Dinamarca alerta contra a IA
(Créditos de imagem: Vitaly Gariev – Unsplash)
Seria muito bom que, em todos os países, se lutasse contra o uso abusivo da Inteligência Artificial (IA), como está a acontecer na Dinamarca. Notícias recentes dão conta de que este país está a liderar as propostas de regulamentação do uso da IA e que há um projecto nesse sentido que vai entrar em vigor este próximo ano lectivo. O trabalho do ministério da Educação dinamarquês merece destaque. Por isso, anunciou recentemente regras muito rígidas que podem permitir combater as fraudes académicas dos estudantes a partir dos 16 anos.

Uma das estratégias principais passa por obrigar os estudantes a defenderem oralmente os seus trabalhos. Além disso, há mais incentivos à escrita controlada na sala de aulas, assim como o bloqueio de ferramentas não autorizadas nos computadores. A medida mais importante é aquela que prevê que os chamados trabalhos de casa, entre nós designados por TPC, sejam obrigatoriamente realizados na escola. Ainda muito importante é também a medida que prevê usar firewall (parede de fogo), ou seja, um sistema de segurança de rede que funciona como uma barreira de proteção, durante a realização dos testes escritos.

(en.wikipedia.org)
Em comunicado, Magnus Heunicke, ministro da Educação dinamarquês, terá declarado que, “infelizmente, temos um problema com a fraude em testes com inteligência artificial no ensino secundário”. Assim advoga: “É preciso agir agora, e estamos a começar com estas três iniciativas. Em breve, vou falar com escolas, professores e alunos sobre o que pode ser feito a curto e a longo prazo para garantir que a IA não prejudique as competências, o profissionalismo e, principalmente, a capacidade de pensamento crítico dos alunos.” Achamos relevante a pretensão do ministro dinamarquês de que a IA não possa prejudicar o pensamento crítico dos alunos.
Porém, não deixa de ser curioso que esta medida possa dividir os estudantes! Enquanto alguns aceitam a ideia como boa, outros pensam que a medida os obrigará a passarem mais tempo na escola e, portanto, isso não lhes agrada.

Este debate sobra a IA está na ordem do dia em todo o planeta. Dados recentes apontam para o facto de 72% dos países do Mundo já terem tomado medidas de prevenção contra a IA. No entanto, a Dinamarca tem dado particular atenção a este tema. Já no ano passado, este país usou uma experiência que permitiu aos alunos utilizarem IA durante as provas orais de Inglês no ensino secundário.
Outros países europeus revelam idênticas preocupações, como é o caso da Noruega, que impôs uma proibição quase total do uso de IA generativa por alunos do ensino básico e restringiu, igualmente, a sua utilização no ensino dos alunos mais velhas.
Segundo um estudo do Eurobarómetro, mais de metade dos inquiridos na Europa, cerca de 54%, reconhece que a IA traz benefícios e desafios para o ensino e para a aprendizagem; pelo que se defende que estes devem ser explorados e avaliados mais aprofundadamente. Todavia, apenas 22% considera que a IA não tem lugar na sala de aula.

Esta elevada percentagem de defensores da IA nas salas de aula não pode surpreender. Muitas são as razões invocadas. Alguns referem que o uso da IA na sala de aulas vai incentivar mais a interacção entre todos, salientando que a esta vai ser o ponto central da escola do futuro, que se pretende cada vez mais interligada e globalizada, preconizando a partilha de conteúdos e a exploração de experiências que promovam o conhecimento.
Outros referem que a IA pode enriquecer as aulas com autênticas viagens. Têm razão neste aspecto, porque, por exemplo, numa aula de História, professores e alunos podem abordar, entre outros temas pedagógicos, a Antiguidade Clássica, visitando as principais cidades do Mundo Greco-Latino. Outros alegam que este recurso à tecnologia permite mais facilmente partilhar apontamentos, documentos, imagens e outros materiais, promovendo competências essenciais na realização dos trabalhos de grupo. Há ainda quem saliente que este uso da IA faz do aluno mais protagonista do seu processo de aprendizagem.

Tudo isto pode ser muito importante. E, certamente, não o podemos esquecer em Portugal. Mas há um dado a considerar: os equipamentos nas escolas. No recente caso da pandemia de covid-19, pudemos constatar que, no nosso país, as escolas não tinham todas o mesmo nível de equipamento e que, sobretudo, muitos alunos e alunas não tinham em casa as ferramentas adequadas para acompanhar o processo.

Talvez, em boa verdade, possamos dizer que, por si só, a IA não é boa nem é ruim. Depende é do uso que dela se faça. Pode trazer muitas vantagens certamente, mas também muitos perigos.
Consideremos a questão ética. Todos sabemos que os textos não são produzidos pela IA, uma vez que esta se aproveita de milhares de dados produzidos por muitas pessoas e, frequentemente, apaga a origem desses dados, inclusive. Isto é eticamente reprovável.
Outro problema é o da distorção das informações ou da desinformação. O banco de dados disponível é de tal ordem que não conseguimos filtrar o que é verídico ou falso.
Não termos dúvidas, a IA entrou com força na sala de aula, mas, muitas vezes, sem a mediação adequada, sem critérios pedagógicos claros e sem apoio estruturado às escolas e aos docentes. Isso exige, de todos nós, profissionais e defensores da Educação, um nível de responsabilidade ainda maior do que o entusiasmo. O entusiasmo é importante, mas não é suficiente.

Que fique clara a nossa posição: a IA não pode substituir os docentes, transformando o processo de ensino e de aprendizagem numa experiência puramente digital. Hoje, os sistemas de IA já conseguem realizar parte das tarefas cognitivas e operacionais antes concentradas nos docentes. Contudo, a Educação não é apenas resposta, é também repetição ou eficiência. O centro da docência tem de continuar a ser algo dificilmente automatizável, porque tem de continuar a ser o julgamento pedagógico sobre o desenvolvimento humano, social e intelectual de cada estudante.
Como escreveu José Afonso Baptista na sua obra “Dogmas e Fantasmas da Escola”, que já aqui apresentei em artigo anterior: “A IA pode libertar, mas também pode aprisionar. Pode cuidar, mas também pode controlar. Pode ensinar, mas talvez nunca consiga amar.”
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13/08/2026