Quem nos protege do insulto?
(universoempatico.com.br)
Há algum tempo, não tão ido que consinta o esquecimento ou a indiferença, escrevi neste espaço sobre o ódio persistente a Mariana Mortágua, então coordenadora do Bloco de Esquerda. Pareceu-me pertinente, à época, compará-lo a uma síndrome pavloviana: bastava o seu nome surgir no espaço digital para desencadear uma reação automática, tão previsível quanto a salivação dos cães perante a expectativa de um biscoito. O episódio que motivou esta reflexão prendia-se com a deslocação de Mariana Mortágua a Gaza, integrada na flotilha que procurou romper o bloqueio imposto ao território.

A iniciativa, que culminou no sequestro dos seus participantes, mereceu a chacota de um exército de utilizadores do Facebook. Convoquei Ernst Cassirer, em jeito de contraponto, para justificar o acontecimento enquanto forma de ação simbólica e moral – e não enquanto ilusão ingénua de que os escassos alimentos transportados resolveriam a fome em Gaza. Escrevi que “são estas mediações que instauram distância crítica, conferem inteligibilidade ao real e tornam possível a imputação de responsabilidade moral” e que, “quando este tecido simbólico se rompe, o mundo deixa de ser objeto de compreensão e passa a ser alvo de reações imediatas”. Sete meses volvidos, re-subscrevo cada uma das palavras.

De lá para cá, muito se passou. Mariana Mortágua deixou a coordenação do Bloco de Esquerda e remeteu-se ao silêncio. Regressou às manchetes, não muito tempo depois, por um motivo distinto: apesar de doutorada e amplamente reconhecida na sua área de especialização, foi alvo de acesa controvérsia por ter sido designada coordenadora do Doutoramento em Economia do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa – uma escolha efetuada pelos seus pares, como é próprio do funcionamento das instituições académicas. O seu nome voltou a um estado de discrição, para agora tornar a ocupar o centro da atenção mediática a pretexto de uma publicação da SIC Notícias: “Mariana Mortágua detida em direto após confrontar o Governador do Banco de Portugal? A SIC verifica”. A acompanhar a manchete, o habitual grafismo da rubrica – fundo branco, letras vermelhas – e uma imagem de Mariana Mortágua algemada por dois agentes policiais. Nos comentários da publicação, encontra-se a ligação para a peça de verificação, onde se esclarece: “A notícia é falsa. Mariana Mortágua nunca foi detida em direto em nenhum canal de televisão. A publicação apresenta uma imagem criada por Inteligência Artificial (IA), onde surge o logótipo da CNN, ao mesmo tempo que a própria publicação afirma que a antiga deputada foi retirada da SIC.”

Até aqui, tudo parece claro e cristalino. Sendo o desmentido inequívoco, resta observar a receção da notícia. Naveguemos pelos comentários – como é apanágio do autor destas linhas, reproduzem-se cinco ou seis exemplos sem qualquer esforço de edição, precisamente para que o leitor os possa experimentar na sua forma bruta, sem mediações nem retoques. Cá vão eles:
- A SIC a dar tempo de antena ao Bloco de Esterco
- Se for verdade ! Até me ah ah ah ! gostei !
- Eu sempre disse que ela saía ao pai!
- Ía de flotilha…
- A hoge vai dormir com o chefe.
- Pronto mal começa trabalhar já deu barraca
Artigos houve em que o autor se deteve numa análise dos comentários. Não o faz neste texto – além de repetitivo, entende que a eloquência das peças basta para que sejam apreendidos na sua plenitude. O que, verdadeiramente, importa situa-se a jusante: o papel do jornalismo na sua dimensão digital e, em particular, a forma como as organizações noticiosas gerem a participação nas redes sociais. A SIC sabe – como sabemos todos nós – que qualquer publicação que envolva Mariana Mortágua, tal como sucede com outras figuras públicas particularmente polarizadoras, desencadeia quase inevitavelmente uma torrente de comentários marcados pelo insulto, pela desinformação e pela discriminação. E sabe-o, digamo-lo com honestidade, antes mesmo de publicar. Não obstante, limita-se a desmentir a falsidade da notícia, deixando praticamente intocado o espaço onde continua a produzir os seus efeitos sociais.

Ora, se o espaço público não se pode acomodar à degradação sistemática da argumentação pública, impõe-se perguntar se os órgãos de comunicação social não têm igualmente um dever acrescido de moderação das caixas de comentários que promovem e alojam nas suas próprias plataformas. A incoerência torna-se particularmente evidente quando se observa que os jornais recusam, com frequência, publicar artigos de opinião de autores sem notoriedade pública, à boleia de critérios subjetivos de qualidade editorial, mas aceitam que as caixas de comentários associadas às suas publicações se convertam em espaços férteis de degradação do debate público. Tanto mais quanto estes comentários, logo que constantes das próprias páginas dos jornais, alimentam as métricas de envolvimento das plataformas e são, muitas vezes, mais lidos do que artigos cuidadosamente editados.

Se a autoridade editorial é invocada para decidir quem pode publicar um artigo de opinião, não é evidente por que motivo esta mesma responsabilidade parece suspender-se quando o conteúdo assume a forma de comentário. A incoerência não é apenas evidente; é profundamente nociva para a qualidade do espaço público e, em última análise, para a própria democracia.
Este artigo avança uma proposta de regulação, mas também pretende abrir um debate que se julga necessário sobre o lugar do jornalismo nas redes sociais. Não tanto sobre a sua presença nestes espaços – hoje praticamente consumada, independentemente do juízo que dela se faça –, mas sobre a forma como neles atua e preserva os princípios editoriais que legitimam a sua existência.
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02/07/2026