Porto, Portugal, 1989

 Porto, Portugal, 1989

Cidade do Porto. (Créditos fotográficos: Wendell Adriel L.S. – Unsplash)

O dia propõe caminhadas. Avanço pela passagem pedonal e tomo uma direção aleatória. Alcanço uma rua estreita. De súbito, deparo com um estabelecimento algo ínfimo. A princípio, apenas olho. Entretanto, não resisto em entrar.

(portoarc.blogspot.com)

Naquele espaço exíguo, há todo um equilíbrio extraordinário sobre o aparente precário. Que raro, há um sapateiro! Homem de inserir solas novas ao que se encontrava roto, de remendar, de coser, das sovelas e dos cabedais, das ilhoses, de colar em renovadas ações. Coube, é claro, haver um encantamento tanto pela sua maestria quanto pela sua proposta.

Numa época em que tudo se compra para deitar logo fora, eu estava a ver prateleiras a conterem utensílios antigos inteiramente dispostos a intervirem e para surgirem renovações, recriando-se no desnovo o novo. Olho para as mãos do velhote, sem pudores. Figuravam-se calejadas pelo ofício e pelo tempo. Em seguida, admiro o seu olhar imenso. Ele tem olhos sorridentes como os do Pai Natal ou seriam mesmo réplicas daqueles do meu pai. Me o recordava em todo o seu aspeto.

Quadro “Os Portugueses”, de Georges Braque (1911), no Kunstmuseum
(Museu de Arte), em Basileia, na Suíça. (georgesbraque.org)

Intuí: aqui, resiste um bravo, por entender que da Natureza nada se perde, como fazia o meu genitor ao manusear os calçados. Olho em redor e percebo coturnos (sola de madeira, do termo grego kóthornos), escarpins (afrancesado, do Latim: escarpa, pontudo), galochas (da Gália, para os dias de chuva), pantufas (do Italiano: pantofole – em cortiça), sandálias (sandaleon, à moda da Grécia e de Roma: presas por tiras), sapatos (do termo árabe sabbat ou sabbāt, que significa “calçado”).

Por quanta mutação passaram os objetos. No entanto, de algum modo, foram mantidos os seus nomes. Signos reaproveitados. Naquele sapateiro, o “pedis” (do Latim) e o “podos” (do Grego) tudo podem, é só “pédir”! Não se trata de um pedicuro (quem cuida do pé); curativo, sim, ao seu modo. E, ademais, ele nunca tripudia (patear ou bater com o pé três vezes, para se livrar de alguém). Trata por iguais o cavalheiro que venha a apear em ricas botas ou o pé rapado, aquele que limpa o pé ao entrar descalço. A todos permite-se, apoiar é “pértinente”. Um pedúnculo, porque, como as flores, se mantém erguido nestes tempos de descartes.

Autor na Estação de São Bento, no Porto. (© Lúcio Marques Ferreira)

Eu, peão, pedestre, expedicionado ao pôr os pés para fora, ao ter ganho a rua e ao ali ter entrado, simulara vir a precisar dele. Na verdade, eu me encontrava extasiado por estar a reencontrar nele o meu pai. Hesitante de ir, calço a calçada a afirmar: “Voltarei!” Anoto o endereço. Enquanto isso, ele sorri, a mais parecer que, desde o começo, soube a razão da minha visitação. Tem este homem todos os consertos que alguém precise – que se apresentem, inclusive, reclames do coração. Um homem genuinamente concertante e, ao mesmo tempo, extremamente desconcertante para estes tempos demasiado desconstrutores das coisas e das memórias das pessoas.    

.

29/01/2026

Siga-nos:
fb-share-icon

Lúcio Marques Ferreira

Lúcio Marques Ferreira Filho é um brasileiro com ascendência portuguesa. Nas suas próprias palavras, “herdou do pai não apenas o nome, mas também uma inusitada situação cultural e idiomática: soa excessivamente português para ser brasileiro e excessivamente brasileiro para ser português”. Escritor tardio, publicou aos cinquenta anos o livro de contos “Êxodos, Encontros e Desencontros” (Funalfa Edições, em 2004), a que se seguiu o livro de crónicas “Cidades Visíveis” (Martyria, em 2021). A obra “Cá entre Nós” é o seu primeiro romance (Imprensa Nacional Casa da Moeda, em 2025). Com a rubrica “Flanar é preciso!”, Lúcio Marques Ferreira assume-se como “um marinheiro que estará a contar estórias, aportando com bandeiras filosóficas, sociológicas, antropológicas e identitárias, que não foram deixadas de lado no mastro da nau”.

Outros artigos

Share
Instagram