Crónica da China: 13.º dia

 Crónica da China: 13.º dia

(© RUNA – Rute Norte)

Em grupo de bicicleta até ao mercado agrícola / dia no estúdio

Hoje é terça-feira, dia 21 de abril de 2026. Dormi oito horas entre as 21h00 e as cinco. Nada mau! Os sonos estão a ajustar-se ao horário de Chengdu.

O meu grupo de artistas – Anna, Joanna e Porshz – quer ir conhecer o mercado agrícola Wangjin e pretende ir de bicicleta também. Combinámos, então, ir às 7h30.
Foram todos pontualíssimos, mas tivemos duas complicações: a primeira foi encontrar quatro bicicletas azuis. A segunda, depois de as encontrarmos (espalhadas por vários locais), foi colocar a app da Hello Bike a funcionar em todos eles. Pede certificação de identidade, por exemplo. Levei algum tempo a ajudar o Porshz. E tive de traduzir, com a câmara do meu telemóvel, as mensagens que lhe estavam a aparecer em Chinês. O botão para traduzir nem sempre traduz todos os pop-ups, nomeadamente este do pedido de verificação de identidade.

A Anna e a Joanna andavam separadas à procura de bicicletas, e ajudaram-se uma à outra. Descobriram que as bicicletas amarelas e turquesas não funcionam connosco.

Foi um processo demorado. Recordo que quem me ajudou a pôr a minha app a funcionar foi a Jiang Yijia, no terceiro dia. e também levou algum tempo.

(© RUNA – Rute Norte)

Pequeno-almoço às 6h15. Tinha-me esquecido de que trouxe um resto de corn flakes, de Lisboa. Ou seriam deitados fora, porque a embalagem estava no fim e quando eu regressasse, 33 dias depois, de certeza, já não estariam bons, ou vinham comigo para Chengdu. Souberam-me bem, os corn flakes com leite!  Eu devia ter trazido uma embalagem inteira dos meus cereais, é o que é!
Aquelas fatias de pão frito, ao centro, trouxe-as ontem do jantar. Gosto muito. Parecem as fatias douradas portuguesas, mas, hoje de manhã, já não estão boas. Secaram e ficaram duras.

O Porshz foi o primeiro a chegar. E, como ainda não tinha visto o meu quarto, no andar de cima, sobe agora para ver. (Sou muito arrumadinha, tenho tudo arrumado.) A Joanna viu-o, há alguns dias, e subiu e desceu as escadas sem se agarrar sequer, foi espantoso. Ela disse que estava habituada a este tipo de escadas e que eu iria habituar-me também, mas posso dizer que, mesmo com um mês de treino, continuei a subi-las e a descê-las sempre agarrada com “unhas e dentes”.

O inhame chinês. Leio o seguinte na Biblioteca Nacional de Medicina, um site dos Estados Unidos da América: “À medida que os efeitos das mudanças climáticas se tornam cada vez mais visíveis, mesmo em regiões temperadas, há uma necessidade urgente de diversificar as nossas culturas para combater a fome e a desnutrição. Isso levou à reavaliação de espécies negligenciadas, como o inhame chinês (Dioscorea polystachya Turcz.), cultivado há séculos no Leste Asiático como alimento e ingrediente amplamente utilizado na medicina tradicional chinesa. […] [O inhame chinês] pode ajudar a prevenir doenças cardiovasculares, diabetes e distúrbios da microbiota intestinal. Enquanto a maioria dos inhames comestíveis são espécies tropicais, o inhame chinês poderia ser cultivado amplamente na Europa e em outras regiões temperadas […]”.1

Bananas: 12 yuans (1,44€); fruta dragão: 13 yuans (1,56€); laranjas: dois yuans (0,24€); bolos: dois yuans (0,24€); ananases: 15 yuans (1,80€); bicicleta: 4,5 yuans para lá (0,54€) e 2,5 para cá (0,30€) – 40 minutos versus 12 minutos. Fui a primeira a arranjar uma bicicleta para procurar, já a pedalar, mais bicicletas para todos.

Não estou a conseguir ver bem, a pintar. Pedi à Mia para mudar o sentido desta lâmpada, em direção à minha mesa.

O estúdio do Porshz.

O estúdio da Anna. Já mostrei o estúdio da Joanna na nona crónica.

O Toni é quem mantém esta vegetação luxuriante no pátio. Frequentemente, vi-o a cuidar dela; e em frente ao meu estúdio também. Hoje, tem a ajuda de um funcionário do parque.

A Anna queixa-se de que os mosquitos ficam todos colados nas suas pinturas. As minhas passaram a estar dentro do guarda-roupa por causa disso, mas também, e sobretudo, por causa do cheiro. Ter um estúdio no mesmo local onde está o quarto pode ser um inconveniente para quem usa produtos com odor. Porém, se eu precisar, posso ir deixar as minhas pinturas, durante a noite, na galeria onde trabalhei nos primeiros cinco dias.

A porta à direita, ao lado do meu estúdio, é a entrada das traseiras para o pequeno museu do parque, que visitei no contexto da quinta crónica.

Na fotografia, vemos uma gatinha de rua. Vive por aqui, mas é alimentada pelas pessoas do escritório da NY20+ e também pelo Toni. Teve duas crias, há duas semanas. Deram-lhe o nome de Xiao Huang, que significa “pequeno amarelo”, ou “pequena amarela”, no feminino. Diz-me a IA que, em Chinês, os substantivos e adjetivos, normalmente, não mudam entre masculino e feminino. “Gato” ou “gata”; “amarelo” ou “amarela” – escreve-se da mesma maneira. É como em Inglês: “yellow cɑt” – nenhuma destas palavras tem género. O ChatGPT refere o seguinte: “Historicamente, o Chinês falado não distinguia ‘ele’ e ‘ela’; a distinção escrita 她 (‘ela’) foi introduzida mais tarde, por influência de línguas ocidentais.”

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Nota:

1 – Epping J., Laibach N. (21 setembro 2020). “An underutilized orphan tuber crop—Chinese yam: a review”. PubMed Central® (PMC), National Library of Medicine. Página consultada a 31 de maio de 2026.

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02/07/2026

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RUNA

https://rutenorte.com/

RUNA (“aka” Rute Norte) nasceu e vive em Lisboa, Portugal. Licenciou-se na Universidade de Lisboa e concluiu o mestrado em Pintura, na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa (em 2022). A sua dissertação de mestrado incidiu sobre o tema dos artistas-viajantes e intitula-se “A experiência do lugar: a sua influência na produção pictórica do artista-viajante, no século XXI”. Frequentou ainda o curso de Fotografia no Cenjor — Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas, em Lisboa (182 horas de formação, em 2018). RUNA foi distinguida com uma Bolsa de Mobilidade da União Europeia para realizar uma residência artística de um mês na Arménia. Realizou também residências artísticas na Bulgária, na Itália e na China, no âmbito da sua prática enquanto artista-viajante, com apoio do Ministério da Cultura da Bulgária, da Fundação Frenkiel & Ponti e da NongYuan Culture. RUNA participou em mais de trinta exposições, individuais e colectivas, em Portugal, Espanha, Reino Unido, Áustria, Alemanha, Itália, Bulgária, Arménia, Colômbia, Coreia do Sul, Turquia, Estados Unidos da América e Canadá.

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