Uma Europa soberana e democrática – e os seus inimigos
(Créditos fotográficos: Christian Lue – Unsplash)
Com redobrada intensidade a partir do pós-Segunda Guerra Mundial, a ideia de Europa tornou-se objeto de reflexão persistente entre teóricos, filósofos e ensaístas. O conceito foi forjado por uma geração que atravessou uma sucessão de convulsões de matriz nacionalista e imperial: a Guerra Franco-Prussiana, as Guerras Balcânicas, a Primeira Guerra Mundial, a Guerra Polaco-Soviética, a Guerra Polaco-Soviética e a Segunda Guerra Mundial. Tudo entre 1870 e 1945 – isto é, no espaço de uma vida.


Vários foram os autores que deram seguimento a este debate. Entre as vozes mais audíveis, no cume simbólico e intelectual, destaca-se George Steiner – não apenas pela originalidade das formulações, que até ecoam tradições anteriores, mas pelo peso singular que a sua escrita lhes confere. Em “A Ideia de Europa”, Steiner identifica cinco princípios distintivos da Europa.
Ei-los, de forma sucinta. Vejamos em quantos se reconhece o leitor:
- É um espaço caminhável: um território cuja escala humana permite a travessia, o contacto e a interpenetração cultural.
- É uma geografia saturada de memória, onde cada cidade, cada rua e cada ruína se apresentam como camadas vivas de História.
- Define-se pela pluralidade linguística e pela permanente tradução – não apenas entre línguas, mas entre tradições culturais, filosóficas e artísticas.
- Caracteriza-se pela centralidade dos cafés, das praças e dos espaços de sociabilidade intelectual, onde a conversa, o debate e a crítica pública se tornam práticas civilizacionais.
- Nasce também da consciência trágica do seu próprio passado – guerras, catástrofes e rupturas – que a obrigaram a pensar-se continuamente a si mesma.

Tomados em conjunto, estes princípios conduzem-nos à imagem de uma Europa que, sem apagar as suas diversidades internas, se reconhece como comunidade histórica e civilizacional. Perfila-se a ideia de uma vasta federação, com tudo o que de integrador e de mobilizador essa condição pode oferecer. Este desígnio de aproximação entre povos, gerações e culturas foi sendo concretizado: de mercados nacionais à moeda única, das fronteiras nacionais ao Espaço Schengen, das universidades nacionais ao Programa Erasmus. Pensemos no próprio projeto da União Europeia, com um Parlamento Europeu comum.

– europaeischeliteraturtage.at)
Outro europeísta convicto, Robert Menasse, retoma e reafirma estes ideais em “O Mundo de Amanhã: Uma Europa soberana e democrática – e os seus inimigos”. A obra distingue-se de “A Ideia de Europa”, como o próprio título sugere, pelo tom mais melancólico e crítico, marcado por um lamento lúcido face aos entraves políticos, institucionais e simbólicos que o projeto europeu tem vindo a enfrentar. Simultaneamente, o livro oferece um conjunto de episódios de particular vivacidade intelectual, em larga medida possibilitados pela posição singular de Menasse no espaço público europeu. A consideração académica e o prestígio de que goza entre os seus pares abriram-lhe as portas de fóruns privilegiados, não raras vezes na qualidade de conselheiro. Foi-lhe permitido observar as dinâmicas, as hesitações e os limites que atravessam a construção europeia contemporânea.

Recupero uma das mais interessantes passagens: “Há algum tempo, até o limite da minha frustração ter sido atingido, participei num grupo de reflexão reunido no âmbito da UE [União Europeia] que se encontrava, de alguma forma, sob a égide do então presidente da Comissão, Durão Barroso […] Propus que todas as pessoas nascidas na Europa […] recebessem um documento de identificação europeu, do qual constasse o local de nascimento, mas não a nação. […] Durão Barroso nem sequer respondeu, virando-se antes para um economista que sugeriu umas quaisquer sanções contra a dívida orçamental grega.”
Este episódio situar-se-á entre 2004 e 2014 – anos em que Durão Barroso presidiu à Comissão Europeia. Insere-se, portanto, numa fase anterior à intensificação de movimentos políticos que, em múltiplos contextos nacionais, vieram reforçar tendências nacionalistas, isolacionistas e identitárias. Neste horizonte temporal, mais do que na conjuntura atual, subsistia uma margem relativamente mais ampla para a receção de propostas de matriz pós-nacional, ancoradas numa lógica de integração progressiva e de cooperação supranacional. A Europa apresentava-se menos saturada por discursos de fechamento, por retóricas xenófobas ou por formas de soberanismo reativo.

Se, mesmo nesse contexto menos crispado, uma ideia de inclinação europeísta suscitou tão escassa ressonância institucional, impõem-se duas interrogações inevitáveis:
i) Quão distante se encontra Europa atual daquela Europa que tantos pensadores, de Steiner a Menasse, ousaram conceber como horizonte civilizacional, político e cultural?
ii) Terá a História já deixado passar, talvez irremediavelmente, a janela de oportunidade para a edificação desse projeto europeu?
Procuraremos esboçar uma resposta para estas interrogações.
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26/02/2026