Crónica da China: terceiro dia

 Crónica da China: terceiro dia

(© RUNA – Rute Norte)

O interior do Tianyi NongYuan Art Expo Park e arredores imediatos

Hoje é sábado, 11 de abril de 2026.

Dormi mais de sete horas, mas como adormeci pouco depois das 20h00, acordei muito cedo, às três e meia da manhã.

Quero conhecer o interior do parque e ver se consigo alugar uma bicicleta para também conhecer os arredores imediatos.

(© RUNA – Rute Norte)

Improvisei um pequeno-almoço no quarto do hotel, às cinco. Falta na fotografia o ovo cozido que trouxe de Lisboa. Comi-o antes. Ontem, com a chuvada torrencial, não consegui passear à volta do parque e, assim, descobrir um supermercado.

É sempre bom vir preparada para estas fomes às cinco da manhã. Tudo o que se vê na foto eu trouxe comigo de Lisboa, exceto a bebida de amendoim e noz, e os bolinhos, que são oferecidos pela residência. Também trouxe mel e canela.

Saio do quarto do hotel às 7h15. Este é o primeiro passeio pelo interior do parque onde estou alojada, ou seja, no qual fica a residência artística. O parque chama-se “Tianyi NongYuan Art Expo Park” e tem muitos recantos e coisas para descobrir. É preciso ter em conta que este parque é privado e que fecha durante a noite. O portão ainda está fechado, está tudo deserto. Apenas encontrei os funcionários. Ao longo deste mês, irei tirar-lhe muitas fotos. E, em crónicas posteriores, poderá ser visto já sob outro olhar, em dias de sol, com gente a passear.

Efetivamente, é semelhante ao parque da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa: fecha durante a noite. E, durante o dia, as pessoas vão ali passear, comer algo no café ou no restaurante, e visitar as exposições. Este sistema do Tianyi NongYuan Art Expo Park é idêntico. Também tem a loja de conveniência, que vende gelados, bebidas e pequenos alimentos, assim como vários restaurantes e diversas exposições. Tem ainda a galeria de arte (na crónica anterior, mostrei a nova exposição que está a ser montada), um pequeno museu e galerias com várias exposições e artigos tradicionais à venda.

Enquanto pinto, as pessoas visitam-me, metem-se comigo, tiramos fotografias em conjunto. Sinto-me como se estivesse a viver dentro do parque da Gulbenkian, no meio da vegetação.

A entrada no parque é gratuita, bem como o estacionamento. E todas as exposições são gratuitas também.

Ativei a câmara da app DeepL para traduzir esta placa, que diz o seguinte: “Aviso. As crianças devem brincar acompanhadas por um adulto. Vila Tianyi.”

O portão por onde entrei, ontem, quando cheguei do aeroporto. Segui na companhia da Mia, que me ajudou a levar a mochila com rodinhas, as duas a caminhar. Faltou, então, fotografar esta entrada do parque. Tem três portões, este é um deles.

A entrada para o parque de estacionamento.

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Experimentei ativar aquelas bicicletas amarelas, mas elas não deixaram. Quando li o QR Code que está nas bicicletas, apareceu isto, em Chinês. E quando cliquei no botão ou barra amarela, não fazia ideia do que dizia. No entanto, era tão evidente que me parecia que deveria clicar ali. Viria a descobrir, mais tarde, que diz “alugar bicicleta”.

São, agora, nove e meia da manhã.
Este é outro portão do parque.

Fora daquele portão, tentei ativar novamente as bicicletas. Há três cores: amarelas, azuis e turquesas. Cada qual tem uma app diferente. Pedi ajuda a uma rapariga que ia a passar. Ela ia para o parque e levou-me com ela. Traduzimos rapidamente as poucas palavras que trocámos, com o tradutor nos nossos telemóveis.

Acabei por entrar numa das lojas com essa rapariga e fui dar com outra pessoa. Na foto, vemos Jiang Yijia, que, como vim a saber, é a diretora de arte e diretora-geral da NY20+. Foi a Yijia que acabou por resolver-me o assunto das bicicletas. Foi comigo lá fora – saímos pelo portão – e ajudou-me a colocar as bicicletas em funcionamento. Depois de algumas tentativas, descobrimos que apenas as azuis funcionam comigo. Usámos a minha app do Alipay.

Eu já tinha submetido previamente, em Portugal, o meu passaporte e todos os dados bancários que esta solicita. Depois, no Alipay, seleciona-se outra aplicação: Hello Bike. E clica-se no botão “reservar bicicleta” (aparece em Chinês, mas há outro botão para “traduzir” e já aparece em Português).

A bicicleta foi desbloqueada e eu movi-a. Posteriormente, voltámos a bloqueá-la. Paguei 1,80 yuans pelo teste (ou seja, 0,22€, e mais dois cêntimos pela taxa de processamento internacional e pela taxa de conversão que o meu banco cobra). E  correu tudo bem. Já tenho bicicletas!!!! Fiquei muito agradecida à Yijia. Estas bicicletazinhas vão revolucionar a minha vida aqui, em Chengdu, no sudoeste da China.

Aqui temos o quinto artista que faltava apresentar: Porshz Atthakrisna Vannason, de Bangkok, na Tailândia, ao meu lado.
O estúdio do tailandês Porshz.

Chama-se Tianyi Liu. Está no 2.º ano da universidade, em Ciência da Computação. Adicionámo-nos mutuamente no WeChat. Disse-me que a sua casa fica muito perto, junto à Universidade de Tecnologia da Informação de Chengdu. Agora, tem um colete vermelho vestido, porque faz parte dos voluntários que aqui vêm, ao fim-de-semana, ajudar a limpar as folhas secas no parque. E também está a coadjuvar na loja – a ajudar os funcionários e a auxiliar os visitantes nas compras. Convidei-a para visitar o meu estúdio, quando os meus materiais chegassem, e eu começasse a pintar.

Falámos sempre através dos tradutores nos nossos telemóveis.

Agora, observamos o Zeng Jia Bao à minha esquerda e o Ye Li Hong à direita. Também são estudantes. Estão no 1.º ano da universidade, a frequentar Redes e Novos Media.
Loja de café.
Entretanto, conheci a Zhou Hong. Metem-se comigo na rua, não é nada difícil conhecer os simpáticos Chineses.

A Zhou Hong tem 53 anos, está reformada e era contabilista. Confirmou-me que está a receber a reforma. Espantei-me, por ser tão nova e já ter acesso a uma reforma. Mas, na China, a idade da reforma é mais cedo, apesar de terem sido iniciados ajustes recentemente, em 2025. A partir de 1 de janeiro de 2025, a idade de aposentadoria dos homens tem vindo a ser, gradualmente, aumentada – de 60 para 63 anos, ao longo de 15 anos. Contudo, a idade de aposentadoria das mulheres será ajustada de 50 e 55 anos para 55 e 58 anos, respetivamente (dependendo do tipo de trabalho).1

Neste meio tempo, chegou a Penny. Devia ter-lhe pedido o nome chinês. Normalmente, os Chineses escolhem um nome em Inglês para se apresentarem aos estrangeiros, para facilitar a comunicação, mas eu prefiro mil vezes os nomes chineses.

Elas perguntaram-me qual a minha profissão. Respondi que sou artista plástica – pintora. Perguntaram-me ainda se o trabalho rende. Torci o nariz e elas soltaram uma gargalhada. Expliquei que estou aqui porque fui selecionada num concurso internacional e que me ofereceram esta residência artística.
A Zhou Hong perguntou-me como me mantenho magra, ela quer fazer dieta também. Expliquei-lhe que cortei com algumas refeições durante o dia, nomeadamente o lanche e o jantar. Ela contou-me que hoje não almoçou, para ver se consegue emagrecer.

Todas estas conversas foram tidas com os tradutores dos nossos telemóveis: eu dito em Português ao meu telemóvel e este traduz para Chinês. Mostro-lhes o meu telemóvel, com o resultado. Elas ditam em Chinês ao telemóvel delas e também me mostram o resultado em Português. Podemos, igualmente, escolher a opção de ouvir a tradução, em vez de ler. Todavia, habitualmente, está barulho e é difícil ouvir a partir dos telemóveis.
Convidei ambas para visitarem o meu estúdio.

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Regressei apressadamente ao hotel, após o pequeno passeio de bicicleta fora do parque (no interior, é proibido andar de bicicleta), porque parecia que vinha aí outra chuvada torrencial. Afinal, não choveu. Faz muito calor: 26°C / 78,8°F. Andei quase uma hora de bicicleta e paguei 4,8 yuans (0,58€), acrescidos de dois cêntimos pela taxa de processamento internacional e ainda pela taxa de conversão, cobrados pelo meu banco.

Os meus primeiros materiais já chegaram.
A comida de Chengdu é altamente picante. Eu diria que 98% dos pratos que nos serviram, durante o mês, era altamente picante.

Nota:

1Exame.com, edição de 13 de setembro de 2024: “China promove reforma de aposentadoria”. Página consultada a 19 de maio de 2026. https://exame.com/mundo/china-promove-reforma-de-aposentadoria/

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28/05/2026

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RUNA

https://rutenorte.com/

RUNA (“aka” Rute Norte) nasceu e vive em Lisboa, Portugal. Licenciou-se na Universidade de Lisboa e concluiu o mestrado em Pintura, na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa (em 2022). A sua dissertação de mestrado incidiu sobre o tema dos artistas-viajantes e intitula-se “A experiência do lugar: a sua influência na produção pictórica do artista-viajante, no século XXI”. Frequentou ainda o curso de Fotografia no Cenjor — Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas, em Lisboa (182 horas de formação, em 2018). RUNA foi distinguida com uma Bolsa de Mobilidade da União Europeia para realizar uma residência artística de um mês na Arménia. Realizou também residências artísticas na Bulgária, na Itália e na China, no âmbito da sua prática enquanto artista-viajante, com apoio do Ministério da Cultura da Bulgária, da Fundação Frenkiel & Ponti e da NongYuan Culture. RUNA participou em mais de trinta exposições, individuais e colectivas, em Portugal, Espanha, Reino Unido, Áustria, Alemanha, Itália, Bulgária, Arménia, Colômbia, Coreia do Sul, Turquia, Estados Unidos da América e Canadá.

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