Alegoria de uma pátria doente
Cortejo da Queima das Fitas, em Coimbra. (coimbra.pt)
Antes de mais, duas ou três notas prévias: nunca me revi na cultura das saídas noturnas, que jamais me despertaram verdadeiro interesse ou apelo; nunca participei na construção de um carro alegórico para a Queima das Fitas – razão pela qual não me compete avaliar o grau de exigência e de dedicação que esta tarefa comporta; nunca vivi a chamada “vida académica” nos termos em que frequentemente é celebrada no ensino superior – pautada pela rebaldaria e por um certo desdém perante o ensino. Posto isto, e porque há formas de degradação do espaço público que não devem passar sem reparo, enfrentemos diretamente aquilo que aqui se pretende expor.

Ao que tudo indica, a Queima das Fitas de Coimbra nunca foi uma festividade marcada pela contenção ou pela sobriedade. É, inclusive, em várias modalidades de excesso – de emoção, de nostalgia, de celebração, de álcool – que encontra um dos seus pontos distintivos. Ainda assim, o Cortejo da Queima das Fitas parecia preservar, até há poucos anos, uma consciência relativamente nítida do seu valor simbólico enquanto ritual académico simultaneamente identitário e satírico. Tendo assistido a cinco destes eventos, julgo poder afirmar, sem especial hesitação, que, de edição para edição, se tornou visível uma degradação progressiva dos mais elementares critérios de dignidade e compostura. Dito de outro modo, num juízo que não ultrapassa, naturalmente, o domínio da perceção pessoal: aquilo que outrora certos estudantes apenas admitiriam fazer longe do olhar familiar passou, agora, a surgir plenamente legitimado diante de qualquer público, sem distinção de idade, de contexto ou de reserva.

Recuemos ao exemplo que permanece mais vivo na memória de quem acompanha estes eventos: o Cortejo do recente dia 24 de maio, domingo. Muitos dos que a ele assistiram – presencialmente, através das transmissões em direto ou por intermédio das imagens posteriormente difundidas nas redes sociais – terão, provavelmente, experimentado a sensação de que algo se encontrava profundamente deslocado. Entre os inúmeros carros alegóricos, alguns elementos decorativos revelavam, de forma particularmente expressiva, a transformação cultural que hoje atravessa esta tradição académica. Limitando-me a exemplos seletivos e evitando descrições excessivamente imagéticas, recordo dois casos concretos: uma figura feminina representada de pernas abertas, diante da qual surgia um indivíduo colocado numa posição inequivocamente sugestiva; e uma representação de Freud acompanhada da inscrição “Freud-me toda”, exibida numa pose quadrúpede, com outra figura colocada atrás de si, numa encenação cuja conotação sexual dispensava qualquer esforço interpretativo. Repito: exemplos seletivos, descrições deliberadamente contidas.

Tempos houve em que os enfeites destes carros visavam o governo, a reitoria, as desigualdades, o estado do ensino superior ou, em sentido mais amplo, as fragilidades do país. Existia irreverência, certamente, mas coexistiam elaboração crítica, densidade simbólica e um exercício de ironia que procurava expor e desmontar formas de poder e de autoridade. Hoje, em muitos casos, esta dimensão parece ceder lugar a uma lógica de provocação imediata, rudimentar e desprovida de elaboração.

Também a relação com o álcool parece ter conhecido uma transformação. O consumo excessivo sempre fez parte do imaginário festivo estudantil – e seria ingénuo negá-lo. Mas seria este evento um desfile de autênticos bares ambulantes, subordinados à distribuição massiva de cerveja, ao ruído contínuo e à estética própria de uma discoteca? Os poucos carros que, honra lhes seja feita, ainda procuram preservar a dimensão crítica e satírica do cortejo – abordando temas como a crise da habitação estudantil, a insuficiência de residências universitárias, a saúde mental ou a precariedade no ensino superior –, acabam submersos pelo ruído visual e sonoro que, hoje, domina grande parte do desfile.
O meu lado mais cético e pessimista leva-me a julgar que o estado atual do Cortejo da Queima das Fitas constitui a manifestação mais palpável de uma crise cultural profunda. De identidade, de orientação e, em última instância, de saúde coletiva. Multiplicam-se os sinais de uma sociedade crescentemente absorvida pela lógica da resignação e do desprendimento, mesmo quando estes princípios são obtidos à custa da inteligência crítica ou da própria dignidade do espaço público.
Se, como tantas vezes se repete, é na comunidade estudantil que se esboçam os contornos do futuro nacional, talvez devamos reconhecer que o horizonte não se adivinha luminoso.
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Nota do Director:
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28/05/2026