“Alcains. Tradições de uma Vila da Beira Interior”

 “Alcains. Tradições de uma Vila da Beira Interior”

Alcains (portugalfotografiaaerea.blogspot.com)

(biblioteca.cm-castelobranco.pt)

Este artigo nasce de três raízes que se entrelaçam. A primeira é o reconhecimento de que o livro de Maria Victória Ataíde não retrata apenas Alcains, mas toda a Beira Interior, com as suas variações subtis e a sua matriz comum. A segunda é a ligação profunda entre Alcains e a minha própria aldeia, Juncal do Campo, cuja origem se perde nos passos de pastores vindos destas terras em busca de novos pastos. A terceira é pessoal: conheço a autora desde criança, fui seu professor no então Liceu de Castelo Branco, e testemunhei, desde cedo, a vivacidade e a inteligência que agora reencontro nas páginas deste livro. Estas três motivações convergem num mesmo gesto: compreender melhor uma comunidade e reconhecer nela o espelho de uma região inteira.

1. Um livro que devolve uma comunidade a si própria

A obra de Maria Victória Ataíde é, antes de mais, um gesto de restituição: restituição da memória, da voz, dos gestos, dos rituais e das palavras de uma comunidade que, como tantas no interior português, viveu séculos entre a invisibilidade e a resistência silenciosa. Alcains não surge aqui como um inventário de tradições, mas como um espelho identitário.

ivrariacandelabro.com)

A autora regressa ao seu “ninho” não como memorialista nostálgica, mas como investigadora participante, praticando a etnografia clássica: viver com, observar com, sentir com. A Introdução desta obra é, simultaneamente, um hino ao sentimento de pertença e um manifesto metodológico: não se estuda uma comunidade sem nela mergulhar, e a revisão da literatura não antecede a vida, segue-a. Esta abordagem confere ao livro uma autenticidade rara, onde a experiência vivida se transforma em conhecimento partilhado.

2. A posição geográfica: um território de cruzamentos

Alcains situa-se num dos espaços mais historicamente densos do país:

  • entre a raia e Idanha, antiga capital e eixo administrativo;
  • junto ao Campo e ao Pinhal, duas economias e duas ecologias distintas;
  • entre a planície alentejana e as montanhas da Gardunha e da Estrela;
  • entre rotas de transumância, caminhos militares, vias romanas e itinerários religiosos.
(livrariacandelabro.com)

Esta posição faz da vila um laboratório histórico, onde se cruzam povos, línguas, crenças e práticas. Cada tradição é um sedimento de séculos. A fronteira, aqui, não é apenas política, é cultural. E Alcains é um desses lugares onde a fronteira se torna identidade, onde o local contém o eco do vasto território beirão.

3. A herança católica: moldar um povo “ao milímetro”

A religião católica estruturou profundamente a vida local:

  • o calendário (missas, festas, procissões);
  • o espaço (igrejas, capelas, cruzeiros, nichos);
  • a moral (virtudes, interditos, obrigações);
  • a sociabilidade (irmandades, confrarias, mordomias);
  • a economia simbólica (promessas, ex-votos, oferendas).

Não se trata de uma fé abstrata, mas de uma prática quotidiana: o toque dos sinos, o compasso pascal, as procissões de verão, as romarias que marcam as estações. A autora mostra a força e também a rigidez deste modelo, sobretudo no que toca aos papéis sociais femininos. A religião, aqui, não é apenas crença: é gramática social.

4. O cancioneiro: a memória cantada de um povo

Um dos aspetos mais valiosos do livro é a recolha do cancioneiro tradicional. As cantigas, quadras, modas e romances são tratados como documentos antropológicos, não como curiosidades folclóricas.

Vista parcial de Alcains. (commons.wikimedia.org)
Monumento de Homenagem aos Canteiros de Alcains.
(pt.wikipedia.org)

O cancioneiro revela:

  • a visão do amor e do casamento;
  • a dureza do trabalho agrícola;
  • a relação com a natureza;
  • o humor e a ironia popular;
  • a religiosidade quotidiana;
  • a memória de guerras, migrações e tragédias.

Um povo canta aquilo que não pode escrever. A oralidade funciona como arquivo emocional de uma comunidade sem arquivos, preservando aquilo que a escrita tardou a fixar. O cancioneiro de Alcains é, assim, um repositório vivo de séculos de vida rural.

5. O património material: igrejas, capelas, cruzeiros, santinhos

O património edificado funciona como cartografia da fé e da História. Cada igreja é um capítulo da memória coletiva; cada cruzeiro marca um limite ou uma proteção; cada capela é um microcosmo de devoção; cada “santinho” é um gesto íntimo de religiosidade.

Este património não é apenas artístico: é funcional, ritual, identitário. É através dele que a comunidade se reconhece no espaço e no tempo.

Igreja do Espírito Santo. (pt.wikipedia.org)

6. Os rituais: o calendário obrigatório da comunidade

As festas e rituais revelam uma sociedade onde o tempo é ritmado pela religião:

  • Advento e Natal;
  • Quaresma e Semana Santa;
  • Páscoa e Compasso;
  • festas dos padroeiros;
  • romarias de verão;
  • colheitas e bênçãos dos campos.

Cada ritual é uma coreografia social, em que se definem papéis, hierarquias e pertenças. A autora mostra como estes rituais funcionam simultaneamente como mecanismos de coesão e de organização social.

7. A metodologia: etnografia de proximidade

A autora pratica uma etnografia de proximidade, nascida da urgência de registar antes que desapareça. A modernização, a emigração, a escolarização e a televisão estavam a transformar rapidamente o mundo rural. O livro é, por isso, também um gesto de salvaguarda patrimonial.

Escrever sobre a própria terra exige desaprender hábitos académicos e reencontrar uma voz mais íntima. A autora consegue-o com equilíbrio raro, combinando rigor e afeto.

A Festa das Papas. (folclore.pt)

8. A importância histórica da região

Fonte romana. (pt.wikipedia.org)

Alcains é parte de um sistema territorial mais vasto, marcado por:

  • a proximidade da raia e as trocas;
  • a influência de Idanha;
  • a economia agrícola do Campo;
  • a silvicultura e resinagem do Pinhal;
  • a transumância entre Alentejo e montanhas;
  • as rotas militares e administrativas, desde a romanização.

A vila é um nó histórico, não um lugar isolado. As tradições locais são sínteses de influências múltiplas, que a autora revela com clareza.

Igreja Matriz de Alcains. (pt.wikipedia.org)

9. Valor da obra

O livro é valioso porque:

  1. Documenta um património imaterial em risco.
  2. Integra História, Etnografia, religião, música e memória.
  3. Revela a complexidade cultural de uma região periférica.
  4. Mostra a força da identidade local num mundo globalizado.
  5. É um exemplo de investigação participante feita com rigor e afeto.

Não é apenas descritivo; é interpretativo. Não é apenas local; é universal.

10. Síntese final

O livro “Alcains. Tradições de uma Vila da Beira Interior”, editado pela Alma Azul, em 2000, devolve dignidade a uma comunidade e oferece um retrato profundo de uma cultura moldada pela geografia, pela religião, pelo trabalho e pela memória. Maria Victória Ataíde escreve com a precisão de quem observa e com a emoção de quem pertence. O resultado é uma obra que ultrapassa o registo etnográfico e se torna um arquivo identitário, um gesto de preservação e de amor pela terra, lembrando-nos que, em cada comunidade, por mais pequena que pareça, cabe sempre o Mundo inteiro.

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15/06/2026

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José Afonso Baptista

José Afonso Baptista é doutorado em Ciências da Educação. Como professor e autor, o seu foco está na organização das aprendizagens, de acordo com os princípios da equidade, da diversidade e da inclusão, numa Escola Autónoma, responsável pela eficácia, pelo sucesso e pela felicidade de todos os seus alunos. Como investigador, deu especial relevo à Educação de Surdos, tema da sua tese de doutoramento e de vários artigos em revistas da especialidade. A sua obra publicada está referenciada no seu ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2107-1997. Merece especial destaque “Dogmas e Fantasmas da Escola”, obra publicada pela Lisbon International Press, em 2026. José Afonso Baptista foi professor destacado (pelo Instituto de Meios Audiovisuais de Educação – IMAVE) na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, além de ter sido metodólogo no antigo Liceu Normal D. João III (atual Escola Secundária José Falcão, em Coimbra), coordenador da Equipa de Apoio Pedagógico (EAP) da região Centro, consultor do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) para Educação em Angola e em São Tomé e Príncipe, bem como diretor regional de Educação do Centro, diretor da Educação da Fundação Bissaya Barreto e professor convidado da Universidade Católica Portuguesa. Foi, igualmente, membro do conselho consultivo de várias instituições públicas.

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