das exigências energéticas do setor digital. No âmbito do Pacto Ecológico Europeu e da iniciativa “Fit for 55”, que visa reduzir as emissões de gases com efeito de estufa em pelo menos 55% até 2030, o setor digital passou a estar no radar das autoridades. Estão a ser preparadas novas regras para aumentar a transparência no consumo energético e hídrico dos centros de dados, bem como mecanismos de rotulagem ecológica, impostos sobre carbono e requisitos de eficiência. O objetivo é garantir que a transição digital não compromete os compromissos climáticos assumidos pela Europa.
Para além das questões ambientais, este fenómeno levanta profundas interrogações de natureza ética, social e política. Quem controla as infraestruturas críticas da era digital? São as grandes empresas tecnológicas, maioritariamente sediadas fora da Europa, que definem as regras do jogo? E quem beneficia, de facto, da instalação destes megaprojetos – as comunidades locais, os cidadãos ou apenas os investidores? Há, também, um risco de dependência. Se a Europa – e Portugal, em particular – entregar as suas infraestruturas digitais estratégicas a entidades externas, não estará a comprometer a sua soberania tecnológica e a segurança dos seus dados?

É claro que não está em causa travar o progresso. A digitalização tem trazido – e continuará a trazer – inúmeros benefícios no que se refere a inovação, produtividade, acesso à informação e qualidade de vida. Mas não pode ser feita à custa da sustentabilidade ambiental nem da justiça social. Portugal tem, neste contexto, uma oportunidade única: tornar-se uma referência europeia na conciliação entre desenvolvimento tecnológico e responsabilidade ambiental. Para isso, é necessário exigir transparência total no consumo de energia e de água destes projetos, assim como garantir que há contrapartidas reais e equitativas para as comunidades locais, estabelecendo limites e critérios rigorosos de sustentabilidade e, não menos importante, apostando numa estratégia nacional de soberania digital, que favoreça também empresas tecnológicas nacionais e soluções baseadas na economia local, o que só será possível com liderança política, envolvimento cívico e uma visão estratégica a longo prazo.
A promessa de grandes centros de dados e de tudo o que orbita à sua volta não nos pode deixar com a cabeça nas nuvens, sejam estas digitais ou não. Mais do que nunca, precisamos de analisar e de ponderar desafios, custos e benefícios. Precisamos, enfim, de manter os pés assentes na terra.
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02/06/2025