Quem é hoje capaz de salvar o Mundo?
Chaves (Créditos fotográficos: visitportugal.com)

Os resultados das recentes eleições autárquicas estão homologados. Como sempre sucede em democracia, eles são mais ou menos satisfatórios consoante o esclarecimento e a consciência de cada um dos mais de nove milhões e trezentos mil eleitores inscritos, incluindo a vontade dos quase três milhões e oitocentos mil desses cidadãos que não se expressaram nas urnas.
Assim, os 308 eleitos à presidência das câmaras municipais e os promissores autarcas que vão aproveitar a proximidade das populações locais para dirigir as 3259 freguesias do país renovam a nossa esperança de que cumpram as promessas nos respectivos mandatos. Por isso, exige-se-lhes a capacidade e a honestidade de darem resposta às necessidades das comunidades que representam, sem os comportamentos e os artifícios que sustentam os jornais sensacionalistas e as guerras de audiências.

Como escreve Miguel Esteves Cardoso, nas eleições, “a igualdade é invencível”, sabendo-se que cada eleitor tem um só voto e que “todos os votos valem o mesmo”. Na prática, esta afirmação é discutível. Isso é, objectivamente, o que se espera de uma democracia representativa, atendendo ao sufrágio universal igualitário. De facto, os votos têm o mesmo valor dentro de uma freguesia, porque cada lista elege membros de forma proporcional. Porém, no órgão deliberativo de um município (ou seja, a assembleia municipal) parte dos seus membros é eleita directamente pelos eleitores e a outra parte é composta pelos presidentes das juntas de freguesia (aqui indispensáveis, embora colocados por inerência), o que tende a criar desequilíbrios de representatividade.
Comparando com algum distanciamento, um voto num concelho pequeno pode valer algumas vezes mais na composição da respectiva assembleia municipal do que um voto em Lisboa ou no Porto, porque os presidentes de junta eleitos em freguesias pequenas entram automaticamente (tal como os das restantes) e são muitos em relação à demografia local e aos seus eleitores. Por outro lado, considerando a disparidade no número de eleitores registados (e não o total de residentes) nos cadernos eleitorais (o qual determina quantos mandatos ou lugares são atribuídos na assembleia de freguesia), existem freguesias com peso político variável quando participam na assembleia municipal. Daí eventuais diferenças nas decisões sobre os assuntos mais próximos das pessoas, não obstante as vantagens da descentralização e da autonomia local.

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Agora, concordo com Miguel Esteves Cardoso quando se refere às “tonturas da altivez” e à “mania da superioridade” de alguns comentadores ou posicionamentos do espectro político português, para si, a “doença mais desagradável que aflige a raça humana” e que, como afirma, “é acarinhada em Portugal como se fosse uma qualidade, indispensável para a sobrevivência”. Como verifica o colunista do jornal Público: “A altivez é um afastamento. […] É uma esterilidade. É uma estupidez.”
Termino esta crónica com o início de um poema de Eugénio de Andrade: “Escuta, escuta: tenho ainda / uma coisa a dizer. / Não é importante, eu sei, não vai / salvar o mundo, não mudará / a vida de ninguém – mas quem / é hoje capaz de salvar o mundo / ou apenas mudar o sentido / da vida de alguém?”
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Nota:
O presente artigo (na versão de crónica) foi publicado na edição de ontem (domingo, 19 de Outubro) do Diário de Coimbra, no âmbito da rubrica “Da Raiz e do Espanto”.
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20/10/2025