Vinte e seis oportunidades de ser enganado
(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)
Leiam o novo relatório do LabCom (!)
A tradição da democracia liberal construiu-se sob uma exigência fundamental: cidadãos informados serão capazes de participar racionalmente na formação da vontade coletiva. É neste horizonte que se inscrevem as reflexões de Jürgen Habermas, de John Stuart Mill ou de Alexis de Tocqueville, para quem a legitimidade democrática depende da existência de uma esfera pública apta a sustentar o dissenso através da argumentação, da circulação de informação credível e da deliberação racional. A democracia, clamam em uníssono, está a milhas de se ficar pelo ato eleitoral.

“Será o jornalismo o principal alicerce desta esfera pública?”, perguntará o leitor. Absolutamente, responder-lhe-ia eu sem hesitação, se estivéssemos em 2005. Não em 2026, considerando que a esfera pública contemporânea se organiza crescentemente segundo lógicas bastante afastadas dos modelos clássicos de mediação jornalística. Informamo-nos – e digo “informamo-nos” pensando nessa coletividade difusa, heterogénea e dificilmente circunscrevível a categorias simplificadoras como “povo” – cada vez mais através das plataformas digitais. Em particular, das redes sociais, cujas dinâmicas se orientam menos pela ordenação racional da relevância pública do que pelos imperativos da visibilidade e da mobilização emocional.

Deste deslocamento decorrem consequências inevitáveis. E se à academia compete a tarefa de examinar criticamente o seu tempo, importa reconhecer no mais recente relatório do LabCom1 um contributo particularmente esclarecedor para a compreensão destas transformações. O estudo “Desinformação nas Presidenciais 2026: atividade dos candidatos nas redes sociais”, coordenado por João Canavilhas e Branco Di Fátima, oferece um retrato das dinâmicas de desinformação que atravessam o atual ecossistema político-digital. À primeira leitura, os números poderão parecer pouco expressivos: 26 casos de desinformação identificados, apenas 0,3% das publicações dos vários candidatos e pré-candidatos. Mas seria profundamente ingénuo reduzir o fenómeno à sua mera expressão quantitativa, sabendo-se, há muito, que a relevância política da desinformação depende, sobretudo, da forma como se infiltra na normalidade discursiva e da eficácia simbólica que adquire no ecossistema mediático.


Inquieta também a crescente estabilização da desinformação, enquanto fenómeno recorrente da vida democrática contemporânea. Considerando que dados provenientes de ciclos eleitorais anteriores já revelavam padrões semelhantes de incidência, estamos longe de um fenómeno meramente episódico ou de uma deriva periférica do debate público. Esta consolidação acompanha, de forma particularmente visível, a ascensão de discursos populistas que encontram na desordem informativa uma das suas mais eficazes condições de reprodução e expansão. Não surpreende, por isso, que o principal emissor deste tipo de conteúdos seja… André Ventura: dos 26 casos analisados, 23 têm origem nas suas publicações – 88,5% do total.
Sem querer afastar o leitor da consulta integral do relatório, e antes a recomendando vivamente, não resisto a destacar alguns dos casos mais elucidativos de desinformação que o estudo traz à superfície.
1 – André Ventura partilha um vídeo autêntico, relativo a episódios de maus-tratos animais ocorridos no Egito, em 2018, mas reinscreve-o discursivamente de modo a sugerir que as imagens dizem respeito à comunidade cigana. O caso revela, de forma particularmente expressiva, uma das modalidades predominantes da desinformação contemporânea: a recontextualização manipuladora de conteúdos verídicos. A falsidade não reside na imagem em si, mas no enquadramento interpretativo que lhe é imposto. O exemplo encontra-se na página 16 do relatório.

2 – André Ventura amplifica um momento de tensão com uma jornalista da RTP, insinuando que a profissional estaria a exercer ativismo político. A estratégia tornou-se amplamente reconhecível no repertório discursivo do populismo contemporâneo: deslocar o foco do debate do conteúdo da pergunta para a deslegitimação de quem a formula. As implicações políticas desta lógica são particularmente profundas, na medida em que corroem um dos fundamentos essenciais da democracia deliberativa: a existência de instituições mediadoras dotadas de um mínimo de credibilidade pública. O caso encontra-se na página 32 do relatório.

3 – André Ventura constrói um layout deliberadamente semelhante ao grafismo utilizado por órgãos de comunicação social de referência – em particular, o do jornal Público. O objetivo já não reside apenas na difusão de informação enviesada, mas na apropriação da legitimidade simbólica associada ao jornalismo profissional. O paradoxo é revelador: enquanto procura desacreditar os media institucionais, tal como retrata o episódio 2, os agentes populistas dependem continuamente da reprodução dos seus sinais de legitimidade para conferir eficácia persuasiva às mensagens que emite. Esta ficha encontra-se na página 52 do relatório.

Os três casos, distintos nos seus mecanismos e formas de operação, convergem num objetivo fundamental: dominar as condições através das quais a realidade pública é construída e interpretada. E é, precisamente, neste momento que o problema deixa de ser apenas comunicacional para adquirir uma densidade profundamente democrática. Afinal, e ainda que os dados se refiram à emissão e não ao impacto efetivo junto dos públicos, é sobre este horizonte informativo – fragmentado, emocionalizado e frequentemente manipulado – que o cidadão forma juízos, interpreta o mundo político e, em última instância, exerce o seu voto.
Cumpre, portanto, deixar à atenção do leitor: se o seu juízo sobre as eleições presidenciais de fevereiro passado se formou a partir das redes sociais, esteve exposto a vinte e seis ocasiões distintas de ser induzido em erro.
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Nota:
1 – Unidade de investigação em Ciências da Comunicação da Universidade da Beira Interior.
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21/05/2026