Ler ou não ler Saramago? (2)
Filho e neto de camponeses, José Saramago nasceu na aldeia de Azinhaga, na Golegã, no dia 16 de Novembro de 1922. (revistacomunidades.pt)
Regresso ao tema que anteriormente (na edição de 18/05/2026) abordei, porque muito ficou por dizer. Claro que não tenho pretensões de esgotar o assunto. Faltará certamente dizer muito mais, porque o tema é extenso.

(agendaculturalpiracicabana.blogspot.com)
Relembro, para começar, que algumas vozes críticas falaram no “coro das virgens ofendidas”, dizendo que o facto de ser ou não ser Prémio Nobel não é critério de inclusão nem de exclusão. E referiram, com razão, diga-se, que a história do Prémio Nobel da Literatura está cheia de escolhas cuja grandeza literária é discutível. E evocaram os casos de Bob Dylan (Robert Allen Zimmerman), de Dario Fo e de Patrick Modiano. Não quero discutir aqui estes exemplos, direi apenas que os compreendo, porque me recordo da polémica que causaram.
Posso admitir, como adequados, os desabafos de quem diz que literatura não é catecismo nem doutrinamento. E aceito também que um país culturalmente adulto não pode transformar os escritores ou as escritoras em relíquias intocáveis. Contudo, é bom recordar que esta polémica teve antecedentes muito discretos e que que fizeram alguns estragos.
Tudo começou com as sucessivas alterações curriculares e as revisões do Plano Nacional de Leitura e das Metas de Português. Foi isso que conduziu à substituição de algumas obras de José Saramago. Em certos momentos, o “Memorial do Convento” ou “O Conto da Ilha Desconhecida” deixaram de ser leitura obrigatória e passaram ao estatuto mais discreto de leituras opcionais.

Como escreveu Luís Galego: “Não terá sido um exílio formal. Mas foi sem dúvida uma espécie de afastamento elegante, desses que se fazem com luvas brancas e linguagem administrativa.” Alguns pensam, como é o caso de Duarte Benard da Costa, que a esta proposta do Ministério da Educação, Ciência e Inovação não deve ser dada grande importância, uma vez que a discussão pública pode ser, sobretudo, uma oportunidade que estimule os professores e professoras de Português a fazerem novas opções desafiantes aos seus alunos e alunas, acrescentando que o debate terá de obrigar a fazer uma reflexão mais profunda sobre o tema. Esse autor concluiu até que a proposta pode ser positiva se levar a comunidade portuguesa a fazer uma séria discussão sobre o seu cânone literário, obrigando à sua desconstrução e à sua expansão.

Não sei se todos os leitores saberão que no Ensino Secundário, apesar das recomendações de leitura, os estudantes em Portugal não têm de ler nada na íntegra para entrarem nos cursos superiores. Parece-me, pois, legítimo perguntar quantos estudantes terão lido do início ao fim as obras recomendadas, neste tempo em que há resumos das mesmas, com os quais as editoras fazem bom dinheiro, e que são muito mais fáceis de ler? Além disso, todos sabemos que importante é saber ler e ter cultura literária, mas principalmente saber redigir. Acontece que pouco disso, com o actual formato de exame, é pedido!

Na revista Visão (edição de 30.03.2026), José Paulo Santos terá posto o dedo na ferida quando escreveu: “O drama não está apenas em deixar de ler Saramago; está em deixar de habituar os alunos a ler textos que exigem paciência, persistência e compreensão profunda. Hoje, a concorrência é feroz: vídeos de 12 segundos, resumos instantâneos, frases motivacionais que parecem explicações, mas apenas substituem pensamento por consumo. A cada scroll, a atenção encolhe mais um milímetro. ”E o mesmo autor defende que José Saramago não precisa de ser canonizado. Todavia, “talvez fosse prudente mantê‑lo como referência firme num país que precisa desesperadamente de textos que obriguem a pensar”, concluindo que a escola não pode ser inimiga da liberdade, mas que também nunca poderá ser cúmplice da desinformação. E o remate desse autor é certeiro: “Se há algo que a agnotologia [produção deliberada da ignorância] nos ensina é que a ignorância nunca é fruto do acaso: é sempre consequência do que deixamos de ensinar.”
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01/06/2026