Migalhas de solidariedade

 Migalhas de solidariedade

(Créditos fotográficos: Eugene Kucheruk – Unsplash)

Era uma só formiga que trazia nas antenas 100 vezes o seu peso em bondade, apesar de ser uma migalha que sobrara da trituração de uma carcaça desmembrada por 100 leões implacáveis. Outras formigas traziam iguais migalhas de generosidade, de solidariedade, de compaixão.

Naboisho, Narok, no Quénia. (Créditos fotográficos: Meg von Haartman – Unsplash)

Os leões refastelados adormeceram e foi mesmo por cima deles que o formigueiro formou o carreiro. Era pouco, muito pouco o que levaram todas e cada uma delas. Mas, à noite, à lareira, dormiram mais tranquilas, enquanto o excesso de alimento provocara cólicas na alcateia leonina ao luar.

Nos dias seguintes, nada mudaria. Também não mudaria o sono tranquilo das formigas nem o sono agitado dos felinos. É muito pouco. Nada muda. Mas não muda também a paciência consciente daqueles insectos. Já não é mau. É um consolo.

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02/04/2026

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Jorge Castro Guedes

Com a actividade profissional essencialmente centrada no teatro, ao longo de mais de 50 anos – tendo dirigido mais de mil intérpretes em mais de cem encenações –, repartiu a sua intervenção, profissional e social, por outros mundos: da publicidade à escrita de artigos de opinião, curioso do Ser(-se) Humano com a capacidade de se espantar como em criança. Se, outrora, se deixou tentar pela miragem de indicar caminhos, na maturidade, que só se conquista em idade avançada, o seu desejo restringe-se a partilhar espírito, coração e palavras. Pessimista por cepticismo, cínico interior em relação às suas convicções, mesmo assim, esforça-se por acreditar que a Humanidade sobreviverá enquanto razão de encontro fraterno e bom. Mesmo que possa verificar que as distopias vencem as utopias, recusa-se a deixar que o matem por dentro e que o calem para fora; mesmo que dela só fique o imaginário. Os heróis que viu em menino, por mais longe que esteja desses ideais e ilusões que, noutras partes, se transformaram em pesadelos, impõem-lhe um dever ético, a que chama “serviços mínimos”. Nasceu no Porto em 1954, tem vivido espalhado pelo Mundo: umas vezes “residencialmente”, outras “em viagem”. Tem convicções arreigadas, mas não é dogmático. Porém, se tiver de escolher, no plano das ideias, recusa mais depressa os “pragma” de justificação para a amoralidade do egoísmo e da indiferença do que os “dogma” de bússola ética.

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