11 de Setembro

 11 de Setembro

Atentado às Torres Gémeas. (litci.org)

É fácil encontrar imagens, na imprensa nacional e europeia, das Torres Gémeas (World Trade Center), dos aviões “kamikazes” e da poeira deixada em Nova Iorque, nesse fatídico dia para os norte-americanos. Já não é tão fácil encontrar imagens do outro 11 de Setembro, do Chile, e do avião da FACH (Força Aérea do Chile) a bombardear o Palácio de La Moneda.

Segundo dados oficiais, no total, considera-se que 2996 pessoas morreram nos atentados: 246 nos quatro aviões (dos quais não houve sobreviventes), 2606 em Nova Iorque e 125 no Pentágono. 

É difícil estabelecer dados oficiais sobre o Golpe de Estado no Chile, devido a que, durante 17 anos, a ditadura militar escondeu e destruiu documentos, dinamitou corpos no deserto de Atacama, além de terem sido lançados ao mar prisioneiros vivos ou moribundos com o intuito do desaparecimento. Mas mesmo assim se confirma que, nos primeiros meses da ditadura e do período de terror, os partidos foram dissolvidos, milhares de opositores presos, muitos deles torturados em centros de detenção como o Estádio Nacional.

Golpe de estado no Palácio de La Moneda, no Chile. (gob.cl)

Estima-se que mais de três mil pessoas tenham sido mortas ou desaparecidas e outras dezenas de milhares obrigadas ao exílio. Cerca de 40175 pessoas foram executadas durante a ditadura do general Augusto Pinochet. E ainda há o registo de 1469 pessoas vítimas de desaparecimento forçado, das quais 1092 foram detidas e desapareceram, enquanto 377 foram executadas e os seus restos mortais nunca foram devolvidos.

As tragédias não se medem apenas em números, ainda devemos contabilizar, quando é possível, o sofrimento dos exilados, dos desterrados, dos detidos nos campos de detenção e a perseguição dos opositores. 

É um dever dos Chilenos e dos democratas do Mundo não esquecerem, para que a História não se repita. Sobretudo agora, quando sopram internacionalmente ventos saudosos de regimes totalitários e xenófobos.

Chile jura a Independência a 12 de Fevereiro de 1818. (estrolabio.blogs.sapo.pt)

A independência do Chile aconteceu como consequência das invasões napoleónicas, os criollos não aceitaram o novo regime instaurado e começaram, por toda a América, os movimentos de liberdade. No dia 18 de Setembro de 1810, foi realizada a primeira Junta Nacional de Governo e a Assembleia do Governo do Reino do Chile (que durou até 4 de Julho de 1811), também conhecida como a Primeira Reunião do Governo. Foi a organização criada para governar o Chile pós-colonial depois da deposição e prisão do rei Fernando VII da Espanha, por Napoleão Bonaparte. Foi o primeiro passo na luta chilena pela independência e é comemorado como o Dia Nacional do Chile.

Após a derrota das forças napoleónicas, iniciam, na América, as Guerras da Reconquista. No caso do Chile, foi o período que começou com o fim da Batalha de Rancagua, em 2 de Outubro de 1814, e que terminou com a vitória chilena na Batalha de Chacabuco, em 12 de Fevereiro de 1817. Durante este período, os defensores do Império Espanhol restabeleceram o seu domínio no Chile, depois de aquele país se ter separado da Coroa Espanhola. Os “Patriotas”, como eram denominados os Chilenos, tentaram difundir as ideias de independência nos sectores populares, devido à crescente influência monarquista espanhola, função que foi desempenhada pela acção guerrilheira de Manuel Rodríguez. 

As Festas Pátrias comemoram-se nos dias 18 e 19 de Setembro. Nestes dias, são muitas as actividades culturais de memória e da História que, aqui, recordamos.

“Fiestas Patrias Chile 2025”: uma celebração da identidade e da cultura nacional. (bodyandsoulinternational.com)
(elmostrador.cl)

Do jornal La Tercera, refiro uma compilação das canções de uma tragédia: as composições inspiradas no 11 de Setembro de 1973. No aniversário do golpe militar que terminou com o governo da Unidade Popular, na Culto, uma selecção de canções que abordam o tema do que aconteceu nesse dia e posteriormente. Há canções chilenas, mas também do estrangeiro, de Silvio Rodríguez aos U2, de Pablo Milanés à banda Los Tres.

“Se todos estão silenciosos é porque todos estão aterrorizados”, destaca um artigo que nos dá conta de um livro sobre cartas do exílio – conforme lemos na edição de 25 de Março de 2025 da publicação “El Mostrador” – intitulado “O tempo do Silêncio. As cartas do meu avô durante o exílio (insilio)”, de Leticia Martínez Vergara, obra apresentada em 26 de Março, na Sala Rubén Darío da Universidade de Valparaíso. Trata-se de um livro baseado nas cartas da sua família durante o exílio, cuja autora, designer e investigadora, cresceu no México.

A designer e pesquisadora Leticia Martínez Vergara.
(elmostrador.cl)

Os relatos mergulham na análise da escrita epistolar e testemunhal trocada pelo avô da autora, Hernán Martínez, e o seu filho exilado, entre 1974 e 1987, e da própria autora (neta de Hernán e filha de Juan), com o objectivo de determinar como essas narrativas contribuem para a reconstrução da memória do exílio no Chile. A obra centra-se na experiência de uma família fragmentada pela ditadura cívico-militar chilena.

Ainda no campo da literatura e das artes, estamos perante uma leitura de relatos de memórias do exílio e do regresso. Em comemoração dos 53 anos do golpe cívico militar no Chile, a organização não-governamental (ONG) Filhas e Filhos do Exílio realizou uma actividade, no dia 9 de Setembro, em conjunto com a organização Literatura em Casa, que consistiu numa leitura de relatos de memórias do exílio e do retorno de infâncias vulneradas na ditadura. Foram também apresentados trabalhos realizados nos ateliês de bordados em tecidos grossos ou serapilheiras que esta ONG promove.

(Direitos reservados)

Foi, igualmente, reposto um filme (documentário) realizado, em 2023, por um cineasta alemão sobre os filhos do exílio. Depois de efectuar entrevistas em Berlim e em Friburgo, o director Thomas Grimm esteve no país, em Março de 2023, para concretizar filmagens. O filme já foi exibido na televisão pública alemã (precisamente, em 2023), no contexto dos 50 anos do golpe militar, juntamente com a divulgação de um livro que servirá como material pedagógico para as escolas. “Alguns tiveram muita sorte, porque conseguiram estabelecer-se como profissionais e na sua vida pessoal, tanto na Alemanha como no Chile”, observa o realizador. Mas outros perderam o rumo. Devido ao exílio, são incapazes de conseguirem um vínculo estável ou de encontrarem o seu lugar no Mundo, e oscilam sempre entre os dois países. “O exílio deixa sempre marcas, de qualquer forma. São momentos da vida que marcam e não desaparecem”, sublinha o cineasta.

Cineasta alemão filma documentário sobre crianças exiladas no Chile. (elmostrador.cl)

E como não pode haver festas sem teatro, relembro também a reposição de dois grandes êxitos do teatro chileno.

A Pérgola das Flores1 é um clássico musical chileno com 25 intérpretes e música ao vivo. A icónica comédia musical, de Isidora Aguirre, regressa aos palcos no âmbito do 10.º Ciclo Memória e Património do Teatro Mori, com representações desde ontem (dia 17) até 21 de Setembro, oferecendo ao público a oportunidade de desfrutar de um dos clássicos mais queridos do teatro nacional.

Considerada um verdadeiro fenómeno cultural desde a sua estreia, em 1960, “A Pérgola das Flores” retrata, com humor e sensibilidade, as mudanças sociais que marcaram o Chile do final dos anos 20 do século passado. É difícil encontrar no Chile alguém que não cante ou que não conheça uma das canções desta peça musical. Isidora Aguirre – a quem tive o prazer de conhecer pessoalmente – e o grande encenador Eugenio Guzmán conseguiram um dos maiores êxitos do teatro nacional chileno. Estreado em 1960, este espectáculo converteu-se no grande êxito do teatro musical, sendo mais tarde levado ao cinema.

Cena da Pérgola das Flores em 2010. (es.wikipedia.org)

Também saliento o regresso da peça musical “La Negra Ester”, no contexto do mês das Fiestas Pátrias, o clássico dos palcos chilenos baseado em “Las décimas de La Negra Ester”, do folclorista Roberto Parra Sandoval. A versão original foi encenada com dramaturgia de Andrés Pérez, o renovador do novo teatro chileno, desafortunadamente desaparecido de forma prematura.

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Nota:

1 –“La Pergola de las Flores” era um mercado de flores que existia junto da igreja de São Francisco, em Santiago do Chile. A sua destruição colocou as “pergoleras” ou floristas contra o município. Este é o tema central da peça musical.

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18/09/2025

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Roberto Merino

Roberto Merino Mercado nasceu no ano de 1952, em Concepción, província do Chile. Estudou Matemática na universidade local, mas tem-se dedicado ao teatro, desde a infância. Depois do Golpe Militar no Chile, exilou-se no estrangeiro. Inicialmente, na então República Federal Alemã (RFA) e, a partir de 1975, na cidade do Porto (Portugal). Dirigiu artisticamente o Teatro Experimental do Porto (TEP) até 1978, voltando em mais duas ocasiões a essa companhia profissional. Posteriormente, trabalhou nos Serviços Culturais da Câmara Municipal do Funchal e com o Grupo de Teatro Experimental do Funchal. Desde 1982, dirige o Curso Superior de Teatro da Escola Superior Artística do Porto. Colabora também como docente na Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti, desde 1991. E foi professor da Balleteatro Escola Profissional durante três décadas. Como dramaturgo e encenador profissional, trabalhou no TEP, no Seiva Trupe, no Teatro Art´Imagem, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (UP) e na Faculdade de Direito da UP, entre outros palcos.

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