Uma pessoa não se resume em palavras

 Uma pessoa não se resume em palavras

(Créditos fotográficos: Marcelo Casall / Agência Brasil / Divulgação – hojeemdia.com.br)

Uma pessoa não se resume em palavras. Contudo, ela é uma palavra: ganhou um nome para se distinguir entre os demais. O indivíduo não prescinde do uso da palavra, é através dela que ele se significa e ainda vem a ser através dela que receberá o epíteto de homem ou de mulher de palavra, agrega valor moral.  

(Créditos fotográficos: Tegan Mierle – Unsplash)
(Direitos reservados)

A comunidade que o cerca construiu, palavra por palavra, um idioma (termo que implica um resultado de comunicação vinculante). Todavia, é através do “idios” que ele se expressa. E o que é o “idios”? É a narrativa pessoal expressa, tão melhor que ser um idiota, aquele que se abstinha das questões coletivas na Grécia Antiga, ainda que não necessariamente desprovido de inteligência.

Facto é que o termo evoluiu, na Idade Média, para um insulto, aplicável a alguém que sugerisse ser parvo, sem instrução. Conotação que persistiu até hoje. Toda a palavra comporta um histórico, uma evolução. A palavra é a matéria-prima do escritor. Este, costumeiramente, “fala” através da escrita, ainda que nem sempre aconteça. Por vezes, o leitor tem a “chance” de se aproximar da oralidade de algum escritor, em algum lugar previamente designado, para haver uma exposição verbal. É quando o autor vira uma página aberta para ser “ouvida”. É curiosa a evolução do termo grego “palaistra”, que significava um lugar de luta, assim como seria um lugar de debates intelectuais. Ou seja, de lutas de pensamentos. Evoluiu para “parabolé”, exposição narrativa concedida a alguém para destacar o seu pensamento, recorrendo à analogia ou comparando conceitos.

(cm-pvarzim.pt)

Enfim, todo o escritor almeja veicular a sua mensagem, como também se dispõe ao debate, inserindo as suas ideias e ideais. O bom uso da palavra não prevê incitar a querela, mas acata controvérsias. Requer diálogo. É neste estado anímico que vou estar na 27.ª edição do Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim (Mesa 2, no dia 26 fevereiro, às 10h00), assim como na Biblioteca da Imprensa Nacional Casa da Moeda, em Lisboa (a 3 de março, pelas 18h00) e na Biblioteca Ferreira de Castro, em Oliveira de Azeméis (a 7 de março, às 15h00). Quero conversar com quem lá estiver acerca do meu livro “Cá entre nós”.

“Cá entre nós” é uma expressão ambígua. Tanto sugere contar-se um segredo ao pé do ouvido como um alerta coletivo: de que há alguém recém-chegado de um lugar, se calhar, observem-no e recebam-no bem. Seremos todos sempre estrangeiros fora de casa. Uma pessoa que contém uma história, que prevê ser bem-vinda… Estranho é estranhar!

Com a palavra, enquanto bebé, ainda no berço, conheci-me através do “papá” e ao ser chamado de “tu” (ele um português). E através da “mamã”, ao me chamar de “você” (ela uma brasileira). Ele e ela meus iguais. A minha formação identitária foi, desde cedo, luso-brasileira. Duas metades a comporem um todo, partes inseparáveis. A origem é muito mais do que um lugar de nascimento. “Originis” seria originalmente fonte, nome derivado do verbo latino “oriri”, que se refere ao ponto de partida de algo por alguém. E quando o ponto de partida é também um destino? Um propósito predeterminado?

(Créditos fotográficos: Omar Ramadan – Unsplash)

Em suma, são palavras. Já a palavra “convite” evoluiu de “invitare” para “convivium”. Conviver é estar a somar juntos. Assim, convido os leitores do sinalAberto a partilharem comigo a celebração pública do meu livro. Uma obra que remete à história de emigrantes e imigrantes, que traduz a minha identidade afetiva, efetivamente e desde sempre atrelada a Portugal. É um conjunto de páginas que  conclama toda a gente a celebrar o elo que existe, que desponta e que persiste, apontando para os nossos povos, especialmente presente naquele que traz consigo o sangue luso e devolve a Portugal aquela pequena parte dele que se perdera na diáspora.

Há sempre uma volta! É sobre isso que se debruça o meu livro e acerca do que se vai estar a falar nesse périplo literário.  Estarei só de passagem, mas Portugal sempre esteve em mim, está e estará. A quem aprouver conferir compareça! Dou a palavra de que essa pertença é identitária, aspira a que haja um encontro com os meus idênticos.  

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19/02/2026    

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Lúcio Marques Ferreira

Lúcio Marques Ferreira Filho é um brasileiro com ascendência portuguesa. Nas suas próprias palavras, “herdou do pai não apenas o nome, mas também uma inusitada situação cultural e idiomática: soa excessivamente português para ser brasileiro e excessivamente brasileiro para ser português”. Escritor tardio, publicou aos cinquenta anos o livro de contos “Êxodos, Encontros e Desencontros” (Funalfa Edições, em 2004), a que se seguiu o livro de crónicas “Cidades Visíveis” (Martyria, em 2021). A obra “Cá entre Nós” é o seu primeiro romance (Imprensa Nacional Casa da Moeda, em 2025). Com a rubrica “Flanar é preciso!”, Lúcio Marques Ferreira assume-se como “um marinheiro que estará a contar estórias, aportando com bandeiras filosóficas, sociológicas, antropológicas e identitárias, que não foram deixadas de lado no mastro da nau”.

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