Por que razão é que os políticos berram tanto?

 Por que razão é que os políticos berram tanto?

(parlamento.pt)

Uma simples consulta a um dicionário da Língua Portuguesa pode, rapidamente, esclarecer-nos o que significa “berrar”. Mas, se calhar, tal não é necessário, uma vez que todos sabemos, desde crianças, o que significa tal palavra! Ainda todos nos lembramos dos conselhos paternos e maternos: “Não grites, que é feio! Não berres, que isso é falta de educação.”

(Créditos de imagem: OpenClipart-Vectors – Pixabay)

Dei por mim, nos últimos tempos, a dar mais atenção ao facto de termos, cada vez mais, homens e mulheres dos diversos partidos políticos a gritarem, a elevarem o tom da voz, como se isso fosse preciso para os escutarmos! Isso é, cada vez mais, flagrante nas suas participações em programas televisivos e também nos debates da Assembleia da República, onde, frequentemente, se começa na gritaria do berro e se acaba no insulto brejeiro e soez. O que não deixa de ser espantoso! E que até nos leva a perguntar como é que isto pode acontecer na “Casa da Democracia”! Bem, aqui, a resposta é óbvia! Tal só acontece porque quem preside aos trabalhos é conivente com tal gritaria ou, na maior parte dos casos, tem um peso e duas medidas.

Abrimos aqui um ligeiro parênteses para clarificar que “brejeiro” e “soez” são adjectivos distintos. A brejeirice pode, em muitos casos, ser uma forma de brincar, de tentar um tom de graça, muitas vezes, com malícia. Contudo, a palavra “soez” expressa sempre algo mais rude, mais grosseiro, revelador de falta de educação e de refinamento. Em rigor, actualmente, na Assembleia da República, na maior parte dos casos, as intervenções de certos deputados, quando se dirigem às colegas deputadas, são mais exemplos de linguagem soez do que de linguagem brejeira. E o mesmo poderíamos dizer que isso também acontece noutros parlamentos por esse mundo fora.

Plenário da Assembleia da República. (app.parlamento.pt)

Que explicações poderemos dar para tais comportamentos? Que motivos terão estas criaturas para levantarem a voz em tantas situações?

Alguns dirão que são estratégias de comunicação que obedecem ao princípio ou à suposição: “Quanto mais eu berrar, mais e melhor me ouvirão!” Outros dirão que se trata, apenas, de um comportamento  que é ditado pelo contexto emocional do momento, justificando que há muita gente que “ferve em pouca água”.

Não há dúvida de que, num debate ou num comício – em que, por vezes, há ruído forte –, gritar pode ser uma forma de chamar mais a atenção. Um orador ou oradora, muitas vezes nesta situação, acredita “piedosamente” que, se falar mais alto e com maior emoção, os seus ouvintes acreditarão mais nas suas convicções, na sua força. Admitem mesmo que ser emotivo, nestas circunstâncias, dará mais força aos seus argumentos. Outros pensam que os seus gritos, além de provocarem maior emoção, poderão também levar os ouvintes a atingirem entusiasmo ou a reforçarem a sua indignação, consoante o momento ou até a revolta, mobilizando mais facilmente os futuros eleitores.

(Créditos fotográficos: Dibakar Roy – Unsplash)

Há, igualmente, quem pense que, na maior parte dos casos, o berro ou a gritaria servem, apenas, para disfarçar a insegurança. Sobretudo, a falta de argumentos sólidos. Todos os leitores podem recordar momentos televisivos que nos mostram situações em que determinados homens ou determinadas mulheres, quando sentem que estão a perder o controlo ou quando não têm uma resposta consistente, preferem partir para o ataque, recorrendo ao tom agressivo e insultuoso.

Na maior parte destas situações, é vulgar o recurso ao argumento “ad hominem”, um argumento que qualquer estudante aprende, hoje, nas aulas de Filosofia. Este é um tipo de argumento que pertence às chamadas falácias lógicas e que se encontra quando um raciocínio é rejeitado devido às características ou qualidades da pessoa que o defende, em vez de se concentrar, propriamente, no conteúdo do argumento, em si mesmo.

Nestes casos, em vez de se avaliar a validade do conjunto das afirmações, ataca-se o carácter da pessoa que o defende ou distorcem-se os motivos da defesa, recorrendo à apresentação de características irrelevantes. Como exemplo simples para ilustrar estes confrontos, imaginemos que alguém, num debate sobre questões climáticas, dispara contra o seu adversário: “Você não tem autoridade para falar, pois todos conhecemos o seu passado ligado a grandes multinacionais petrolíferas!”

(Créditos fotográficos: Barbara Zandoval – Unsplash)

Por estranho que pareça, há eleitores que se deixam influenciar por este estilo berrão, acreditando que quem mais gritar melhor defende os interesses do povo.

Nada de mais errado! Apesar de o estilo ser, hoje, prática usual de muita gente, há, felizmente, quem consiga ver unicamente um estilo desagradável, mal-educado e – pior do que isso – altamente manipulador.

Por norma, o sujeito manipulador nunca assume a culpa pelos seus actos. Encontra sempre justificações – na maior parte das vezes, falsas – para as acções que praticou. Sacode sempre, como se diz na gíria, “a água do capote”.

Habitualmente, tal sujeito está “inocente” e tem a arte de encontrar sempre justificação para os seus comportamentos. Ele manifesta-se constantemente como uma vítima que tem o mundo inteiro contra si. E se, por acaso, se apercebe de que está errado em algum contexto, por norma muda de assunto, evitando ter de assumir tal erro. Foram muitas as ocasiões televisivas em que já pudemos observar que os sujeitos manipuladores, quando confrontados com a verdade, acabaram por serem ajudados por alguns jornalistas a “salvarem a pele”.

Por hábito, o manipulador é alguém que fica sempre pelas meias-verdades e que convence, ardilosamente, os outros de que está correcto. A estratégia, aqui, é clara: o manipulador argumenta omitindo informações e criando, sempre, outras concepções ou perspectivas!

(outraspalavras.net)

Outra estratégia recorrente nos manipuladores é a de induzirem os seus ouvintes de que também são culpados do problema em discussão. Assim, usam um discurso abrangente: “Todos nós somos culpados desta situação!”

Como já referi, a conduta de quem dirige os trabalhos na Assembleia da República e em certos debates políticos, em diferentes ocasiões, não é nada isenta. Por isso, termino este artigo recordando que o discurso humano é pluridimensional e que diversas dimensões o constituem.

De facto, o discurso humano tem, em primeiro lugar, uma dimensão linguística, já que todo ele é, principalmente, um acto de fala. Depois, há que considerar a sua dimensão textual, uma vez que deve ser, permanentemente, uma sequência de regras considerando as normas gramaticais e linguísticas. Deve, igualmente, ter uma constante dimensão lógico-racional, usando um encadeamento lógico e evitando as contradições.

Não pode deixar de ter uma dimensão subjectiva porque é, permanentemente, uma expressão pessoal das emoções e dos pontos de vista dos sujeitos. Não se ainda pode esquecer que toda a situação de discurso tem uma dimensão intersubjectiva e comunicacional, porque, normalmente, é partilhado entre sujeitos. Por isso, o outro tem de estar sempre presente. A situação de comunicação é, por natureza, dialógica.

É claro que tem uma dimensão argumentativa, uma vez que todo o sujeito em situação discursiva apresenta razões ou argumentos justificativos das posições que defende. Tem ainda uma dimensão representativa, porque traduz sempre a nossa representação do real.

 Estratégias de manipulação em massa. (administracaonoblog.blogspot.com)

Todavia, creio que a dimensão mais importante é a dimensão ética do discurso. E, a este propósito, podemos evocar aqui o “Código Deontológico do Discurso”, criado por Karl-Otto Apel e Jürgen Habermas, dois filósofos contemporâneos que fazem referência, nas suas obras, à “ética da discussão” ou “ética argumentativa”; ou, ainda, “ética da comunicação”.

Segundo os dois filósofos, são estes os fundamentais princípios que devem vigorar:

  • Todos os participantes no discurso devem ter amor à verdade, empenhar-se na sua procura, conformando e adequando a sua razão àquilo que é e devem falar verdade.
  • Todos os participantes no discurso podem problematizar qualquer posição de outro participante; só devem afirmar aquilo em que acreditam; devem ser isentos  reconhecendo aos outros igualmente essa capacidade.
  • Todos os participantes no discurso devem ter vontade sincera de chegar a um acordo ou  um consenso, próprio de sujeitos livres e emancipados.
  • Não é legítimo que os participantes no discurso entrem em contradição.

Se dependesse alguma coisa de nós, estes princípios estariam bem visíveis nos estúdios de qualquer estação televisiva. Mas, especialmente, estariam visíveis na Assembleia da República, que é a nossa “Casa da Democracia”. Quem sabe se não seria mais fácil dirigir os trabalhos parlamentares?

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Nota do Director:

O jornal sinalAberto, embora assuma a responsabilidade de emitir opinião própria, de acordo com o respectivo Estatuto Editorial, ao pretender também assegurar a possibilidade de expressão e o confronto de diversas correntes de opinião, declina qualquer responsabilidade editorial pelo conteúdo dos seus artigos de autor.

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07/08/2025

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José Vieira Lourenço

José Vieira Lourenço é da colheita de Agosto de 1952. Estudou Teologia e fez a licenciatura e o mestrado em Filosofia Contemporânea, na Universidade de Coimbra. Professor aposentado do Ensino Secundário, ensinou Português, Filosofia, Psicologia, Sociologia, Teatro e Oficina de Expressão Dramática. Foi, igualmente, professor do Ensino Superior, na Universidade Católica de Leiria e no Instituto Superior Miguel Torga, em Coimbra. Foi ainda coordenador do Centro da Área Educativa de Coimbra (1998-2002) e só então conheceu verdadeiramente a classe docente. Descobriu bem cedo a sua paixão pela poesia, pela literatura, pela música e pelo Teatro. Foi Menino Jesus aos quatro meses no presépio vivo da sua freguesia. Hoje, como voluntário, dirige o Grupo de Teatro O Rebuliço da Associação Cavalo Azul e também o Grupo de Teatro de Assafarge. Canta no Coro D. Pedro de Cristo, em Coimbra. Apaixonado pela Natureza, gosta de passear a pé pelos trilhos da Abrunheira, na companhia do seu cão. Dedicado às causas da cidadania, é dirigente do Movimento Cidadãos por Coimbra, que insiste em fazer propostas para criar uma cidade diferente. Casado, tem duas filhas e uma neta, a quem gosta de contar histórias.

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