Crónica dos dias limpos e de um tempo sujo

 Crónica dos dias limpos e de um tempo sujo

Batalha de Ourique. (© Pacific Magazines – ncultura.pt)

D. Afonso Henriques, “O Conquistador”.
(pt.wikipedia.org)

O dia 28 de Junho é marcante em acontecimentos históricos, na linha do tempo. Uma dúzia de anos antes do Tratado de Zamora (em 1143, data em que Afonso VII reconheceu ao primo o título de rei), acordo que viria a consolidar a fundação da nacionalidade portuguesa, foi fundado o Mosteiro de Santa Cruz, em 1131, na cidade de Coimbra, com o apoio de Afonso Henriques.

Luís de Camões, na sua narrativa épica (particularmente, na estrofe 46, do Canto III de “Os Lusíadas”), destaca o célebre Milagre de Ourique e o momento em que Afonso Henriques é aclamado o primeiro rei de Portugal: “Com tal milagre os ânimos da gente / Portuguesa inflamados, levantavam / Por seu Rei natural este excelente / Príncipe, que do peito tanto amavam; / E diante do exército potente / Dos ‘immigos’, gritando, o céu tocavam, / Dizendo em alta voz: ‘Real, real, / Por Afonso, alto Rei de Portugal!’”

Todavia, somente quatro décadas após a aclamação de Ourique, a Santa Sé, através da bula “Manifestis Probatum” (emitida em 23 de Maio de 1179, pelo Papa Alexandre III), legitimou formalmente Afonso Henriques como rei e declarou o Condado Portucalense independente.

A bula papal “Manifestis Probatum”. (pt.wikipedia.org)

Refira-se que, para Afonso Henriques ser “rei de verdade”, era fundamental o veredicto do Papa. Por isso, há quem argumente que adoptou uma política que favoreceu a criação, entre outras instituições religiosas, do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, colocado sob a jurisdição da Cúria Romana, com o intuito de convencer a Santa Sé a apoiar o seu projecto de independência.

Cognominado de “Fundador”, Afonso Henriques morreu a 6 de Dezembro de 1185, na urbe coimbrã, encontrando-se sepultado na Igreja de Santa Cruz, num mausoléu no lado oposto ao do seu filho, Sancho I, segundo rei de Portugal.

O Reino de Portugal na Península Ibérica (em 1210). (pt.wikipedia.org)

Para quando se pensa uma estratégia integrada de comunicação, de interpretação do património histórico e de uma adequada promoção pedagógica, dirigida aos conimbricenses e aos visitantes, explicando que este é um dos poucos monumentos portugueses com estatuto oficial de Panteão Nacional? Será assim tão desinteressante desenvolver actividades educativas sobre a fundação de Portugal e o papel de Santa Cruz?

Igreja de Santa Cruz, Panteão Nacional. (visitecoimbra.pt)

Mais de sete séculos depois da Batalha de Ourique (importante na construção da memória colectiva, embora incerta no domínio dos factos), foi inaugurado em 28 de Junho de 1867, na Praça Luís de Camões, em Lisboa, um monumento ao poeta e soldado cuja vida foi marcada por aventuras épicas e por tragédias. A dor e o infortúnio são companheiras inseparáveis da Humanidade.

Arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do trono
austro-húngaro, e a sua mulher, Sofia.
(portugal1914.org)

Impulsionado por tensões estruturais profundas, como a disputa imperialista por territórios, um complexo sistema de alianças, os nacionalismos avivados e a corrida às armas (vergonhosa Paz Armada), o Mundo de 1914 assiste aos assassinatos, a 28 de Junho, em Sarajevo (actual capital da Bósnia e Herzegovina, nos Balcãs), do arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do trono austro-húngaro, e da sua mulher Sofia, o que desencadeou a Primeira Grande Guerra.

Precisamente, cinco anos depois, o Tratado de Versalhes criava a Liga das Nações e preparava o fim desse conflito que começou em 28 de Julho de 1914 e duraria até 11 de Novembro de 1918.

Na nossa contemporaneidade, há muitos “dias que eu odeio” e isso faz-me recordar Alexandre O’Neill, esquadrinhando o poema “O Tempo Sujo”: “[…] São dias que nunca deviam ter saído / Do mau tempo fixo / Que nos desafia da parede / Dias que nos insultam que nos lançam / As pedras do medo os vidros da mentira / As pequenas moedas da humilhação […]” No entanto, a esperança ajuda-nos a encontrar refúgio em pequenas coisas: Coimbra apresenta um dia luminoso e limpo, com céu azul e temperaturas agradáveis. Isto faz a diferença.

.

………………………….

.

Nota:

O presente artigo (na versão de crónica) foi publicado na edição de ontem (domingo, 28 de Junho) do Diário de Coimbra, no âmbito da rubrica “Da Raiz e do Espanto”.

.

29/06/2026

Siga-nos:
fb-share-icon

Vitalino José Santos

Jornalista, cronista e editor. Licenciado em Ciências Sociais (variante de Antropologia) e mestre em Jornalismo e Comunicação. Oestino (de Torres Vedras) que vive em Coimbra.

Outros artigos

Share
Instagram