O jogo vai começar
(rtp.pt)
Por favor, coloquem as vendas
Ainda que a história da civilização possa ser lida como um percurso de emancipação progressiva, marcado pelo alargamento da razão e pelo aperfeiçoamento das várias formas de convivência humana, persistem momentos de irrupção das dimensões mais instintivas do indivíduo. O futebol constitui a expressão mais acabada desta realidade – poucos fenómenos sociais evidenciam, com igual clareza, a rapidez com que o impulso se sobrepõe ao juízo.

Comecemos pelos próprios adeptos – outrora celebrados como o décimo segundo jogador, de indispensável presença para que o espetáculo mantivesse uma parte essencial da sua identidade. Hoje, porém, transformaram-se no seu principal financiador, sem que esta nova condição neles tenha despertado qualquer consciência sobre o papel que efetivamente desempenham. Estamos perante o Mundial mais caro de sempre: um bilhete oficial de categoria 1 para a final ronda os 9530 euros – quando, no Mundial de há quatro anos, o lugar equivalente custava cerca de 1386 euros. E isto sem considerar o custo de uma viagem aos Estados Unidos da América (EUA), atualmente particularmente onerosa.

O contraste torna-se tanto mais curioso quanto vivemos numa realidade em que os jornais, apesar de manterem versões digitais de qualidade assinalável, lamentam os reduzidos níveis de subscrição. A explicação invocada é, muitas vezes, o peso financeiro de uma mensalidade entre quatro e oito euros – pouco mais do que um maço de tabaco. Não bastasse o progressivo alheamento do público para comprometer a centralidade destes espaços de informação, que, por isso, deveriam afirmar com maior convicção a sua utilidade pública, são os próprios canais a remetê-los para um papel secundário: os programas “Contrapoder” (CNN) e “Expresso da Meia-Noite”(SIC Notícias), dedicados à análise da atualidade, viram as suas emissões substituídas por painéis de comentadores desportivos devido à chegada da comitiva nacional aos EUA.

As implicações de um Mundial disputado neste país transcendem o seu preço e os efeitos num mundo já marcado pela desorientação. Como observou o antigo presidente do Comité de Governação e Revisão da FIFA (Fédération Internationale de Football Association)1, era mais do que previsível que “o Presidente americano também fosse procurar explorar” a realização do torneio em território norte-americano “para se promover politicamente” e utilizá-lo “como uma plataforma para promover e divulgar” a sua visão da nova ordem internacional. Também por aí, o futebol parece ter desistido de fingir neutralidade: Gianni Infantino, líder da única organização de dimensão global que acumula as funções de regulador e de operador económico, decidiu distinguir Donald Trump com um recém-criado Prémio da Paz, numa espécie de reparação simbólica pela alegada injustiça cometida pelo Comité Nobel aquando da atribuição do Prémio Nobel da Paz a Maria Corina Machado.

Tendo a conversa deslizado para a ideia de “paz”, impõe-se uma pergunta desconfortável: participaríamos com naturalidade num Campeonato do Mundo organizado pela Rússia? Aplaudimos a exclusão desportiva de Estados que violam as regras da ordem internacional, mas aceitamos sem grande inquietação um torneio acolhido por um país cuja política externa se pauta pela máxima do imperialismo. Um país que poderá, ironicamente, cruzar-se com o Irão nas fases a eliminar, mesmo depois de o seu Presidente ter proclamado que “agora, com a morte do Irão, o maior inimigo que a América tem é a Esquerda Radical, o Partido Democrata altamente incompetente”(!). Tão insustentável se tornou esta realidade que acabamos a meditar perante notificações como a seguinte: “EUA demoliram o murete do Paraguai com um banho de bola” – só depois de explorado o tópico se percebe que a expressão descrevia, afinal, uma vitória dos anfitriões por 4-1, e não mais um delírio expansionista de Donald Trump.


no Campeonato Mundial de Futebol (FIFA World Cup
2026). (Créditos fotográficos: Mentavico –
pt.wikipedia.org)
A este já vasto catálogo de dissonâncias – e sem qualquer pretensão de o tornar exaustivo, sob pena de transformar este texto num exercício sem fim – somam-se episódios de contornos xenófobos e racistas que ajudam a caracterizar o ambiente político do país anfitrião. Depois de operações do ICE (Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos Estados Unidos) que deram origem a mortes e a sucessivas denúncias de abusos, destaca-se um caso particularmente simbólico: aquele que é apontado como o melhor árbitro africano da atualidade, prestes a tornar-se no primeiro somali a dirigir um encontro de um Campeonato do Mundo, viu a sua ambição interrompida à chegada ao aeroporto de Miami. Porquê? Foi sujeito a uma “inspeção adicional” e, posteriormente, informado de que a sua entrada no país era considerada “inadmissível”, sem que as autoridades tenham apresentado qualquer explicação para a decisão. Por razões igualmente obscuras, enquanto Vozinha brilhava entre os postes e ajudava Cabo Verde a travar a Espanha, a sua mãe assistia à partida pela televisão, impedida de estar nas bancadas.

Esta enumeração, volumosa e profunda, bastaria para dar sustento a inúmeros debates. Discutamos, porém, confortavelmente instalados na nossa voluntária suspensão do espírito crítico, se Portugal deve alinhar em 4-3-3 ou privilegiar um meio-campo em losango. Ou se Cristiano Ronaldo continua a reunir condições para ser titular. Ou, ainda, se deve o eterno capitão ficar encarregado de cobrar os livres diretos, apesar da notável falta de eficácia que regista neste tipo de lance. Façamo-lo, como tantas vezes sucede quando o assunto é futebol, esquecendo que a própria seleção nacional responde hoje a interesses que transcendem, em larga medida, a dimensão desportiva.
.
………………………….
.
Nota da Redacção:
1 – O antigo presidente do Comité de Governação da FIFA foi o jurista e ex-ministro português Miguel Poiares Maduro.
.
18/06/2026