Na morte de Salazar… uma corte pirandelliana

 Na morte de Salazar… uma corte pirandelliana

Cena do filme “Pai Nosso – Os Últimos Dias de Salazar”, realizado por José Filipe Costa. (indielisboa.com)

“Pai Nosso – Os Últimos Dias de Salazar”: Salazares há muitos!

Em 1968, António de Oliveira Salazar cai de uma cadeira e sofre lesões cerebrais que obrigam o regime a afastá-lo do poder. Curiosamente, e até à sua morte, em 1970, ele continuará a acreditar que ainda governava o país… (ensina.rtp.pt)

É este o filme que nos permite um olhar para os dois últimos anos da vida do ditador. É a primeira ficção longa do documentarista José Filipe Costa. Trata-se de um filme ousado e incómodo. A estreia nacional foi no dia 27 de Maio e o filme traz um olhar sobre o ditador que caiu de uma cadeira (a 3 de Agosto de 1968)1, ao ter sofrido um acidente vascular cerebral2 (AVC). O que permitiu uma “primavera marcelista”, que cresceu, murchou e desapareceu nas ruas de Lisboa.

(Direitos reservados)

Há muito tempo, ouvi falar desta história e julgo que, para muita gente, quase se transformou num mito urbano. Salazar doente, continuou a acreditar que ainda governava no País. Uma corte de acólitos acompanhava-o, diariamente, nesta fábula encenada.

O filme conta com fontes históricas referenciadas e com interpretações assinaláveis de Jorge Mota e de Catarina Avelar3.

Em Fevereiro de 1922, o dramaturgo italiano Luigi Pirandello – galardoado com o Prémio Nobel da Literatura, em 1934 – estreou,  no Teatro Manzoni, na cidade italiana de Milão, a sua peça “Henrique IV” (“Enrico IV”, no original) considerada uma obra-prima deste renovador do teatro, juntamente com “Seis Personagens à Procura de um Autor”. Esta peça de Luigi Pirandello, escrita em 1921, constitui uma reflexão sobre o significado da loucura e, simultaneamente, sobre um tema particularmente caro ao autor: a relação complexa e, em última análise, inextricável entre a pessoa (persona) e a personagem, a ficção e a realidade.

O dramaturgo italiano Luigi Pirandello (1867-1936).
(Créditos fotográficos: Agência de Imprensa
Meurisse – Biblioteca Nacional da França /
pt.wikipedia.org)

A genialidade de Pirandello reside nas sucessivas inversões da realidade e da aparência. Resumindo o enredo: o protagonista, na sequência de uma queda durante uma cavalgada de mascarados, passa a acreditar que é Henrique IV, imperador do Sacro Império Romano-Germânico. Convencidos de que enlouqueceu, os seus familiares e amigos recriam à sua volta o ambiente da corte imperial para se adaptarem ao seu delírio. Ao fim de doze anos, ele recupera a lucidez, mas decide ocultar esse facto e continuar a representar o papel de Henrique IV. No desfecho, após matar Belcredi, vê-se condenado a permanecer para sempre na identidade que criou, vivendo encerrado na máscara da personagem que interpreta. Ou seja, levando uma vida que é uma farsa. A peça começa quando o protagonista já recuperou a razão e observa, com plena consciência, a “mise-en-scène”, isto é, a encenação construída em seu redor.

(Direitos reservados)

É bom e belo lembrar o poético conceito de “mise en abyme” (colocação em abismo) ou de “mise en abîme”. Na heráldica, designa o fenómeno da reprodução de um escudo por uma peça situada no seu centro. André Gide, o escritor, utilizou o termo para se referir a essa visão em profundidade e de reduplicação sucessiva, sugerida pelas caixas chinesas ou pelas matrioskas (bonecas russas).

“Mise en abyme” (ou “mise en abîme”) é aplicado no campo dos estudos literários e das artes plásticas, em geral. Adoptamos, ainda que de forma limitada, para este conceito poético, a expressão «teatro dentro do teatro» ou «representação dentro de uma representação».

A peça foi representada no Porto, pela Companhia Seiva Trupe, com interpretação de Júlio Cardoso e encenação de Ulysses Cruz, em 1988.

Peça “Henrique IV”, encenada por Ulysses Cruz e apresentada em 1988. (seivatrupe.pt)

Não sabemos se o ditador Salazar teve, como na peça de Pirandello, um derradeiro vislumbre de memória ou de consciência. Imagino-o, porém, triste e solitário, como na fotografia que o retrata na ambulância, partindo para um território desconhecido e, tal como no poema de Gedeão, caindo, caindo sempre, sem consciência nem remorso, incapaz de imaginar o futuro glorioso do Portugal de Abril e “[…] do alto inacessível das suas alturas, / foram caindo, / caindo, /  caindo, / caindo, / caindo sempre, / e sempre, / ininterruptamente, / na razão directa do quadrado dos tempos.”

As comemorações do 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, são tradicionalmente palco da atribuição de condecorações a diversas coletividades e personalidades. Entre as muitas distinções atribuídas este ano, o Presidente da República, António José Seguro,  distinguiu o encenador teatral Eduardo Luís Mendes Rodrigues, presidente da Associação Teatro Experimental do Funchal (ATEF), fundada em 1975.

Cerimónia de condecoração do encenador teatral Eduardo Luís Mendes Rodrigues, em 11 de Junho de 2026. (Créditos fotográficos: Miguel Figueiredo Lopes – Presidência da República)

Uma pequena nota, que deveria ser uma grande nota, sobre esta condecoração, é a de que conheço o Eduardo desde 1978, quando me fixei na Madeira durante um período de cinco anos. Ele, o António Plácido, a Bernardete Andrade, o António Assunção e outros ajudaram-me a construir um núcleo que, mesmo depois da minha partida, em 1982, continuou o seu percurso durante mais de 50 anos. A todos eles, e em memória desse trabalho, deixo as minhas felicitações e o meu agradecimento pelo contributo que deram, de enorme importância, para a minha vida artística, pelo facto de terem continuado e de nunca terem desistido.

Assinalo ainda que este reconhecimento vem de fora, da República, do exterior. Nunca o TEF – agora ATEF – foi homenageado desta forma pelo Governo Autónomo; pelo contrário, a luta pela sobrevivência tem sido longa, espinhosa e dura. Parabéns ao Eduardo e à ATEF/TEF!

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Notas:

1 –A data do incidente – 1 ou 3 de Agosto – diverge segundo as fontes, mas é certo que a referida queda esteve associada à idade do ditador, que já tinha 80 anos.

2 – Como nos informa a RTP Ensina, a “gravidade não foi percebida de imediato e só dias depois o Presidente do Conselho foi visto por médicos que, alarmados, avançaram de imediato com uma cirurgia à zona do crânio, onde era bem visível um hematoma”.

3Regista Carlos Ramos, na sinopse do filme: “Portugal, 1968. Salazar, o ditador fascista que no mundo mais tempo esteve no poder, cai de uma cadeira e tem um AVC. Quando volta ao palacete de São Bento para convalescer, já não é Presidente do Conselho. Mas ninguém lhe contará a verdade: nem a fiel governanta Maria de Jesus, nem as solícitas criadas Aparecida, Socorro e Teresinha, nem o seu médico pessoal.

4 – Excerto  do “Poema para Galileo”, de António Gedeão, in “Linhas de Força”.

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25/06/2026

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Roberto Merino

Roberto Merino Mercado nasceu no ano de 1952, em Concepción, província do Chile. Estudou Matemática na universidade local, mas tem-se dedicado ao teatro, desde a infância. Depois do Golpe Militar no Chile, exilou-se no estrangeiro. Inicialmente, na então República Federal Alemã (RFA) e, a partir de 1975, na cidade do Porto (Portugal). Dirigiu artisticamente o Teatro Experimental do Porto (TEP) até 1978, voltando em mais duas ocasiões a essa companhia profissional. Posteriormente, trabalhou nos Serviços Culturais da Câmara Municipal do Funchal e com o Grupo de Teatro Experimental do Funchal. Desde 1982, dirige o Curso Superior de Teatro da Escola Superior Artística do Porto. Colabora também como docente na Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti, desde 1991. E foi professor da Balleteatro Escola Profissional durante três décadas. Como dramaturgo e encenador profissional, trabalhou no TEP, no Seiva Trupe, no Teatro Art´Imagem, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (UP) e na Faculdade de Direito da UP, entre outros palcos.

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