Silva Pais: o pide “fofinho”

 Silva Pais: o pide “fofinho”

(© RTP)

A RTP1 está a exibir a série “Cuba Libre”. Annie Silva Pais, filha do último director da Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), é a personagem principal da história, que tem como base um trabalho de investigação dos jornalistas José Pedro Castanheira e Valdemar Cruz.

Annie entre os pais, na última fotografia do major Silva Pais, tirada a 17 de Janeiro de 1981, dez dias antes de morrer. (expresso.pt/revista)

Annie Silva Pais foi a filha rebelde do sanguinário que António de Oliveira Salazar, enquanto presidente do Conselho de Ministros do governo ditatorial do Estado Novo, escolheu para dirigir a PIDE/DGS (Direcção-Geral de Segurança) entre 1962 e 1974, e que o “25 de Abril” despediu com justa causa. Annie foi casada com um diplomata suíço, colocado na embaixada daquele país em Cuba, imediatamente após o triunfo das forças comandadas por Fidel Castro.

Annie Silva Pais com o marido, o suíço Raymond Quendoz, e a sua companhia de sempre, os cães. (expresso.pt/revista)

Em Havana, Annie separou-se do marido, apaixonou-se pela revolução, por Che Guevara e manteve uma longa relação amorosa com René Vallejo, médico pessoal de Guevara, além de ter pedido asilo político. Para desespero do seu pai, que, perante tal escândalo, apresentou a sua demissão a Salazar, que não a aceitou.

Annie Silva Pais com Armanda da Fonseca, no interior do apartamento, tendo o retrato de Che Guevara em fundo. (expresso.pt/revista)

A vida de Annie – que regressou a Portugal após o 25 de Abril, para trabalhar na 5.ª Divisão (criada, em meados de Junho de 1974, por iniciativa de Francisco Costa Gomes, então Chefe de Estado-Maior-General das Forças Armadas), tendo morrido em Havana, vítima de cancro – justifica a série que a RTP1 exibe todas as quartas-feiras, logo a seguir ao Telejornal. Mas encerra uma enorme ofensa à nossa memória colectiva: o último director da polícia política do regime fascista é apresentado como um agente da PIDE de bons modos, fofinho.

Fernando da Silva Pais quando visitou Oliveira Salazar no Hospital da Cruz Vermelha. (© RTP Arquivos)

Nada mais falso. Sob as suas ordens, a PIDE aprisionou, torturou e matou. Silva Pais ordenou o assassinato do general Humberto Delgado e da sua secretária Arajaryr Moreira Campos. E só o seu falecimento, em Janeiro de 1981, extinguiu a sua responsabilidade no crime. Fernando da Silva Pais não foi um pide fofinho, como é apresentado em “Cuba Libre”. Apresentá-lo como tal ofende a nossa memória colectiva.

13/10/2022

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Soares Novais

Porto (1954). Jornalista. Tem prosa espalhada por jornais, livros e revistas. “Diário de Notícias”, “Portugal Hoje”, “Record”, “Tal & Qual” e “Jornal de Notícias” (JN) são algumas das publicações onde exerceu o seu ofício [Fonte: “Quem é Quem no Jornalismo”, obra editada pelo Clube de Jornalistas, em 1992]. Assinou e deu voz a crónicas de rádio. Foi delegado sindical e dirigente do Sindicato dos Jornalistas (SJ) [no biénio de 1996/97, sendo a Direcção do SJ presidida por Diana Andringa], da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto (AJHLP) e membro do Conselho de Redacção do JN, do qual foi editor-adjunto do “Gabinete de Reportagem” e do “Desporto”. É autor do romance “Português Suave – Cuidado com cão” [1.ª edição “Euroedições”, em 1990; 2.ª edição “Arca das Letras”, em 2004], do livro de crónicas “O Terceiro Anel Já Não Chora Por Chalana”, da peça de teatro “E Tudo o Espírito Santo Levou” e da obra para a infância “A Família da Gata Pintinhas”. É um dos autores portugueses com obra publicada pela Editora Thesaurus, de Brasília. Actualmente, integra a Redacção do jornal digital “sinalAberto”.

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