Quem dá de comer

 Quem dá de comer

(Créditos fotográficos: zhang kaiyv – Unsplash)

O outro tipo de banco

“Tenho em mim todos os sonhos do mundo.” (Álvaro de Campos, “Poema em Linha Reta”)

(bancoalimentar.pt)

Mas os sonhos de 380 mil pessoas cabem numa cesta de plástico, aos sábados de manhã, à porta de um supermercado. Em 2024, os 21 Bancos Alimentares Contra a Fome de Portugal distribuíram ajuda a cerca de 360 mil a 380 mil pessoas com carências alimentares comprovadas – mais de 25 mil toneladas de alimentos por ano, recolhidos e distribuídos por mais de 40 mil voluntários em cada campanha nacional.

(campanha.bancoalimentar.pt)

A presidente da Federação, Isabel Jonet, descreveu, em maio de 2026, um perfil novo: famílias com os dois adultos empregados, que precisam de alugar um quarto da própria casa para pagar a renda, e que não têm “folga para nada”. Não é a pobreza dos sem-abrigo, embora estes também estejam lá – são 14476 em Portugal, mais 10% do que no ano anterior. É a pobreza de quem trabalha, paga impostos, e ainda assim precisa de esmola institucionalizada para comer.

(Créditos fotográficos: Ali Nuredini –Unsplash)

Do outro lado da mesma rua, no edifício da Assembleia da República, outra fila – esta de deputados – recebe, em média, cerca de 29 mil euros por ano só em ajudas de custo: o abono diário para alimentação, alojamento e deslocações, separado do vencimento base. Com 230 deputados, são mais de 6,6 milhões de euros anuais só nesta rubrica. A mais recente atualização veio em janeiro de 2025, com efeitos retroativos. Não há ilegalidade: a ajuda de custo existe, com essa lógica, em qualquer emprego que exija deslocação. Mas a escala do cuidado institucional salta à vista: de um lado, um sistema que garante, por lei e sem burocracia de prova de carência, uma verba diária a quem já tem um vencimento de deputado; do outro, uma rede de solidariedade privada e voluntária, sem uma única verba pública direta e estável, a alimentar 380 mil pessoas com o que sobra do desperdício alimentar do país.

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“A cegueira também é uma coisa branca.” (José Saramago, “Ensaio sobre a Cegueira”)

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Saramago escreveu sobre uma epidemia que não escurece, mas ofusca – uma luz opaca que impede de ver. O Estado português não está cego à fome. Vê-a. Conta-a. Até a pobreza entre idosos está a diminuir – caiu 3,3 pontos percentuais entre 2023 e 2024. Mas a claridade destes números ofusca o que ficou de fora: a família que não é “pobre o suficiente” para o Complemento Solidário para Idosos (CSI), o jovem que emigra porque o salário não paga a renda, o casal que aluga o quarto dos filhos para poder manter a casa. A cegueira é branca porque é feita de relatórios bem-intencionados, de estatísticas que melhoram, de “pequenas oscilações” que nunca são crises. É o tom de todos os relatórios institucionais citados habitualmente, nenhum descreve colapso. Todos descrevem, ano após ano, uma normalidade que se autojustifica

(Créditos fotográficos:  Andreea Pop – Unsplash)

A comparação entre os dois tipos de banco não é retórica. O Banco Alimentar não tem Fundo de Resolução. Não recebe capital contingente quando falha. Não tem um “too big to fail” que o Estado sinta necessidade de proteger com milhares de milhões de euros, como aconteceu ao Banco Espírito Santo – BES (8,3 mil milhões de euros injetados pelo Fundo de Resolução), ao Banco Internacional do Funchal (Banif), ao Banco Português de Negócios (BPN).

Se um banco de dinheiro falha, o Estado intervém em horas, com comunicado do Banco de Portugal (BP) e plano de resolução preparado com meses. Se o Banco Alimentar não recolhe o suficiente numa campanha, ninguém no Governo convoca reunião de emergência: são, simplesmente, menos famílias com comida na mesa em dezembro. Um tipo de banco tem plano de contingência escrito em lei, décadas antes de precisar. O outro depende de 40 mil pessoas a dar o seu sábado, todos os anos, de graça.

(europarl.europa.eu)

E não é que não haja alternativas em cima da mesa. Em novembro de 2024, o partido Livre propôs não um imposto sobre grandes fortunas, mas apenas um grupo de trabalho de peritos para estudar, ao longo de seis meses, se um imposto desse tipo fazia sentido. Chumbado: o Partido Social Democrata, o Centro Democrático Social- Partido Popular, a Iniciativa Liberal e o partido Chega votaram contra; o Partido Socialista e o Partido Comunista Português (na Coligação Democrática Unitária) abstiveram-se. Meses depois, no Orçamento do Estado 2025, o Parlamento aprovou a descida da taxa geral de IRC (Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Coletivas) de 21% para 20%. Não estudar quem tem mais e, ao mesmo tempo, baixar o que as empresas mais lucrativas pagam: não é preciso mais nenhum capítulo para perceber que direção o vento sopra quando o dinheiro está em cima da mesa.

(Créditos fotográficos: Sara Fontoura – acegis.com)

A vítima real é anónima, como deve ser – não porque não importe, mas porque importa demais para ser reduzida a nome. É a mãe que Isabel Jonet descreve, que aluga o quarto dos filhos. É o jovem que emigra para a Suíça e manda remessas – 4,3 mil milhões de euros em 2024, recorde histórico – enquanto o país que o formou perde o retorno do investimento. É o mesmo jovem que, se ficasse, poderia ser um dos 40 mil voluntários do Banco Alimentar, a alimentar com o seu tempo livre o buraco que o seu próprio Estado decidiu não tapar com dinheiro.

Há uma palavra que atravessa todos os meus artigos e que, aqui, ganha o seu rosto mais simples: “fado”. Não o género musical – a resignação. A ideia de que a fome de 380 mil pessoas é uma fatalidade que se canta, não um desenho que se desmonta. Mas a fome não é fado. É fila. É fila que se poderia encurtar com uma fração do que o Estado garante a quem já não precisa de garantias. É fila que se poderia transformar em direito, se alguém decidisse que o direito à comida vale tanto quanto o direito à ajuda de custo de um deputado.

(Créditos fotográficos: Elaine Casap – Unsplash)

Os economistas Daron Acemoglu e James Robinson, galardoados com o Prémio Nobel da Economia em 2024 (juntamente com Simon Johnson), chamam “instituições extrativas” aos sistemas desenhados para que uma elite pequena concentre poder e riqueza à custa de todos os outros. A “lei de ferro da oligarquia” diz que líderes novos acabam por reproduzir o mesmo desenho, só com outros nomes na assinatura. Não é preciso ir à Islândia em 2008 para ver isso. Basta ir a um banco alimentar num sábado de dezembro e, depois (na segunda-feira seguinte), passar pela Assembleia da República e perguntar: quem, neste país, tem plano de contingência escrito em lei e quem depende do que sobra do prato dos outros?

O mapa, como escreveu Fiódor Dostoiévski, não é da cidade. É da luz. E a luz, neste caso, não falta. Só não chega a todos os lugares ao mesmo tempo.

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Fontes:

Bancos Alimentares: RTP / Observador / Agência Ecclesia, 2024-2026 – volumes e declarações de Isabel Jonet. Público / Observador / Renascença, dez. 2025 – ENIPSSA: 14476 sem-abrigo em 2024 (+10%).

Ajudas de custo: ECO, 16 set. 2024 – ~29 mil€/ano por deputado; atualização jan. 2025 com efeitos retroativos.

Resgates bancários: Banco de Portugal / Fundo de Resolução / Renascença / Observador / Jornal de Notícias / Correio da Manhã, 2018-2026 – BES: 8,3 mil milhões € de exposição do Fundo de Resolução Impostos: Público, 28 nov. 2024 – chumbo do grupo de trabalho sobre grandes fortunas (Livre); Público, 26 nov. 2024 – descida do IRC de 21% para 20%.

Remessas: Banco de Portugal , balança de rendimento secundário, fev. 2025 – 4300,93 milhões €, em 2024.

Teoria: Acemoglu & Robinson, Why Nations Fail, 2012; Nobel Economia 2024; Saramago, “Ensaio sobre a Cegueira”, 1995.

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Nota do Director:

O jornal sinalAberto, embora assuma a responsabilidade de emitir opinião própria, de acordo com o respectivo Estatuto Editorial, ao pretender também assegurar a possibilidade de expressão e o confronto de diversas correntes de opinião, declina qualquer responsabilidade editorial pelo conteúdo dos seus artigos de autor.

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20/08/2026

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Ana Paula Cruz

Ana Paula Cruz é jornalista investigativa, fotógrafa, compositora e escritora brasileira, radicada entre o Recife e Lisboa. Desenvolve o projeto VINCERE (código em “Python” e dados públicos e verificáveis), um eixo de investigação sobre fraude institucional, desigualdade estrutural e arquitetura do poder entre o Brasil e a Europa. Assina poesia e prosa sob o pseudónimo Cinza Viva; e fotografia sob o nome Apcruz. Tem licenciatura em Estudos Europeus; pós-graduação em Direito Penal e Medicina Forense, Compliance e Governança, além de estar na etapa final de um MBA (Master of Business Administration).

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