(I am)sterdam (2)

 (I am)sterdam (2)

Amesterdão Central, Holanda (Países Baixos). (Créditos fotográficos: Tim Trad – Unsplash)

Basílica de São Nicolau, em Amsterdão (nos Países Baixos). (Créditos
fotográficos: Sint-Nicolaaskerk – fr.wikipedia.org)

Visito a igreja que é uma basílica. O que a diferencia das duas outras que há na cidade e eles chamam de São Nicolau. O seu interior aproxima-se do Renascimento e do Barroco, muito embora ela tenha sido erguida nos finais do século XIX. Há por lá missas. Algumas igrejas viraram estabelecimentos comerciais, galerias de arte, todavia, a manterem as fachadas e as composições originais.

Igrejas, de facto, hoje são poucas. Ganho a rua e decido seguir pela direita, por entender que o que havia para ver, caso seguisse em frente, eu já conhecia. Paro numa montra e admiro uma pequena peça de porcelana avizinhada por uns tantos souvenirs de toda a espécie. Seria um presépio pintado no branco e o azul de Delft. A querer levá-lo, debato-me com a loira vendedora a tentar explicar aquilo que eu queria. Ela saiu do seu lugar e foi até lá fora para que eu lhe mostrasse o que seria. Sorridente constatou: “Ah! Those Christmas figurines!” Levá-los-is comigo. Ela completou: “Sorry, I am jew!” Por ser judia, não entendera o que eu queria. Aproveitei e perguntei onde ficava o Museu Judaico, pois queria conferir um documento escrito em Português dirigido ao filósofo Baruch (Bento) Espinosa.

Porcelana de Delft. (viajarpelomundo.com)
Chesney Henry “Chet” Baker, Jr., trompetista, flugelhornista e cantor de
jazz norte-americano. (Créditos fotográficos: Michiel Hendryckx –
pt.wikipedia.org)

Ganhei novamente a rua e, na primeira esquina, vi o hotel onde o músico Chet Baker pulou da janela e morreu, voara a pensar que era uma borboleta. Amesterdão pode ser alucinante, sensação constante, a cada instante. Mais à frente, sou abordado por uma jovem que viera pedir-me fogo de isqueiro. Elas eram duas. Duas manequins vivas acompanhadas por homens que levavam câmaras de filmagem, tripés, quebra-luzes, holofotes.

Concedo o que ela pediu e foi então que ela, ao pegar o seu maço de cigarros, que se encontrava por dentro do seu casaco abriu-o. E ela estava nua! Naquele frio! Bem, aquilo também seria Amesterdão! Cidade liberal, de espírito livre às escolhas de vidas, o oposto das cidades de Minas, onde as pessoas se ocupam com a vida dos outros. No melhor espírito local de “Carpe Diem”, “Let it be”, “Hakuna Matata”, “Live and let live”1, prossegui avante e sem julgamentos. Amesterdão tem mesmo um espírito epicurista, hedonista, hipster (diferenciar-se é estilo!). Contudo, nem sempre foi assim. 

Vista aérea do cinturão de canais concêntricos (grachtengordel) em Amsterdão. (Créditos fotográficos: Andrés Barrios – pt.wikipedia.org)

Por fim, encontrei o Museu Histórico Judaico. Lá dentro, encontrei a carta. Ou seja, a carta de excomunhão de Espinosa. Aquele filósofo que ousou recomendar uma leitura crítica dos textos sagrados para os Judeus e que para os Cristãos é a Bíblia. Apontou incoerências e interpretações inoportunas, tendenciosas, expressas com subjetividade quando “oportunas”.  A carta é escrita em Português, porque a sua família perseguida saiu de Portugal para buscar na Holanda um refúgio. E apresenta um trecho assim: “Amaldiçoado: Ninguém pode falar-lhe de viva voz nem por escrito, nem conceder-lhe favor algum, nem estar debaixo do mesmo teto que ele, nem ler papel algum escrito por ele… Maldito seja no seu sair e maldito seja no seu entrar…”

Espinosa propunha uma leitura “crítica”, o que revelou uma série de
incoerências nos textos sagrados das religiões judaico-cristãs.
(radiomaffei.blogspot.com)

A História andou. A Holanda é tolerante, não se atrela à xenofobia, concede o seu espaço nada conturbado a quem quer que seja. A liberdade individual é um traço da identidade nacional. Até à chegada de Napoleão, ninguém tinha apelido (sobrenome). Bonaparte exigiu que arranjassem algum e foi assim que surgiram os Janssen (filho de Jan), van der Laan (da rua), van der Veen (do brejo). Onde cada um é cada um! Pluricultural, até porque não existe culinária local a não ser batatas, queijos e tortas doces. É o lugar onde se encontram todos os pratos asiáticos em ementas sedutoras, fotográficas, nos restaurantes. E é onde todo café é bar (há, sim, os koffiehuis para quem quer só café); em ambos, em todas as mesas, cabem todos os idiomas.

Casa de Anne Frank (fachada preta ao nível do solo) no Prinsengracht em Amsterdão, na Holanda (Países Baixos). (Créditos fotográficos: Dietmar Ralich – Unsplash)

A cidade é cosmopolita, inclusiva. Só estranhei quando abordei uma jovem funcionária da C&A na rua, enquanto estava a conversar com uma colega. Aproveitando para perguntar por onde deveria seguir para chegar à Casa de Anne Frank, francamente, a sua reação foi decepcionante. Ela parecia uma criança birrenta e direcionou-me impaciência, zanga, impropérios. Estanquei aturdido, até alguém bater no meu ombro e dizer: “Deixa estar, essas aí não são holandesas a recrear e a fofocar!” Era só o que faltava: obter uma lembrança de intemperança em Amesterdão. Recompus-me hirto, livre, sorridente e confiante, segui adiante tolerante: “(I am)sterdam!”

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Nota:

1 – Estamos a considerar uma atitude de aceitação, de desapego e de tolerância. As expressões citadas têm “nuances” diferentes, mas apontam na mesma direcção: “Carpe Diem” – aproveite o momento presente; “Let it be” – deixe as coisas seguirem o seu curso, ou seja, nem tudo precisa de ser controlado; “Hakuna Matata” – não se preocupe excessivamente com os problemas; e “Live and let live” – viva a sua vida e deixa os outros viverem a deles.

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22/06/2026

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Lúcio Marques Ferreira

Lúcio Marques Ferreira Filho é um brasileiro com ascendência portuguesa. Nas suas próprias palavras, “herdou do pai não apenas o nome, mas também uma inusitada situação cultural e idiomática: soa excessivamente português para ser brasileiro e excessivamente brasileiro para ser português”. Escritor tardio, publicou aos cinquenta anos o livro de contos “Êxodos, Encontros e Desencontros” (Funalfa Edições, em 2004), a que se seguiu o livro de crónicas “Cidades Visíveis” (Martyria, em 2021). A obra “Cá entre Nós” é o seu primeiro romance (Imprensa Nacional Casa da Moeda, em 2025). Com a rubrica “Flanar é preciso!”, Lúcio Marques Ferreira assume-se como “um marinheiro que estará a contar estórias, aportando com bandeiras filosóficas, sociológicas, antropológicas e identitárias, que não foram deixadas de lado no mastro da nau”.

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