Os dogmas e os fantasmas da escola

 Os dogmas e os fantasmas da escola

Os objectivos deste livro, apresentado na ESEC, são muito claros: confrontar “os dois paradigmas que disputam a escola na transição do milénio”. (facebook.com/esec.coimbra)

Este artigo pretende ser uma justa e merecida homenagem ao professor e pedagogo José Afonso Baptista1, que acabou de publicar uma obra que todos deviam ler, sobretudo os  decisores políticos, os educadores e os pais. Tal obra chama-se “Dogmas e Fantasmas da Escola. Paradigmas Pedagógicos em Conflito” e foi editada pela Lisbon International Press, em 2026.

Para Rui Antunes, anterior presidente da ESEC2, é importante que cada um de nós pense na escola que queremos e no que temos de fazer para a escola continuar a ser um lugar de esperança. (facebook.com/esec.coimbra)

Tive o privilégio de ser um dos primeiros leitores do livro, antes da sua apresentação, a 19 de Fevereiro de 2026, na Escola Superior de Educação de Coimbra (ESEC). De acordo com o autor, a obra só poderia ser apresentada neste espaço, pois, segundo ele, a ESEC é, hoje, a escola que melhor acolhe a formação de professores.

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Como perguntou Rui Antunes, anterior presidente da ESEC2, no início da sessão, é importante que cada um de nós pense na escola que queremos e no que temos de fazer para a escola continuar a ser um lugar de esperança. E este parece ser também o mote da obra de José Afonso, que descobrimos logo no respectivo prefácio, onde ele declara que “o futuro não é o que vem depois”. Ou seja, “é o que pulsa no coração do presente”. No texto do prefácio, ficamos a saber que o narrador da obra, que se lê como se fosse um romance, é o Afonso, uma personagem que atravessou décadas de escola como professor, como aluno, como director regional de Educação e ainda como formador de professores, com um marcante percurso de vida, a nível nacional e internacional, e que muitos certamente conhecem e admiram.

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Os objectivos deste livro são muito claros: confrontar “os dois paradigmas que disputam a escola na transição do milénio”. Temos, aqui, a óbvia referência ao paradigma do século XX, “herdeiro da tradição dos conventos e mosteiros” e que resistiu até ao nosso tempo, contrastando com o paradigma actual (do século XXI), nascido com as novas transformações sociais, políticas e tecnológicas em curso e que exige uma nova escola.

Ao longo da obra, Afonso – o narrador – observa as práticas dos últimos 80 anos, os seus avanços e recuos, os seus sucessos e os seus fracassos. E vai destacar os maiores dogmas da escola:

  • o dogma da lição magistral, da pedagogia ainda dominante e “centrada na transmissão vertical do saber”;
  • o dogma do programa e dos currículos rígidos e uniformes, em que “todos os alunos devem aprender os mesmos conteúdos, ao mesmo ritmo, com os mesmos critérios”, e em que a diversidade não é bem acolhida;
  • o dogma do funil  que foi inventado para seleccionar e para excluir e em que “os que não se adaptam ao molde são rotulados como fracassados”;
  • o dogma dos exames,  centrados em “provas padronizadas” e que tem por detrás de si uma “indústria poderosa” e em que “o sucesso escolar é medido por critérios estreitos que ignoram o potencial de cada  aluno”;
  • o dogma da obediência, que valoriza mais a disciplina do que a autonomia e em que “a cidadania crítica é substituída pela conformidade”; e
  • o dogma da neutralidade, que apresenta a escola como neutra, mas, afinal, ela reproduz a ideologia dominante, como Paulo Freire já nos tinha avisado.
Paulo Freire (Direitos reservados)

Segundo o autor, “romper com os dogmas da escola exige muito mais que reformas administrativas” e, por isso, torna-se urgente “repensar profundamente o papel da educação na sociedade, valorizando a diversidade, a criatividade, a autonomia  e a justiça social”, porque a escola do século XXI deve ser um espaço de emancipação e não de reprodução.

José Afonso Baptista (Direitos reservados)

Quanto aos fantasmas, estes permanecem na escola, porque sucessivos governos, ao longo de décadas, ainda não perceberam que a responsabilidade da educação é de todos. “E uma escola que não educa não serve para nada”, observa José Afonso Baptista. Até hoje, defende o autor, “Portugal é pobre porque nunca teve ninguém com consciência, honestidade e lucidez para ver que ninguém colhe sem semear”.

José Afonso Baptista refere-se também aos professores despromovidos, incapacitados e exaustos, sobrecarregados de burocracias, com vontade de abandonar a escola, bem como às frustrações e doenças dos alunos e ao fenómeno “nem-nem”. Mas, sobretudo, um Estado “incapaz de reconhecer a educação como motor de crescimento e que alimenta uma emigração qualificada e respostas migratórias que nem sempre correspondem às necessidades do país”.

Muito diferente do dia a dia dos miúdos de hoje, houve um tempo em que ir à escola era um privilégio e… podia ser um martírio. (ensina.rtp.pt)

A  obra é composta por duas partes. A primeira parte intitula-se “A  Profissão de Aluno”. E a segunda parte “A Profissão de Professor”.

A primeira parte tem quatro capítulos em que José Afonso Baptista recorda o que considera ter sido, verdadeiramente, o seu Pré-Escolar, enquanto criança educada nas lides do campo, a que chamou a “Forest School”3 de Vale Sande e onde viveu e cresceu em liberdade. Afonso aprendeu com o pai tudo o que diz respeito à Natureza, às plantas, hortas e culturas, aos animais. Subiu às árvores, nadou nas ribeiras, fez todas as descobertas possíveis. Quando chegou à escola “já levava anos de uma profissão longamente vivida, com a consciência de que o trabalho é o sustento da vida”. E conclui que foram essas vivências rurais, agrícolas, traduzidas em acções, palavras e pensamentos, em raciocínios, que “deram ao seu cérebro uma dimensão e um potencial de confiança que se traduz em saber viver”. Conclui também, sabiamente, que, apesar de não ter frequentado creche nem jardim de infância, cresceu  num ambiente que lhe proporcionou desenvolvimento na plano da linguagem, crescimento físico e mental, crescimento no plano das relações sociais, dos afectos, da cultura do povo e do campo. O mais importante é que ganhou consciência plena do trabalho e, por experiência própria, entendeu que o trabalho compensa; e que tudo o que temos é fruto do nosso esforço.

(clourdes.pt)

Depois, recorda o seu Ensino Primário, em que a escola era espaço de trabalho, de estudo, de brincadeira, de convívio, num tempo em que não era preciso estudar em casa. Uma escola de pleno sucesso, de onde saíram alunos que fizeram os seus cursos de liceu e os cursos superiores, graças às ferramentas adquiridas com professores briosos, que incutiam os  valores da responsabilidade e do trabalho.

Segundo ele, era uma escola que, “apesar da sua simplicidade, alcançava níveis de sucesso que hoje parecem difíceis de alcançar”, porque era uma escola total, onde o tempo se vivia com sentido, onde o ensino se entrelaçava com a vida e onde professores fixos mantinham uma relação próxima com os alunos e as suas famílias. Uma escola onde “o professor não era um viajante apressado, mas uma presença constante”. Nesse tempo, “a escola era um espaço de construção do saber, não apenas de transmissão”. Por isso, o desafio é claro: “É preciso recuperar os factores de qualidade que se perderam – a estabilidade, o vínculo, a autonomia, a exigência.” Mas sem a tentação de cair no passado, “porque a escola de hoje não pode ser a de ontem, mas pode aprender com ela”.

(clourdes.pt)

Refere, igualmente, o seu percurso no Ensino  Secundário, no Liceu de Castelo Branco, onde conheceu o ensino misto e os professores de ensino magistral, em que o saber era dogma, mas não diálogo. Fazer perguntas era pecado. Os sermões dos professores eram indiscutíveis. Os chumbos eram expiação dos pecados. Porém, hoje, com a romaria dos “rankings” as coisas pouco mudaram. Recorda bons e maus professores e os seus rituais. Mas observa que “o Liceu foi mais do que as aulas chatas, porque também foi campo de jogos, a descoberta do feminino, a resistência silenciosa e[,] acima de tudo[,] uma escola de vida”. E aprendeu ainda “que a profissão de aluno não se mede por notas nem pelos rankings. “Mede-se pela capacidade de resistir e [de] sobreviver, de aprender com erros, de transformar a dor em memória e a memória em pensamento”, acrescenta.

Fachada do Liceu Nun’ Álvares de Castelo Branco. (projectobame.blogspot.com)

O autor confessa que o desafio de hoje não é apenas superar as carências do passado: “Não basta digitalizar o ensino ou multiplicar disciplinas. É preciso devolver à escola a sua missão: formar cidadãos críticos e criativos e solidários. O Ensino Secundário não pode ser apenas um corredor para exames e estatísticas. Tem de ser um espaço de encontro, de diálogo e de construção do futuro. Só assim deixará de ser o nível mais instável para se tornar o mais transformador.”

Quanto ao Ensino Superior, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC), considera que “não foi um cantinho do céu e muito menos a doçura do paraíso”, mas “foi purgatório e até mesmo inferno”. Reconhece como pobre a qualidade do ensino, em que havia professores que davam lições de cor. Para José Afonso Baptista, a FLUC “pregava Pedagogia[,] mas praticava o Sermão”. Era, a seu ver, uma escola comparável a um “armazém de perfumes caros”, atendendo a que “os exibia, mas não os usava”. Na perspectiva do autor, a FLUC “poderia ter sido um laboratório de práticas educativas transformadoras”, embora tenha escolhido “o caminho mais fácil: perpetuar o sermão”. E foi por isso que “contaminou os liceus e as escolas para onde enviou os seus diplomados”.

Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (Créditos fotográficos: Marta Costa – UC)

A segunda parte da obra  tem  também quatro capítulos. O autor começa por estabelecer o confronto dos dois paradigmas citados. Aí, alude à necessidade da investigação para educar e florescer (entre a dúvida e a felicidade); propõe-nos um algoritmo da esperança, defendendo um Serviço Nacional de Educação e termina dizendo que a escola vive actualmente entre o colapso e a respiração.

No novo paradigma da Escola do século XXI, “o aluno deixa de ser mero ouvinte ou figurante para se tornar actor principal do processo educativo”. Nessa escola, “a aprendizagem significativa acontece quando o conteúdo responde às necessidades e ritmos individuais”. E é necessário que “o trabalho colaborativo”, mais do que uma técnica, se torne uma filosofia que “valoriza o colectivo na construção do saber”. Isso só será possível se os programas escolares forem flexíveis, moldados à trajectória de cada docente.

A educação do futuro “tem de compreender a complexidade do presente”. Tem de entender que “a tecnologia não é apenas acessória, mas base metodológica e conteúdo curricular”. (pt.wikipedia.org)

As metodologias dos docentes têm de partir sempre de problemas reais. É urgente que a sala de aulas seja “um ponto de partida para uma aprendizagem aberta ao mundo”, porque educar é preparar para o mundo real e este não cabe entre quatro paredes. Urge mudar o papel do professor. Este deve deixar de ser um mero transmissor para se tornar um orientador, um inspirador e um facilitador. E, na ausência do professor – uma realidade, infelizmente, cada vez mais próxima –, há que criar “uma rede de apoio composta por tutores, plataformas digitais, bibliotecas e mentores”.

A educação do futuro “tem de compreender a complexidade do presente”. Tem de entender que “a tecnologia não é apenas acessória, mas base metodológica e conteúdo curricular”. Assim, a “escola deve integrar as tecnologias emergentes, incluindo a inteligência artificial”, mas “de forma crítica e produtiva”.

Todavia, o autor acredita que a escola ainda respira, porque, “apesar do colapso, há clareiras que resistem”. Porque acredita que, presentemente, “há espaços onde a autonomia não é decreto, mas decisão que faz sentido”. “Onde se governa para rostos e vidas, não para os rankings. Onde a escola se reconhece como organismo vivo, capaz de se reinventar”, explicita.

A “escola deve integrar as tecnologias emergentes, incluindo a inteligência artificial”, mas “de forma crítica e produtiva”. (assembly.pt)

Tal como o autor, também nós acreditamos que “o papel da educação não será salvar o mundo, mas preparar quem o vai reconstruir”; e que “a escola deve ser sempre um espaço onde cada aluno pode ser solista e cada professor maestro, compondo juntos uma sinfonia de humanidade”. Afinal, “entre a ruína e a semente, a educação é o sopro que sempre insiste em recomeçar”.

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Notas:

1 – José Afonso Baptista é licenciado em Filologia Românica pela Universidade de Coimbra e é doutorado em Ciências da Educação pela Universidade Católica Portuguesa (UCP). Foi professor na UCP, diretor regional da Educação do Centro, consultor da UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) é e diretor da área de Educação da Fundação Bissaya-Barreto. Iniciou o seu caminho como metodólogo no Liceu Normal D. João III, em Coimbra. Conheceu por dentro inúmeras escolas de norte a sul do país, em vários países da Europa e nos países africanos de língua portuguesa. A sua escrita – em livros e artigos – interroga a inclusão, a cultura escolar e os seus paradoxos, procurando dar voz aos que raramente são escutados. “Dogmas e Fantasmas da Escola” nasce dessa inquietação que o acompanha há décadas.

2 – Refira-se que Ricardo Rodrigues foi eleito presidente da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Coimbra (ESEC-IPC) para o mandato 2026-2030, em eleições realizadas em Março de 2026.

3 – Conceito nascido na Escandinávia, nos anos 90. Nos países nórdicos, é corrente as crianças passarem muitas dias nas florestas em actividades de contacto com a Natureza, considerando que se aprende melhor em meio aberto do que em meio fechado.

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19/03/2026

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José Vieira Lourenço

José Vieira Lourenço é da colheita de Agosto de 1952. Estudou Teologia e fez a licenciatura e o mestrado em Filosofia Contemporânea, na Universidade de Coimbra. Professor aposentado do Ensino Secundário, ensinou Português, Filosofia, Psicologia, Sociologia, Teatro e Oficina de Expressão Dramática. Foi, igualmente, professor do Ensino Superior, na Universidade Católica de Leiria e no Instituto Superior Miguel Torga, em Coimbra. Foi ainda coordenador do Centro da Área Educativa de Coimbra (1998-2002) e só então conheceu verdadeiramente a classe docente. Descobriu bem cedo a sua paixão pela poesia, pela literatura, pela música e pelo Teatro. Foi Menino Jesus aos quatro meses no presépio vivo da sua freguesia. Hoje, como voluntário, dirige o Grupo de Teatro O Rebuliço da Associação Cavalo Azul e também o Grupo de Teatro de Assafarge. Canta no Coro D. Pedro de Cristo, em Coimbra. Apaixonado pela Natureza, gosta de passear a pé pelos trilhos da Abrunheira, na companhia do seu cão. Dedicado às causas da cidadania, é dirigente do Movimento Cidadãos por Coimbra, que insiste em fazer propostas para criar uma cidade diferente. Casado, tem duas filhas e uma neta, a quem gosta de contar histórias.

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