Sequestro de Maduro impõe necessidade de conter ambição de poder ilimitado de Trump
(globalr2p.org)
Fiz isso “porque eu posso”, respondeu Donald Trump quando lhe perguntaram por que havia decidido taxar em 50% uma série de produtos brasileiros importados pelos Estados Unidos, em meados de julho do ano passado.

Foi também por considerar que “podia” que ordenou o ataque à Venezuela e o sequestro do seu presidente, Nicolás Maduro, que, com a mulher, foi levado a Nova Iorque para ser julgado por tráfico de drogas e exibido de maneira humilhante, com os olhos vendados, numa fotografia que vários jornais acharam por bem destacar.
Em bom rigor, poder, não podia: quer porque desrespeitou um princípio elementar do direito internacional, que proíbe o ataque a nações soberanas, salvo em legítima defesa ou com autorização da Organização das Nações Unidas (ONU), quer porque desrespeitou a própria Constituição do seu país, que dá ao Congresso, e não ao presidente – exceto, também, em caso de legítima defesa –, o poder de declarar guerra e de autorizar o uso da força militar.
Não podia, mas pôde, porque se trata de um gângster, como argumentou o jornalista Miguel Szymanski na RTP: “Nós temos aqui a consequência daquilo que [o vice-presidente norte-americano] J. D. Vance disse, a primeira coisa que ele disse quando veio à Europa, que é: ‘There’s a new sheriff in town.’ Há um novo xerife na cidade. O que ele não disse é que o xerife é um gângster também. E, com um gângster, é uma questão de tempo até sabermos quando é o próximo assalto.”

Powell. (pt.wikipedia.org)
Não é que, antes, os Estados Unidos da América (EUA) respeitassem exatamente as regras: basta lembrar que invadiram o Iraque, em 2003, sem a autorização do Conselho de Segurança da ONU. Mas ali, pelo menos, houve uma encenação, com o secretário de Estado, Colin Powell, a tentar demonstrar a existência das armas de destruição em massa, ainda que em imagens nada convincentes.
A encenação desta vez foi a acusação de “narcoterrorismo”, o que, supostamente, justificaria os ataques a embarcações venezuelanas, com, no mínimo, 110 mortos desde o início de setembro, embora sem provas de que seriam traficantes – e mesmo que fossem, haveria modos mais civilizados de os abordar. Mas o real motivo que conduziu ao sequestro de Maduro foi explicitado pelo próprio Trump, ao anunciar o sucesso da operação: embora tenha mantido a referência às drogas, enfatizou o interesse pelo petróleo. Nem de leve usou a habitual alegação de defesa da democracia, que costuma servir de pretexto para intervenções em outros países. Pelo contrário, afirmou que os EUA assumiriam o governo da Venezuela até que fosse possível fazer uma transição “segura, adequada e criteriosa”. (Não se trata de saber se é isso mesmo que vai acontecer, apenas de registar a aberração de uma tal declaração, própria de quem se considera dono do Mundo.)

Seria, portanto, injustificável a reação de todos os que, diante de algumas veementes condenações do ataque norte-americano nas redes sociais, responderam com a exaltação da derrubada do “ditador sanguinário” e a exaltação de um novo tempo de liberdade para os Venezuelanos. Mas não é difícil de entender esse apoio à ação de Trump, apesar de o seu próprio discurso não autorizar essa interpretação: foram duas décadas e meia de intensa propaganda, primeiro contra Hugo Chávez, depois contra Maduro, tendo sempre a democracia como bandeira. É assim que se adestra a opinião pública para agir irrefletidamente, mesmo diante de evidências em contrário.
Não é casual, tampouco, que essa agressão a um país soberano seja relativizada, no comentário televisivo, por considerações a respeito do governo venezuelano: é uma forma de desvirtuar a atenção do que efetivamente importa. Tivéssemos uma cobertura jornalística e um espaço de análise dedicado aos reais interesses que conduzem a política internacional, as possibilidades de sucesso da propaganda mistificadora seriam bem menores.

Teríamos também argumentos para acionar rapidamente diante das falácias sobre a defesa da democracia como legitimadora de intervenções estrangeiras: por exemplo, se é para derrubar ditaduras, por que países como a Arábia Saudita não correm qualquer risco? Poderíamos também lembrar o que ocorreu com países que sofreram essa intervenção em nome de causa tão nobre: Afeganistão, Iraque, Líbia, apenas para citar alguns no passado recente.
Pior ainda é fazer pouco caso da escalada que a atual ambição imperialista promete empreender. Todos se recordam do que disse Trump, pouco antes de assumir o seu segundo mandato, sobre seu projeto de tomar a Gronelândia, o Canal do Panamá e anexar o Canadá, nessa espécie de reedição do conceito de “espaço vital” de trágica memória.
Bravatas, disparates de quem atua permanentemente para tumultuar e confundir? Não parece, a julgar pelas renovadas declarações sobre a Gronelândia. De qualquer forma, o que ocorreu agora na Venezuela não pode deixar dúvidas quanto à ameaça que paira imediatamente sobre os governos da América Latina que não se alinharem estritamente aos Estados Unidos.

(pt.wikipedia.org)
Neste ano, o Brasil terá eleições presidenciais. Lula da Silva concorrerá a um quarto mandato e é o favorito nas pesquisas, mas enfrenta uma imprensa empenhada em viabilizar um candidato capaz de derrotá-lo e uma oposição de extrema-direita que chegou a apelar para a intervenção de Trump, com o objetivo de livrar o ex-presidente Jair Bolsonaro e os seus cúmplices da condenação por tentativa de golpe de Estado. E comemorou o tarifaço (ou taxação) decretado em julho, afinal, parcialmente revogado meses depois. A preocupação com o crescimento de campanhas de desinformação, especialmente através das redes sociais, já seria central nesse período, mas agora torna-se ainda maior, diante dos interesses declarados de Donald Trump e da sua aliança com os comandantes das big techs.
Conter a ambição de poder ilimitado de quem se pretende dono do Mundo é a principal tarefa que este início de ano impõe a quem tem ainda algum apreço pela democracia.
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05/01/2026