Por que não dar tudo no presente?

 Por que não dar tudo no presente?

(plataformaredigir.com.br)

Não imaginam as voltas e reviravoltas que tenho dado ao cérebro para preparar esta crónica. Não é por falta de assuntos. É mais por uma questão de perspectiva, de proximidade e também de saturação. Isso deve-se, provavelmente, aos milhares de estímulos e de informações que o nosso cérebro vai tendo dificuldade em processar.

(Créditos fotográficos: Steve Johnson – Unsplash)

Essa sobrecarga de dados, muitos deles sob a influência dos algoritmos, das bolhas sociais e das redes digitais condiciona-nos e, por vezes, aliena-nos do mundo real. Como diria Zygmunt Bauman, manifesta-se numa modernidade líquida que fragiliza as relações humanas, levando as pessoas a resguardarem-se em grupos homogéneos e narcisistas. Nestas zonas de conforto, vamos – uns mais do que outros – desatendendo às diferenças e a não querer dialogar naturalmente com quem pensa de outra maneira ou que vem de outro caldo cultural. Apesar de quase sempre conectados, mal temos tempo para nos apercebermos de que nos estamos a isolar com inúmeras interacções superficiais e a abandonarmos o verdadeiro sentido de comunidade.

Uma sociedade de consumidores e de ausência de certezas. (todamateria.com.br)

Assim, sempre que haja uma ideia que se afasta dos nossos limites mentais e emocionais, estamos prontos a desconsiderar e a agredir, com as expressões mais sujas e mesquinhas, muitos desses “amigos” que nunca vimos à nossa porta nem no café do bairro. A realidade virtual e as supostas barreiras defensivas da Internet são autênticas armadilhas nas incertas zonas de conforto, afastando-nos dos contactos físicos e dos olhares directos e espontâneos. Nesse espelho das nossas fragilidades, ao qual adicionamos os conflitos da vida contemporânea, tornamo-nos atrevidos e abusivos, aumentando os riscos de intolerância e de fragmentação social. O debate democrático tende a diminuir, sobretudo pela falta de reflexão e de um pensamento sem peias, o que retarda a resolução dos problemas colectivos. 

Ilustração de “Modernidade Líquida”, de Zygmunt Bauman.
(resumodolivro.com)

Por outro lado, o mundo de objectos existentes e sensível, que resulta das imagens por nós percebidas, pode igualmente ser captado numa visão macroscópica ou microscópica, dependendo das lentes que utilizamos e da observação específica e aprofundada – própria dos especialistas – ou de uma formulação simples e generalista. Neste entendimento, a presente crónica dificilmente conseguirá fornecer uma representação exacta da nossa contemporaneidade. Mesmo que rejeite o ideal de um realismo ingénuo, é sempre susceptível de divergências, principalmente por parte daqueles que escapam às bolhas digitais e às câmaras de eco que isolam as pessoas de visões diferentes e servem de berço aos extremismos.

Numa leitura recente do ensaio “O Homem Revoltado”, de Albert Camus – tido como um dos mais influentes pensadores do século XX e que aprofundou os conceitos-chave de “absurdo” e de “revolta” –, sou alertado para os riscos da tirania e aconselhado a aprender com as consequências da Segunda Guerra Mundial, o maior conflito da Humanidade. Pergunta o autor: “Forçar à solidão aquele que acabou de perceber que não está só, não será o crime mais definitivo contra o homem?”

(infobae.com)

Com as mentes e os corpos atafulhados pelos algoritmos de aplicações tecnológicas e pelas “fake news”, nessas espécies de confinamentos informáticos que nos afastam das escolhas racionais e livres, estamos a confiscar o futuro. “A verdadeira generosidade para com o futuro consiste em dar tudo no presente”, sugere Albert Camus.

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Nota:

O presente artigo (na versão de crónica) foi publicado na edição de ontem (domingo, 14 de Dezembro) do Diário de Coimbra, no âmbito da rubrica “Da Raiz e do Espanto”.

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15/12/2025

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Vitalino José Santos

Jornalista, cronista e editor. Licenciado em Ciências Sociais (variante de Antropologia) e mestre em Jornalismo e Comunicação. Oestino (de Torres Vedras) que vive em Coimbra.

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