A confissão de Lúcio

 A confissão de Lúcio

Lisboa (Créditos fotográficos: gemmafjam – Unsplash)

Desço para o farto pequeno almoço servido no subsolo do hotel. Reconheço que estou em Portugal através da visão e um tanto pelo aroma memorial a conferir a presença do pão de ló, de pastéis de Belém (afinal, encontrava-me em Lisboa!), o queijo de leite de cabra serrano, tudo está a parecer muito português. Entretanto, há algumas surpresas: coxinhas de siri a sugerirem uma manhã num hotel do distante Sri Lanka, fatias de um bom melão espanhol, nisso não há nada de estranho: a Espanha é tão perto!

Lisboa, Ponte 25 de Abril sobre o Tejo. (Créditos fotográficos: Ronan Furuta – Unsplash)
Sebastião José de Carvalho e Melo, marquês de Pombal e conde de Oeiras, foi
primeiro-ministro de D. José I, entre 1750 e 1777, tendo sido o maior
responsável pela reconstrução de Lisboa, após o terramoto de 1755.
(informacoeseservicos.lisboa.pt)

Incerto seria eu pensar estar no Brasil. Porém, lá veio ele, que andara a borboletear defronte de cada mesa, pondo-se a conversar animado com todos os hóspedes: uma lufada de calor humano na manhã cinzenta, sorriso constante, uma graça de pessoa. Intuiu logo, com a minha primeira frase, que eu seria brasileiro e apresentou-se: “Muito prazer! Chamo-me Nelson Gonçalves, como o vosso cantor!” Ora, o homónimo dele, o cantor brasileiro, era um tipo de pouco humor, exalava um aspeto sofredor, disse-lhe. E emendei: “Não condiz com a sua tão alegre pessoa!” Ele não titubeou: “Vês? Estou a corrigir a impressão que ele deixou!” E lá se foi borboletear na mesa de uns orientais. É raro ver orientais a sorrir. Contudo, ele prontamente amealhou os sorrisos daquela gente. Mais que um atendedor de mesa é um entretenedor.

Observo o monumento: o Marquês não se encontra só. Há uma figura feminina voltada para a Baixa, a alegoria, decerto, representa a cidade reconstruída após o terramoto de 1755. Todavia, a peça é mais recente, data de 1934. A estátua de Minerva, a ter uma universidade por detrás, com certeza, contempla a reforma do ensino. Eureka!? E quem ou o que mais há? Uma nau, que parece estar a simbolizar a aventura marítima portuguesa. Quiçá, está a valorizar a Marinha mais recente, pode ser.  Um boi, uma mulher com um cesto de uvas e um homem com um arado trazem o país para dentro, valoriza a terra, a agricultura.

(davatudoparaestaraquioutravez.wordpress.com)

E a alegoria, no seu todo, tem à frente um leão sem fúria que representa a força de uma nação, dantes um reino que veio a ter os privilégios da nobreza contidos por um marquês igualmente irado com a Cúria. A nobreza nunca foi forte. Era preguiçosa e indolentemente procrastinadora, queria era permanecer na sua zona de conforto. Conta-se que, após o terramoto, o rei Dom José perguntou ao marquês: “E agora o que fazer?” Ao que este replicou: “Enterrar os mortos e alimentar os vivos!”

O nobre era um homem de ação: redesenhou Lisboa, expulsou os jesuítas, acabou com a escravatura e com os autos de fé, era genioso e determinado. Um português voltado para Portugal, para que o país estivesse no centro do Mundo. Tal e qual é a sua posição estatuária encontrável, hoje, em Lisboa.  Entre os seus desígnios, assinou um decreto de que o Português teria de ser a língua oficial nas antigas colónias. Aspirou fortalecer assim o controlo da Coroa nos seus domínios. Havia que se apagar idiomas, dialectos entre os quais África e Brasil estavam repletos.

(davatudoparaestaraquioutravez.wordpress.com)

Volto à receção do hotel. A conversar, muito à vontade, com a empregada (ou rececionista) curitibana, os demais funcionários são portugueses, mais calados por natureza. Nisto chegam duas senhoras brasileiras (na verdade, o Hotel Fénix – que, atualmente, são três, numa sequência que acompanha a rotatória desde os tempos idos da Varig – era o utilizado pela tripulação. E, assim, por conseguinte, dado o seu requinte, era o favorito dos passageiros abonados que evitavam o burburinho da Baixa e as altitudes do Bairro Alto; e que tinham no Parque Eduardo VII um “jardim das delícias”, porque estariam próximos da Avenida da Liberdade, não circunscritos aos contratempos dos movimentos urbanos.

Vista do Parque Eduardo VII, em Lisboa. (livetheworld.com)

Hoje, há sítios e hotéis com mais status. Elas aproximam-se do balcão e exibem um sotaque interiorano paulistano, o “R” retroflexo que também é conhecido como “R caipira” soa-me familiar (morei em São José dos Campos). No entanto, parece um desafio, um desdém ao Marquês de Pombal, hirto lá fora. Trata-se de um símbolo inequívoco de pertencimento, de autenticidade cultural. Eu muito o aprecio. Todavia, houve um tempo em que não foi bem-quisto, ocorre que denotava uma fala rural, associada à falta de instrução e a algum atraso. Fora banido das grandes cidades do Estado, em prol de uma afirmação ou busca de prestígios, ligado a progresso e a boa instrução.

(facebook.com/CulturaPaulistania)

Era curioso estar a ouvir ali, tão próximas da Praça Marquês de Pombal, em Lisboa, a sonoridade residual de uma língua impedida de prosseguir ativa, aquela de base tupi, como aconteceu com as mais de mil línguas caladas pelo Marquês a reverberar ingenuamente no ambiente. As senhoras, provavelmente, nem sabiam o que estavam a fazer ao falar aquele residual tupi. O “R” retroflexo foi um processo de adaptação articulatória imposto ao povo brasileiro, é em si uma mestiçagem que compreende o vocabulário e a gramática levada a cabo pelos Portugueses, com o esforço de adaptabilidade à regra pombalina, oriundo dos interiores onde havia índios.

Distribuição dos grupos indígenas na costa do Brasil, no século XVI. Em amarelo, os do grupo tupi. (pt.wikipedia.org)

O índio não conseguia assimilar um outro “R” ao seu, a sonoridade das línguas dos índios é muito diferente do “R” europeu, lembra um canto de um pássaro. Subi com as senhoras pelo elevador a ouvir os seus trinados com um silente agrado e depois voltei à rua para ouvir e praticar o idioma oficial designado pelo Marquês. Não pude deixar de notar que o pombal que por ali grassava cedeu-lhe um pombo que pousou justo sobre a sua cabeça, ave que também pia com um “R” renitente.

No passeio, não vi portugueses. Os bancos para assentar estavam vazios de nativos devido ao frio. Fui abordado por norte-americanos a quererem um cigarro; por jovens francesas a quererem saber qual seria o caminho para o Rossio… Ao querer poupar o meu cérebro de ocupar-se com outros idiomas, fui lacónico, acenei: “Avant!” Um alemão apressado a querer abrir caminho e a atravessar minha flânerie (ou passeata) gorjeou: “Entschuldigen Sie, bitte!” E havia escandinavos, japoneses, italianos, gentes outras menos os portugueses. Assim como nos prédios se via as grifes ou marcas de luxo estrangeiras com montras a exibirem artigos impeditivos de os portugueses os comprarem. As fachadas deveras lisboetas, restauradas, elegantes. Um impressionante contraste com a simplicidade lusitana que, noutras décadas, por ali teria encontrado. Eu estava à toa numa nova Lisboa, fadado a, simplesmente, passar defronte de outros mundos.

Avenida da Liberdade, em Lisboa. (dicadeportugal.com)
 (jf-estrela.pt)

Por fim, sentei-me num banco. Logo, se sentou ao meu lado um senhor paramentado, num vestuário desportivo, à guisa de poder descansar ligeiramente da sua “performance”. Disse-lhe que se sentisse à vontade. De imediato, disse-me: “Você é mineiro, como eu.” Coisa de sotaque, só o brasileiro sabe perceber a origem do outro, mesmo numa frase curta. Apresentou-se sendo belorizontino, arguiu-me de onde eu vinha, afirmei ser de Juiz de Fora. Um tanto hesitante, porque a sua gente não aprecia muito a “nossa carioquice”, mas ele surpreendeu-me, estava a acompanhar todo o noticiário sobre as inundações que ocorreram na cidade.

Deu-me notícias atualizadas de tudo o que se estava a passar na minha cidade de origem. Ele tinha um sotaque mineiríssimo, desses que todo brasileiro percebe  ser mineiro, inclusive utilizava o “Uai!”. Já eu não tanto, até porque, depois de estar a conversar com portugueses e a ponderar com eles as minhas raízes, a minha inclinação em sentir-me português já estava a pensar internamente num português autêntico, europeu, nada afeito a gerúndios. Na verdade, eu não queria estar a pensar em Português brasileiro, daí despedi-me dele e voltei para o hotel, desta vez a conversar com o valete (ou camareiro) e a arrumadeira, que estranhamente eram portugueses, num universo constante de estrangeiros.

Encontrava-me na minha mais do que plena portuguesice existencial e
linguística, o que deverá ter agradado ao Marquês de Pombal.
(© Lúcio Marques Ferreira)

Senti-me em casa, voltou-me a alegria interior iniciada pela manhã naquela conversa com o feliz Nelson Gonçalves, português. Uma coisa é enternecer-se com o “R” paulista, tupi restante no Português brasileiro, com a simpatia de uma atendente (ou rececionista) curitibana, ou com a disponibilidade noticiosa de um mineiro a serem referencias. Outra coisa é enfrentar o facto de que o Brasil era-me inteiramente distante, porque me encontrava na minha mais do que plena portuguesice existencial e linguística, o que deverá ter agradado ao Marquês de Pombal. 

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30/03/2026

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Lúcio Marques Ferreira

Lúcio Marques Ferreira Filho é um brasileiro com ascendência portuguesa. Nas suas próprias palavras, “herdou do pai não apenas o nome, mas também uma inusitada situação cultural e idiomática: soa excessivamente português para ser brasileiro e excessivamente brasileiro para ser português”. Escritor tardio, publicou aos cinquenta anos o livro de contos “Êxodos, Encontros e Desencontros” (Funalfa Edições, em 2004), a que se seguiu o livro de crónicas “Cidades Visíveis” (Martyria, em 2021). A obra “Cá entre Nós” é o seu primeiro romance (Imprensa Nacional Casa da Moeda, em 2025). Com a rubrica “Flanar é preciso!”, Lúcio Marques Ferreira assume-se como “um marinheiro que estará a contar estórias, aportando com bandeiras filosóficas, sociológicas, antropológicas e identitárias, que não foram deixadas de lado no mastro da nau”.

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