Quando o irrelevante se torna relevante
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Bastaram alguns segundos. Uma jovem ocupa um palco, tira o microfone a um cantor e improvisa uma frase: “O que tem no carro? O Pingo Doce.” Pouco depois, Stella era um fenómeno nas redes sociais.
Vieram os vídeos, os memes, as entrevistas, os milhares de seguidores e, inevitavelmente, as marcas.

A questão, para mim, não é propriamente Stella. É aquilo que fazemos de Stella.
Vivemos numa sociedade cada vez mais ávida de “fenómenos de consumo imediato”. Um vídeo torna-se viral, o algoritmo percebe o interesse e começa a servir-nos mais do mesmo. A comunicação social acompanha o fenómeno, multiplica entrevistas, notícias e, de repente, aquilo que deveria ser apenas um episódio curioso ganha uma relevância difícil de explicar.

A determinada altura, já nem sabemos se os media estão a responder ao interesse do público ou se estão, eles próprios, a alimentá-lo.
Entretanto, surgiram notícias de oportunidades comerciais e até a alegação de que Stella estaria a pedir cerca de dois mil euros por determinadas participações. Se há quem esteja disposto a pagar, nada há de errado em aproveitar a oportunidade. Mas fica a pergunta: o que fez Stella para que lhe atribuíssemos tamanho valor mediático?
Invadiu um palco, pegou num microfone e protagonizou alguns segundos que o algoritmo decidiu transformar num acontecimento.
Poucos dias depois, começaram a circular relatos e imagens relacionados com alegados comportamentos menos abonatórios em espaços públicos e privados. Acusações que, importa sublinhar, não devem ser tomadas como factos enquanto não estiverem devidamente confirmadas.

E, aqui, encontramos outro lado do mesmo fenómeno.
A mesma máquina que transforma alguém numa celebridade em poucas horas consegue começar a destruí-la com igual rapidez. Primeiro elevamos, depois julgamos e, finalmente, esquecemos. Até aparecer a próxima personagem, o próximo vídeo ou a próxima polémica.
Talvez o verdadeiro fenómeno Stella não seja, afinal, Stella. Somos nós.
Somos nós que decidimos, através dos nossos cliques, partilhas e comentários, aquilo que merece atenção. Enquanto isso, todos os dias há pessoas a praticar atos de cidadania, a ajudar os outros ou, simplesmente, a fazer algo verdadeiramente relevante sem que exista uma câmara por perto. Essas raramente se tornam virais.
Talvez estejamos a dar importância ao que é irrelevante e a deixar passar despercebido aquilo que realmente a merece.
E quando alguns segundos de exposição conseguem valer mais do que tantos atos de cidadania praticados longe das câmaras, talvez não seja apenas a sociedade que mudou. Talvez sejam mesmo estes os dias que ficaram do avesso. E assim começa a rubrica “O Avesso dos Dias”.
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01/10/2026