Abril/Maio…

 Abril/Maio…

Baseado em factos reais, “Revolução (Sem) Sangue” conta a história de quatro jovens que seguem as suas rotinas diárias num regime ditatorial. (cinematrindade.pt)

Passámos de Abril para Maio quase sem darmos conta disso, tal é a vertigem dos nossos tempos, entre as muitas guerras – o conflito do Médio Oriente, o estreito de Ormuz, a guerra da Ucrânia – e os disparates cada vez mais frequentes de Donald Trump, que se julga ser o rei do Mundo!

Maio é sempre bonito, pois guarda em si duas grandes festividades: o 1.º de Maio (Dia do Trabalhador); e para os filhos que amam e continuam a amar as suas mães, o Dia da Mãe. Com certeza, houve, nas escolas, nas escolinhas, nos jardins de infância, professores, aplicados como sempre, a inventar cartões e lembranças para as mães. Se as mães são as heroínas desse destino, também o são os professores que lutam por preservar dignamente estas datas de celebração.

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Ainda em Abril

Em Abril, foi estreado o filme “Mulheres de Abril”, de Raquel Freire, no âmbito do IndieLisboa 2026 – Festival Internacional de Cinema. Seguindo a informação da própria produção, lemos: “Mulheres de Abril é um filme que celebra a multitude de mulheres revolucionárias: as mães da nossa democracia. Através da voz, do olhar, do silêncio, da acção de cada uma destas mulheres, conhecemos a riqueza das experiências vividas, que, juntas, nos dão um legado de confiança, justiça, perseverança, respeito e liberdade. São mulheres que venceram o fascismo, o colonialismo, as desigualdades sociais em Portugal e nos territórios africanos ocupados e transformaram o mundo à sua volta.”

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Na noite de 24 para 25 de Abril, a RTP voltou a transmitir o filme português “Revolução (Sem) Sangue”. A história de quatro jovens aos quais, embora não se conhecessem, o dia 25 de Abril de 1974 lhes trouxe um destino comum. O dia que mudou o rumo do país ditou também o fim das suas vidas. Filme de Rui Pedro Sousa, baseado em factos reais, acompanha as vidas, sonhos e inquietações de quatro jovens nos últimos dias do regime ditatorial. Com origens e motivações diferentes, o dia 25 de Abril de 1974 trouxe-lhes, de facto, um destino comum que ditou também o fim precoce das suas vidas, como informa a RTP.

Assinalo este filme, destacando a interpretação de uma jovem actriz que conheço desde a sua infância, Teresa Viera. É uma actriz que tem construído uma carreira exemplar, independente de qualquer companhia, destacando-se na interpretação e na produção cinematográfica em diferentes tarefas.

De 21 a 26 de Abril, decorreu, no Batalha Centro de Cinema (BCC), o Porto Femme – Festival Internacional de Cinema, no regresso para uma nova edição.

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A temática desta 9.ª edição centrou-se no trabalho, propondo uma reflexão sobre desigualdades, condições laborais e diferentes formas de trabalho, visíveis e invisíveis, que atravessam a vida social, cultural e artística.

Foi também proposto um olhar especial sobre as pioneiras do cinema português, estabelecendo um diálogo entre o passado e o presente. Assisti à exibição ou “première” do filme “Eu Queria Ser Tudo”, de Luísa Pinto. Cito a continuação do texto de Miguel Carvalho: ”[…] os prolongados aplausos no final são a legenda perfeita para o que se viu. As histórias do Hospital (psiquiátrico) Colônia de Barbacena não são apenas o retrato de um Brasil que já não existe, felizmente. São também as histórias de um tempo de desumanização, perseguição e silenciamento que parecem estar de regresso em vários locais do mundo, enquanto se tenta apagar ou reescrever o passado e negar o direito das vítimas à memória. […] Naquele hospital foram, durante décadas, internadas mulheres violadas, abandonadas pelos homens que não as queriam depois de grávidas, atiradas para ali como lixo por famílias que não respeitavam a diferença […] Também lá foram parar outras mulheres e homens sem qualquer problema psiquiátrico, mas porque fugiam da norma social e política e era preciso ‘limpar’ a sociedade remetendo-os à invisibilidade e a torturas industriais. Quando alguém ia para Barbacena era para morrer. Por isso lhe chamaram ‘Holocausto brasileiro’. Deu um livro e um documentário.”

Filme “Noite e Neblina”, de Alain Resnais. (lecinematographe.com)
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Luísa Pinto, numa emotiva locução no filme, lembra o texto de Jean Cayrol para o filme “Nuit et Brouillard”, dirigido por Alain Resnais: “Mesmo uma paisagem tranquila, mesmo um prado com corvos a voar, as ceifas e as queimadas, mesmo uma estrada onde os carros passam, os camponeses, os casais, mesmo uma aldeia para passar as férias com um mercado e um campanário podem levar simplesmente a um campo de concentração. O sangue coalhou, as bocas calaram-se, os blocos só são visitados por uma câmara de filmar. uma erva bizarra nasceu e cobriu a terra pisada pelos concentracionários. a corrente já não passa nos fios elétricos. passos, só os nossos.”

Numa entrevista para o jornal Público, Regina Guimarães declarou: “Continuar é-me absolutamente fundamental.” Autora de uma obra que atravessa décadas e géneros, escreve contra a ideia de conclusão. Recusa um lugar na margem. Como informava a jornalista Isabel Lucas, Regina Guimarães seria  homenageada a 9 de Maio, no Porto. A casa e a criança são temas centrais na sua obra, onde se cruza a sua poesia.

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Sentada diante de um computador, rodeada de livros, de quadros e de muitos objectos de todas as vidas que alimentaram esta entrevista em vésperas do lançamento de um novo livro, “Caderno das Clareiras” (editora Exclamação), e de uma homenagem a alguém cujo percurso resiste a um alinhamento simples.  Regina Guimarães está entre a poesia e o teatro, a tradução e a escrita original, o filme e o ensino, muitas vezes, em regime de colaboração.

Na mesma edição do Público, surpreende-.me ainda uma fotografia de dois pequenos bordados de Regina Guimarães. Sou um admirador da sua obra. Enquanto esperamos na entrada do Teatro Nacional São João, ela borda. Comentei, numa ocasião, que os seus bordados me lembram os de Violeta Parra. Ela concordou, continuando como uma Penélope fiel à sua laboriosa e bela obra. Parabéns, Regina!

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14/05/2025

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Roberto Merino

Roberto Merino Mercado nasceu no ano de 1952, em Concepción, província do Chile. Estudou Matemática na universidade local, mas tem-se dedicado ao teatro, desde a infância. Depois do Golpe Militar no Chile, exilou-se no estrangeiro. Inicialmente, na então República Federal Alemã (RFA) e, a partir de 1975, na cidade do Porto (Portugal). Dirigiu artisticamente o Teatro Experimental do Porto (TEP) até 1978, voltando em mais duas ocasiões a essa companhia profissional. Posteriormente, trabalhou nos Serviços Culturais da Câmara Municipal do Funchal e com o Grupo de Teatro Experimental do Funchal. Desde 1982, dirige o Curso Superior de Teatro da Escola Superior Artística do Porto. Colabora também como docente na Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti, desde 1991. E foi professor da Balleteatro Escola Profissional durante três décadas. Como dramaturgo e encenador profissional, trabalhou no TEP, no Seiva Trupe, no Teatro Art´Imagem, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (UP) e na Faculdade de Direito da UP, entre outros palcos.

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