Alegoria de uma pátria doente

 Alegoria de uma pátria doente

Cortejo da Queima das Fitas, em Coimbra. (coimbra.pt)

Antes de mais, duas ou três notas prévias: nunca me revi na cultura das saídas noturnas, que jamais me despertaram verdadeiro interesse ou apelo; nunca participei na construção de um carro alegórico para a Queima das Fitas – razão pela qual não me compete avaliar o grau de exigência e de dedicação que esta tarefa comporta; nunca vivi a chamada “vida académica” nos termos em que frequentemente é celebrada no ensino superior – pautada pela rebaldaria e por um certo desdém perante o ensino. Posto isto, e porque há formas de degradação do espaço público que não devem passar sem reparo, enfrentemos diretamente aquilo que aqui se pretende expor.

O Cortejo da Queima das Fitas, em Coimbra, parecia preservar, até há poucos anos, uma consciência relativamente nítida do seu valor simbólico. (coimbra.pt)

Ao que tudo indica, a Queima das Fitas de Coimbra nunca foi uma festividade marcada pela contenção ou pela sobriedade. É, inclusive, em várias modalidades de excesso – de emoção, de nostalgia, de celebração, de álcool – que encontra um dos seus pontos distintivos. Ainda assim, o Cortejo da Queima das Fitas parecia preservar, até há poucos anos, uma consciência relativamente nítida do seu valor simbólico enquanto ritual académico simultaneamente identitário e satírico. Tendo assistido a cinco destes eventos, julgo poder afirmar, sem especial hesitação, que, de edição para edição, se tornou visível uma degradação progressiva dos mais elementares critérios de dignidade e compostura. Dito de outro modo, num juízo que não ultrapassa, naturalmente, o domínio da perceção pessoal: aquilo que outrora certos estudantes apenas admitiriam fazer longe do olhar familiar passou, agora, a surgir plenamente legitimado diante de qualquer público, sem distinção de idade, de contexto ou de reserva.

Cortejo da Queima das Fitas de 2022. (noticias.uc.pt)

Recuemos ao exemplo que permanece mais vivo na memória de quem acompanha estes eventos: o Cortejo do recente dia 24 de maio, domingo. Muitos dos que a ele assistiram – presencialmente, através das transmissões em direto ou por intermédio das imagens posteriormente difundidas nas redes sociais – terão, provavelmente, experimentado a sensação de que algo se encontrava profundamente deslocado. Entre os inúmeros carros alegóricos, alguns elementos decorativos revelavam, de forma particularmente expressiva, a transformação cultural que hoje atravessa esta tradição académica. Limitando-me a exemplos seletivos e evitando descrições excessivamente imagéticas, recordo dois casos concretos: uma figura feminina representada de pernas abertas, diante da qual surgia um indivíduo colocado numa posição inequivocamente sugestiva; e uma representação de Freud acompanhada da inscrição “Freud-me toda”, exibida numa pose quadrúpede, com outra figura colocada atrás de si, numa encenação cuja conotação sexual dispensava qualquer esforço interpretativo. Repito: exemplos seletivos, descrições deliberadamente contidas.

Com sátira, humor e animação os estudantes de Coimbra percorreram a cidade de Coimbra no Cortejo da Queima das Fitas de 2023.

Tempos houve em que os enfeites destes carros visavam o governo, a reitoria, as desigualdades, o estado do ensino superior ou, em sentido mais amplo, as fragilidades do país. Existia irreverência, certamente, mas coexistiam elaboração crítica, densidade simbólica e um exercício de ironia que procurava expor e desmontar formas de poder e de autoridade. Hoje, em muitos casos, esta dimensão parece ceder lugar a uma lógica de provocação imediata, rudimentar e desprovida de elaboração.

Cortejo da Queima das Fitas de 2019, em Coimbra. (coolture.pt)

Também a relação com o álcool parece ter conhecido uma transformação. O consumo excessivo sempre fez parte do imaginário festivo estudantil – e seria ingénuo negá-lo. Mas seria este evento um desfile de autênticos bares ambulantes, subordinados à distribuição massiva de cerveja, ao ruído contínuo e à estética própria de uma discoteca? Os poucos carros que, honra lhes seja feita, ainda procuram preservar a dimensão crítica e satírica do cortejo – abordando temas como a crise da habitação estudantil, a insuficiência de residências universitárias, a saúde mental ou a precariedade no ensino superior –, acabam submersos pelo ruído visual e sonoro que, hoje, domina grande parte do desfile.

O meu lado mais cético e pessimista leva-me a julgar que o estado atual do Cortejo da Queima das Fitas constitui a manifestação mais palpável de uma crise cultural profunda. De identidade, de orientação e, em última instância, de saúde coletiva. Multiplicam-se os sinais de uma sociedade crescentemente absorvida pela lógica da resignação e do desprendimento, mesmo quando estes princípios são obtidos à custa da inteligência crítica ou da própria dignidade do espaço público.

Se, como tantas vezes se repete, é na comunidade estudantil que se esboçam os contornos do futuro nacional, talvez devamos reconhecer que o horizonte não se adivinha luminoso.

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Nota do Director:

O jornal sinalAberto, embora assuma a responsabilidade de emitir opinião própria, de acordo com o respectivo Estatuto Editorial, ao pretender também assegurar a possibilidade de expressão e o confronto de diversas correntes de opinião, declina qualquer responsabilidade editorial pelo conteúdo dos seus artigos de autor.

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28/05/2026

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Lourenço Ferreira

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Lourenço Ferreira é mestrando em Comunicação Social, investigador na área da Comunicação Política e colaborador em projetos de Educação para a Cidadania. Interessa-se por temas como a opinião pública, o discurso político e o impacto das novas formas de mediação na cultura contemporânea. Escreve com regularidade sobre política, sociedade e “media”, procurando sempre um olhar crítico e fundamentado sobre os fenómenos do seu tempo.

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