Viva o Paraguai!
Rio Paraguai. (Créditos fotográficos: Andi – Pixabay)
Há lugares, assim como há pessoas, que nada oferecem. Especulam a sua sede e em seguida afastam o copo. Desconfie sempre daquilo ou de quem não é modesto. Não são sinceros. O Mundo está cheio de insinceridade disfarçada de sofisticadas boas-vindas. O Paraguai nada promete. À chegada, não especula o visitante, acolhe-o, compartilha o seu grande rio, dá-lhe de beber da sua água, apresenta-se com uma surpreendente modéstia. A sua simplicidade tem uma boa intenção, posto que não burla nem decepciona.

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Eu vi o Mundo e posso dizer que nenhum outro lugar e nenhuma outra gente me terão impressionado tanto, porque abraçam a ternura como princípio, inteiro, intacto, atuante.
A 14 de maio, a nação comemora a sua independência, obtida pacificamente em 1811. Jovens idealistas asseguraram a sua autonomia tanto de Espanha quanto das tentativas argentinas de anexações territoriais. A princípio, a soberania da sua identidade dependeria de uma imersão isolacionista. Porém, o rio Paraguai (que significa “grande rio”, em Guarani) nasce rio Apa, no Brasil, e encontra o rio Paraná, na Argentina. Ainda que seja o seu rio a alma do país a atravessá-lo, a sua vocação é relacional. O rio incita o convívio, sobretudo onde não há mar.
Se, por um lado, há fronteiras nas margens, no Paraguai o seu rio é solo, é um não limite. É ainda o factor de integração étnica, cultural, identitária que dá nome ao país.


monumento localizado em Assunção, capital do Paraguai.
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Um certo dia, um tal de Solano Lopez, ávido de levar o seu país a ter mar, colocou a sua gente numa grande encrenca. A Guerra do Paraguai com os seus vizinhos dizimou 60% da população e, ao invés de aumentar o território, perdeu-se terras. No Panteão dos Heróis, em Assunção, há um túmulo que homenageia o “soldado desconhecido”. Não há, ali, nenhum corpo. Contudo, 300 mil soldados mortos encontram-se simbolicamente a descansarem.
O Paraguai teve uma série de ditadores no seu percurso histórico, quem quiser conhecer um, através das letras, deve ler “Eu, o Supremo”, da autoria de Augusto Roas Bastos. É um livro sobre a soberba de um tal Rodriguez de Francia, escrito no exílio, uma vez que o escritor, ao viver na Europa, escapava de outro ditador, o então presidente Alfredo Strossner. Os rudes no poder nunca representaram esse povo, foram acidentes de percurso.

Diferentemente dos demais países latino-americanos, que tiveram os seus povos originários extintos, assim como as suas línguas, neste terreno, o indígena manteve a sua identidade e o seu idioma preservados. Todo o país é capaz de se expressar em Guarani. Isso se explica porque a implantação das missões, idealizada como bloqueio espanhol ao expansionismo lusitano, teve o apoio dos nativos. Com o tempo, veio a formar-se uma sociedade alternativa ao colonialismo. A terra – como acervo identitário não subalterno – passou a ser uma propriedade insigne do povo indígena. O catequisado era animista, o seu sagrado estava na Natureza visível. O catequizador teve de se adaptar ao “anima” local e essa junção gerou um imenso gosto pelos afetos.

Naquelas terras, não havia órgãos para as igrejas, os religiosos ensinaram os nativos a fazerem e a tocarem harpas. Nascia assim o som divino da harpa paraguaia. O convívio de nativos e de não nativos em harmonia. Não fossem os gaúchos dos Pampas e os bandeirantes invadirem as missões e a fazerem dos terrenos afetivos estancias privadas, latifúndios usurários, a experiencia comunitária teria prosseguido.

Todavia, a guaranização presente nas ruínas cristãs ainda atesta o que resta daquelas somas de afetos. Assim, como no Chaco, há uma coesão comunitária num solo vazio de rios. Contudo, produtivo, expressa num assentamento maronita.

Gente que veio dos confins da Europa e que encontrou ali a sua harmonia como mais-valia. Enfim, o Paraguai é afeito aos afetos, sublimou os conflitos, e é esse o seu tesouro maior, o seu ex-libris: ninguém o visita sem obter simplicidade, sinceridade afetiva, nada como a erva mate compartilhada na mesma cuia, o gesto simples que a fraternidade e a proximidade emana. Esse é o Paraguai que terá sido por mim visto, que fez e faz sentido.

18/05/2026