Dogmas, fantasmas e paradigmas
(viveurope.com – Pixabay)
Uma travessia pela escola que herdámos
Há palavras que nos perseguem como sombras antigas. Dogmas. Fantasmas. Paradigmas. Três palavras que parecem abstratas, mas que, quando as tocamos, revelam a espessura de séculos.
E talvez seja esse o nosso maior equívoco contemporâneo: acreditar que a escola é uma invenção recente, um edifício moderno, um produto do Estado, da República, da democracia. Não é. A escola que nos formou – e que ainda resiste, teimosa, silenciosa, obstinada – nasceu muito antes de Portugal ter nome, fronteiras ou bandeira.

A escola nasceu entre paredes de pedra, sob tectos abobadados, iluminada por velas, guardada por monges que copiavam manuscritos como quem salva o mundo. Nasceu nos mosteiros, nos conventos, nas catedrais. Nasceu no silêncio do scriptorium, a sala da escrita dos mosteiros medievais, um lugar quase sagrado, onde se copiavam livros à mão, letra a letra; onde cada letra era um gesto de fé, como quem salva o mundo do esquecimento. É ali, nesse berço medieval, que encontramos os dogmas que ainda hoje moldam a nossa forma de ensinar.
1. Dogmas – as raízes que não vemos, mas que nos seguram
As ordens religiosas tinham um propósito claro: transmitir a mensagem divina. Não era discutir. Não era questionar. Era guardar, repetir, preservar.


na Universidade de Paris. (pt.wikipedia.org)
Daí o sermão no púlpito, vertical, descendente, vindo de cima. Daí a lição no estrado, que é, no fundo, um púlpito laico. E “lição” – não esqueçamos – significa “ler”. Ler para os outros. Ler aos outros. Ler sobre os outros.
O currículo era a Bíblia. O método era a obediência. O horizonte era o céu ou o inferno.
E, quando a escola se secularizou, quando o Estado tomou conta dela, quando a República a proclamou laica, o que mudou verdadeiramente? Mudaram os nomes. Mudaram os livros. Mas a estrutura permaneceu.
A virtude e o pecado transformaram-se em aprovação e reprovação. O exame tornou-se o novo juízo final. As chamadas e os exercícios escritos substituíram as penitências. E até a palavra “teste” veio de longe, importada da máquina militar americana da Segunda Guerra Mundial, onde era preciso selecionar, em massa, quem servia e quem não servia.
A escola moderna, afinal, continua a ser uma instituição profundamente antiga. Carrega dogmas que não escolheu, mas que herdou.
2. A longa história de um país que educou poucos
Antes de sermos país, já éramos escola. No século XI, em Braga, uma escola clerical ganhava fama. Portugal só nasceria em 1143, com a bênção papal.
Depois, durante séculos, fomos escolas católicas até ao século XVIII; escolas do Estado com o Marquês de Pombal e, mais tarde, com Joaquim António de Aguiar; um povo que rejeitou a escola laica, a “escola do demónio”; e, no século XX, com António de Oliveira Salazar, o regresso triunfal do ensino privado, católico e laico.

A religião católica configurou o país. E configurou a escola. Mas o drama maior é outro: a escola foi sempre um privilégio de elite.
Quando a revolução proclamou a escolaridade obrigatória e passámos de um milhão para cinco milhões de alunos – cálculo impreciso –, não havia escolas, nem professores, nem estruturas para acolher essa avalanche humana. E, ainda hoje, carregamos esse atraso como quem carrega uma mala demasiado pesada.
3. Fantasmas – os que continuam a assombrar-nos

Escolas Luísa Todi, em Setúbal. (mun-setubal.pt)
Há fantasmas que não se exorcizam com decretos.
O primeiro é o Estado, que nunca conseguiu construir um sistema educativo sólido, universal, estável. O segundo é a falta de professores, um problema global – faltam 44 milhões no Mundo. O terceiro é a transição digital, que ameaça transformar a escassez de docentes numa desculpa para substituir pessoas por plataformas.
Estes fantasmas obrigam-nos a escolhas difíceis: reorganizar as escolas para a carência de professores; dar autonomia real às escolas para se reinventarem; impedir que a tecnologia seja usada como atalho para desresponsabilizar o Estado.
A escola está num limiar. E os fantasmas sopram-lhe ao ouvido.
4. Paradigmas – o que já não cabe no que fomos
O paradigma do século XXI não cabe no paradigma do século XX. E muito menos no do século XII.
A ciência mudou. A tecnologia mudou. O Mundo mudou. E a pedagogia mudou com eles.

Hoje, educar não é transmitir uma mensagem. É interrogar o Mundo. É aprender a viver na incerteza. É construir sentido num tempo em que tudo muda depressa demais.
A escola não pode continuar a ser um lugar onde se “dá matéria”. Tem de ser um lugar onde se produz conhecimento, onde se pensa, onde se duvida, onde se cria.
5. Epílogo – o que está verdadeiramente em causa
Se queremos uma escola à altura do século XXI, temos de enfrentar os dogmas, de reconhecer os fantasmas e de mudar de paradigma. Temos de aceitar que a escola que herdámos não é a escola de que precisamos. E que a transformação não virá de reformas administrativas, mas de uma visão clara:

uma escola que não repita o passado; uma escola que prepare o futuro; uma escola que não seja um eco dos mosteiros, mas uma casa de pensamento.
E talvez, só talvez, quando tivermos coragem de olhar para trás sem medo, possamos finalmente avançar.
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21/05/2026