Relatório de 2026: pobreza e exclusão social em Portugal

 Relatório de 2026: pobreza e exclusão social em Portugal

(Créditos fotográficos: Indra Projects – Unsplash)

A 17 de Outubro, comemorou-se o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza. Por isso, faz sentido apresentar uma síntese do relatório publicado pelo Observatório Nacional de Luta Contra a Pobreza (ONLCP) da EAPN (European Anti-Poverty Network, em Português, Rede Europeia Anti-Pobreza): “Pobreza e Exclusão Social em Portugal – Relatório 2026”. Tem por base os dados mais recentes do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento (ICOR.), relativos aos rendimentos de 2024, e oferece uma análise detalhada das dimensões monetárias, laborais e materiais da pobreza e da exclusão no nosso país.

(eapn.pt)

O referido documento assinala  que “ o ano de 2025 ficou marcado por uma conquista de elevado valor simbólico: pela primeira vez desde o início da série estatística, em 2015, o número de pessoas em risco de pobreza ou exclusão social (PES) recuou para menos de 2 milhões. A taxa de PES fixou-se em 18,6%, abrangendo 1995 mil pessoas, o registo mais baixo da última década, consolidando uma descida anual de 1,1 pontos percentuais”.

Considera-se que “este avanço foi impulsionado sobretudo pela contração do risco de pobreza monetária, que desceu para 15,4% – afetando 1660 mil pessoas –, num contexto de aumento do rendimento mediano que elevou o limiar de pobreza para 8.679 € anuais (723,25 € mensais)”, salientando ainda que, em paralelo, se assistiu “a uma redução expressiva da taxa de intensidade da pobreza, para 22,6% [-3,1 p.p. face a 2024], sinalizando que os agregados que permanecem abaixo da linha de pobreza dispõem de rendimentos menos distantes daquela fasquia.”

(eapn.pt)

Todavia, devemos ter cuidado com esta análise, pois a situação merece ser vista com preocupação. A pobreza isolada regista quebra assinalável. No entanto, aumentaram outras formas de exclusão, e as bolsas de pobreza que persistem são mais complexas e resistentes “a soluções exclusivamente focadas na transferência direta de rendimento”. O relatório destaca que  “os dados de 2025 confirmam o papel crítico das prestações sociais na mitigação da exclusão. Sem qualquer apoio público, a taxa de pobreza em Portugal seria de 40,7%”.

Um dado interessante é o de que “os grupos sociais vulneráveis ao risco de pobreza ou exclusão […] não se distribuíram de forma equitativa pela sociedade portuguesa, revelando dinâmicas de vulnerabilidade profundamente distintas em função do sexo, da idade, da composição familiar, da inserção laboral, do regime habitacional e da saúde dos cidadãos.”

(Créditos fotográficos: Saksham Vikram – Unsplash)

Destacamos o facto de a desigualdade de género permanecer como uma barreira estrutural. Por isso,  as mulheres registam  um risco de PES superior ao dos homens (19,7% face a 17,3%). No que diz respeito ao plano geracional, salienta-se que o risco global na infância e juventude recuou para 19,2%, observando-se também uma fratura interna entre as crianças com menos de seis anos, que beneficiaram de uma redução expressiva para 15,2%, e os adolescentes entre os 12 e os 17 anos, que viram a sua vulnerabilidade agravar-se para 24,0%, concentrando hoje praticamente metade de toda a pobreza infantil em Portugal.

(Créditos fotográficos: Nourieh Ferdosian – Unsplash)

O relatório menciona também que “a população idosa – 65 ou mais anos – registou uma correção favorável para 20,8%”. Contudo, “a leitura de longo prazo (2015-2025) expõe a rigidez deste grupo, cuja taxa de risco recuou uns escassos 0,9 p.p. em dez anos, confirmando que a proteção social na velhice tem avançado a um ritmo muito mais lento do que nas restantes fases da vida”. Outro grupo analisado é o das famílias monoparentais. E estas “constituem o maior polo de preocupação social no país, com o risco de PES a subir para 40,7% , atingindo 2,2 vezes a média nacional, e a pobreza monetária a disparar para os 35,9%”.

(eapn.pt)

Temos de ver estes dados com preocupação, porque  este  cenário de precariedade “contrasta com o progresso das famílias numerosas – dois adultos com três ou mais crianças –, cujo risco recuou para 27,6% devido a uma forte redução da sua privação material severa, e das pessoas idosas que vivem sozinhas, que viram o seu risco desagravar-se para 30,4%, estreitando o fosso de género que penalizava as mulheres idosas isoladas.”

(eapn.pt)

Quanto ao mercado de trabalho, constata-se  que “se, por um lado, o desemprego se mantém associado a um risco de PES mais elevado (56,7%), por outro, a posse de um emprego não garante imunidade face à exclusão, afetando 10,0% da população ativa, muito especialmente os trabalhadores por conta própria (23,3%)”. Não pode ser novidade para ninguém os contornos dramáticos do trabalho pobre entre a população estrangeira extracomunitária, que  “continua fustigada por uma taxa de pobreza monetária de 26,1%.”

Um dado importante é o relativo à escolaridade, concluindo-se que “os cidadãos com o ensino básico apresentam um risco de PES de 26,0%, um valor quase quatro vezes superior ao verificado entre licenciados (6,8%)”. Porém, salienta-se igualmente que, entre os licenciados , se verifica “uma progressiva estagnação de rendimentos ao longo da década”.  

Quanto às maiores assimetrias materiais, estas “concentram-se no regime de ocupação da habitação e no domínio da incapacidade (limitação de atividade)”.  Assim, os arrendatários com rendas reduzidas ou gratuitas “registaram um agravamento no risco de PES para 33,0% e enfrentam uma taxa de privação material e social severa (22,6%) dezasseis vezes superior à dos proprietários com crédito à habitação (1,4%)”.

(Créditos fotográficos: Maximus Beaumont – Unsplash)

Preocupante é ainda a situação dos cidadãos com incapacidade severa, porque estes “mantêm-se numa situação de exclusão persistente (risco de PES de 33,8%): embora os seus indicadores monetários e materiais tenham registado melhorias, a sua taxa de intensidade laboral muito reduzida agravou-se para 24,9% em 2025.”

O relatório mostra ainda que Portugal se move a velocidades diferentes: o mapa de 2025 acentua os contrastes entre o litoral urbano e o interior e as regiões  insulares. E, por isso, “longe de ser um fenómeno uniforme, a pobreza e a exclusão social no país consolidaram um processo de reconfiguração geográfica onde a recuperação dos polos tradicionalmente mais vulneráveis contrasta com sinais de recuo preocupantes nos territórios do interior.”

(Créditos fotográficos: Daniel Angele – Unsplash)

Fica claro que os “territórios de baixa densidade populacional permanecem estruturalmente como os mais expostos à vulnerabilidade, registando um risco de PES de 22,5% e a taxa de pobreza monetária mais elevada do país (19,7%)”. Merece reflexão o facto de o “litoral densamente povoado” encerrar “um paradoxo social agudo”,  porque, “embora registe a menor taxa de pobreza monetária (13,0%), é nas grandes cidades que a privação material e social severa atinge o seu valor mais elevado (4,5%)”.

Como se poderá explicar este contraste? Provavelmente, é fruto dos dois  factores que geram maiores níveis de exclusão: o elevado custo de vida e os custos da habitação.

Segundo este relatório, o ano de 2025 fixou um marco histórico na coesão territorial do país, porque os Açores e a Madeira “registaram uma aproximação assinalável aos padrões nacionais, cumprindo em simultâneo a meta central da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza (ENCP) de manter as disparidades regionais de pobreza abaixo dos 3 pontos percentuais face à média nacional (15,4%)”. Destaquemos o facto de a Região Autónoma dos Açores, tradicionalmente o território mais vulnerável do país, “ter conseguido uma redução notável de 6,8 p.p. no risco de PES, situando-se nos 21,6%, e viu a pobreza monetária recuar de forma expressiva para 17,3%”. Já a Região Autónoma da Madeira “consolidou a sua tendência virtuosa ao reduzir a pobreza monetária para 16,6% e o risco de PES para 20,5%, apresentando como sinal de alerta um ligeiro aumento na percentagem de pessoas a viver em agregados com baixa intensidade laboral (6,2%)”

(Créditos fotográficos: Nikoloz Gachechiladze – Unsplash)
 

Estes resultados de 2025 “expõem a importância vital da eficácia redistributiva do Estado Social”, porque, na verdade, foi nas geografias onde o impacto protetor das transferências sociais – excluindo pensões – mais cresceu “que se registaram os maiores recuos na pobreza monetária.” Para comprovar isso, veja-se o caso da Península de Setúbal: “a eficácia das transferências sociais nesta região saltou de uns frágeis 16,5% para 27,65% e, em paralelo, a taxa de pobreza monetária recuou de 18,7% para 15,7% , um decréscimo de 3,0 p.p.”.  

No entanto, “nos territórios onde o escudo do estado social perdeu força”, a pobreza ressentiu-se de imediato. Foi  o caso do Alentejo, onde o  impacto protetor das prestações recuou para 24,15% – era de 27,9% –, coincidindo com um salto preocupante da pobreza monetária de 15,8% para 17,9%, o valor continental mais elevado. Um padrão idêntico de enfraquecimento dos apoios e subida da pobreza afetou igualmente o Oeste e Vale do Tejo, onde a pobreza monetária subiu para 17,2% e o impacto das transferências recuou de 30,7% para 24,89%. Registe-se que, na Região Centro, a pobreza subiu para 17,0%, sob a menor eficácia protetora do país, de apenas 21,30%.

(eapn.pt)

Podemos concluir que “a distribuição interna da riqueza revela uma assimetria profunda entre os modelos de coesão regional”.  É  na Grande Lisboa que temos o território mais desigual de Portugal, apresentando o Coeficiente de Gini1 mais elevado (32,9%) e a maior disparidade entre os extremos da população (S80/S20 de 5,4).  Registe-se  que a  pobreza nesta região dispara de 12,2% para 18,1% (+5,9 p.p.), quando se tem em conta o custo da vida local, evidenciando que uma fatia substancial da população metropolitana vive muito abaixo dos padrões de consumo locais.

(eapn.pt)

Todavia, em contraponto, a Região Centro “afirma-se como o território socialmente mais equilibrado, apresentando os menores índices de desigualdade do país (Gini de 28,7% e S80/S20 de 4,3)”.

Merece destaque que “em 2025, com rendimentos relativos a 2024, o contingente de pessoas em situação de pobreza monetária em Portugal recuou para cerca de 1 milhão e 660 mil indivíduos – uma redução absoluta de 101 mil face ao ano transato –, sobrevivendo com um rendimento disponível inferior ao limiar oficial de 723,25 € mensais (8679 € anuais).”

(eapn.pt)

Contudo, é preciso destacar que “5,2% da população nacional enfrenta uma pobreza extrema (com menos de 482 € mensais) e 9,7% vive com menos de 603€, ao passo que 23,7%, embora se encontrem acima do limiar de pobreza, vivem numa zona de severa fragilidade financeira”.

Como este relatório é muito longo e  tem muitos dados que nos podem fazer reflectir com mais atenção no problema da exclusão e da pobreza em Portugal, a ele voltaremos num próximo artigo.

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26/10/2026

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José Vieira Lourenço

José Vieira Lourenço é da colheita de Agosto de 1952. Estudou Teologia e fez a licenciatura e o mestrado em Filosofia Contemporânea, na Universidade de Coimbra. Professor aposentado do Ensino Secundário, ensinou Português, Filosofia, Psicologia, Sociologia, Teatro e Oficina de Expressão Dramática. Foi, igualmente, professor do Ensino Superior, na Universidade Católica de Leiria e no Instituto Superior Miguel Torga, em Coimbra. Foi ainda coordenador do Centro da Área Educativa de Coimbra (1998-2002) e só então conheceu verdadeiramente a classe docente. Descobriu bem cedo a sua paixão pela poesia, pela literatura, pela música e pelo Teatro. Foi Menino Jesus aos quatro meses no presépio vivo da sua freguesia. Hoje, como voluntário, dirige o Grupo de Teatro O Rebuliço da Associação Cavalo Azul e também o Grupo de Teatro de Assafarge. Canta no Coro D. Pedro de Cristo, em Coimbra. Apaixonado pela Natureza, gosta de passear a pé pelos trilhos da Abrunheira, na companhia do seu cão. Dedicado às causas da cidadania, é dirigente do Movimento Cidadãos por Coimbra, que insiste em fazer propostas para criar uma cidade diferente. Casado, tem duas filhas e uma neta, a quem gosta de contar histórias.

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