O caminho para a felicidade das crianças surdas

 O caminho para a felicidade das crianças surdas

(unintese.com.br)

Na língua certa, na idade certa, na comunidade certa

A felicidade das crianças surdas começa onde sempre deveria ter começado: na língua.

Os relatórios mais recentes da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) sobre a educação e a proteção da primeira infância são inequívocos: os primeiros cinco anos de vida são decisivos. É neste período que se constroem as bases neurológicas, cognitivas, emocionais e linguísticas que moldam toda a vida futura. Investir na primeira infância é, segundo a UNESCO, o investimento social mais eficaz que um país pode fazer. E, no entanto, é também o período em que as desigualdades mais profundas se instalam, sobretudo nas crianças com incapacidades.

(lunetas.com.br)

As crianças surdas enfrentam um paradoxo que a ciência já não permite ignorar. Se o desenvolvimento humano depende da linguagem e se os primeiros anos são o tempo crítico da sua aquisição, então qualquer política que impeça uma criança surda de ter acesso imediato a uma língua natural viola frontalmente as recomendações internacionais. E, no entanto, a pressão médico-industrial (alimentada por campanhas publicitárias que prometem que um implante coclear fará a criança “ouvir como os ouvintes”) continua a empurrar famílias para decisões que atrasam ou impedem esse acesso.

(Créditos fotográficos: Assad Tanoli – Unsplash)
(Créditos fotográficos: Aurora K – Unsplash)

Os implantes são, geralmente, recomendados por volta dos três anos. Mas, aos três anos, já passou o período mais fértil da aquisição linguística. E entre cirurgias, afinações, desconfortos e rejeições, muitas crianças chegam aos cinco anos sem língua ou com uma língua profundamente deficitária. Uma criança sem língua é uma criança privada de pensamento estruturado, de comunicação plena, de desenvolvimento emocional seguro. É uma violação direta da estratégia da UNESCO, que insiste na importância da linguagem e da equidade na primeira infância.

A minha experiência na Suécia mostrou-me o que acontece quando se respeita o desenvolvimento natural da criança. No hospital, num espaço dedicado, bebés surdos observam a comunicação em língua gestual. Gatinham, encontram uma assistente no caminho e os gestos surgem espontaneamente. Nada é forçado; tudo é natural. Aos doze meses, comunicam sem trauma, sem cirurgia, sem dor. Aos seis anos, são crianças felizes, competentes, integradas – com língua. Na Dinamarca, na Austrália e noutros países, surgiram escolas na mesma linha. E em regiões dos Estados Unidos da América e de Israel, onde mutações recessivas provocaram surtos de surdez, comunidades inteiras adotaram a língua gestual como língua comum de surdos e de ouvintes.

(Créditos fotográficos: Immo Wegmann – Unsplash)

A vasta literatura científica que analisei na minha tese – “Os Surdos na Escola: a exclusão pela inclusão” – confirma: a língua gestual é o caminho mais eficaz, mais saudável e mais acarinhado pelas próprias comunidades surdas.

É por isso que a tríade que proponho – na língua certa, na idade certa, na comunidade certa – não é um “slogan”; é uma política educativa baseada em ciência.

.

Na língua certa

A língua certa é aquela que a criança pode adquirir naturalmente. Para a criança surda, essa língua é a língua gestual, constituída por sinais visuais. É ela que permite estruturar o pensamento, organizar a memória, desenvolver a imaginação, construir relações, aceder ao conhecimento. Privar uma criança surda da língua gestual é privá-la da sua própria humanidade linguística.

.

Na idade certa

A idade certa é agora. É o período crítico dos 0–5 anos, quando o cérebro está mais disponível para adquirir uma língua. Adiar a língua à espera de cirurgias ou de milagres tecnológicos é condenar a criança a um atraso que não é da surdez, mas da negligência linguística. A idade certa não é depois; é antes de qualquer implante.

(Créditos fotográficos: Vitalii Khodzinskyi  –  Unsplash)

Na comunidade certa

A comunidade certa é aquela que reconhece a criança, que a acolhe, que lhe oferece modelos linguísticos e culturais. Para a criança surda, essa comunidade é a comunidade surda. É nela que encontra adultos fluentes na sua língua, pares com experiências semelhantes, uma cultura visual rica, uma identidade positiva. A comunidade surda não é um refúgio; é um berço de humanidade. É o primeiro lugar onde a criança deixa de ser exceção e passa a ser pertença.

.

Depois da língua certa, todas as línguas são possíveis

Quando uma criança surda cresce na sua língua, tudo se torna possível. A língua gestual não fecha portas; abre todas. É ela que garante o desenvolvimento cognitivo pleno. E quando estas bases estão sólidas, a criança surda pode aprender qualquer língua escrita – Português, Inglês, Francês, o que quiser. A escrita é visual. A leitura não exige audição; exige linguagem. A escrita é o território onde surdos e ouvintes se encontram em igualdade.

O que impede a literacia não é a surdez; é a ausência de língua nos primeiros anos.

(Créditos fotográficos: Joshi Milestoner – Unsplash)

A dignidade de uma vida inteira

O primeiro reitor surdo da Universidade Gallaudet deixou-nos uma frase que atravessou gerações: Os surdos podem fazer tudo, menos ouvir.” A frase não é metáfora; é estatística. A História confirma-o: médicos, juristas, engenheiros, professores, artistas, pilotos de aviação – uma lista infindável de diplomados ao longo de décadas. A surdez nunca foi o obstáculo. O obstáculo sempre foi a falta de língua, a falta de acesso, a falta de respeito.

(Créditos fotográficos: Amit Ranjan – Unsplash)

Felicidade: o que queremos para as crianças surdas

Não queremos regressar à tortura dos surdos de outrora – à humilhação, à oralização forçada, ao silêncio imposto. Queremos a felicidade possível quando se partilha a mesma língua. Queremos crianças que crescem com mundo, com identidade, com pertença. Queremos que cada criança surda tenha aquilo que lhe pertence por direito: a sua língua, a sua idade, a sua comunidade.

Porque é assim – e só assim – que os surdos podem crescer felizes, quando o mundo lhes fala na língua que é deles.

.

08/06/2026

Siga-nos:
fb-share-icon

José Afonso Baptista

José Afonso Baptista é doutorado em Ciências da Educação. Como professor e autor, o seu foco está na organização das aprendizagens, de acordo com os princípios da equidade, da diversidade e da inclusão, numa Escola Autónoma, responsável pela eficácia, pelo sucesso e pela felicidade de todos os seus alunos. Como investigador, deu especial relevo à Educação de Surdos, tema da sua tese de doutoramento e de vários artigos em revistas da especialidade. A sua obra publicada está referenciada no seu ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2107-1997. Merece especial destaque “Dogmas e Fantasmas da Escola”, obra publicada pela Lisbon International Press, em 2026. José Afonso Baptista foi professor destacado (pelo Instituto de Meios Audiovisuais de Educação – IMAVE) na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, além de ter sido metodólogo no antigo Liceu Normal D. João III (atual Escola Secundária José Falcão, em Coimbra), coordenador da Equipa de Apoio Pedagógico (EAP) da região Centro, consultor do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) para Educação em Angola e em São Tomé e Príncipe, bem como diretor regional de Educação do Centro, diretor da Educação da Fundação Bissaya Barreto e professor convidado da Universidade Católica Portuguesa. Foi, igualmente, membro do conselho consultivo de várias instituições públicas.

Outros artigos

Share
Instagram