New York, New York

 New York, New York

A Quinta Avenida vista do Metropolitan, em Nova Iorque. (Créditos fotográficos: A. Balet – pt.wikipedia.org)

(Ou: para onde vão as peúgas na lavandaria?)

Há uma Nova Iorque velha, uma Velha Iorque por onde ainda “habita” o Central Park (iniciado em 1858)1, o Macys (1858), a Ponte do Brooklyn (1869)2, a Estátua da Liberdade (1886), o Chrysler Building (início de construção em 1928)3 o Empire State Building (começo da obra em 1930)4 e a Pennsylvania  Station, essa, de tanto maquilhar-se para ocultar os seus anos, nem mais esclarece que idade tem5. Anyway – a sua serventia prossegue sendo a de levar as pessoas para fora. A Ellis Island6 serviu, de 1892 a 1954, para umas pessoas entrarem (algumas não conseguiram, viam a Estátua da Liberdade com imensa frustração, impedidas de serem livres, tiravam-nas dali)7

Vista do Washington Square Park (e do Arco) com vista para o centro de Manhattan . (Créditos fotográficos: Isabella Ruffalo-Burgat – pt.wikipedia.org)

Entretanto, Nova Iorque é novíssima para uma gente que olha para cima dos cabelos dos outros, o outro vai sendo, decerto, um tédio atual e o futuro incerto. O culto do “Me first” avança a torto e a direito, protege o Eu colapsado no meio de tanta gente. Circulam pelas ruas aspirações de posses de uns muitos tantos dólares ainda por fazer ou, até mesmo, vontade de gastar. Transitam esses anelos como os táxis amarelos, são narizes empinados, presumidos, indicadores de indiferença, numa descortesia sublime. Essa é a nova “cara da cidade”.

Ellis Island é muito mais do que apenas uma ilha na costa de Manhattan. Esse local icônico foi a porta de entrada para a América para mais de 12 milhões de imigrantes entre 1892 e 1954. (nyc.eu)

E há aqueles que olham para baixo, cabisbaixos. Ocultam os seus fracassos, os seus impedimentos. Disfarçam, muitas vezes, o histórico de como teriam entrado ali. Encobertos, temem ser descobertos. Para estes, o hoje e o futuro é e será sempre incerto.

Estátua da Liberdade. (Créditos fotográficos: Tony Wiek – Unsplash)

Em Nova Iorque, prevalece o culto imagético: cada um representa-se dentro de um roteiro imposto ou ato suposto, imaginado em vir a ser um grandioso espetáculo. A cidade é plana e é plena de personagens8. O espetáculo não favorece o manifesto de linguagens; prática admissível tão-somente nos guetos. A cidade prioriza toda uma impessoalidade na qual o subjetivo é objetivo. O que é admissível vem a ser apenas o trânsito dos signos: a pasta executiva, a mochila, os sacos das lojas, as bolsas, que chamam a atenção caso haja grifes. Quando não há grife, não há sucesso pessoal: zero de comunicação.

O Vessel, em Nova Iorque. (Créditos fotográficos: Richard Kim –
Unsplash)

Os calçados, as roupas funcionam como demonstração de currículo. Não se trata de aptidões, caracterizam um poder financeiro cumulativo exibido. No mais, o que caracteriza a sua gente é a pressa: “Time is money”. Eles vivem numa pressa imodesta. Estão sempre a desembarcar em cada esquina, como se o dia fosse uma maratona. A capital do Mundo é, assim, uma via expressa da pressa. Dantes, muito me apetecia estar a mapear com o meu olhar iniciante, inocente, os seus “encantos”. Andava a nunca ter pressa na minha deambulação e findava sempre em querer “estacionar” naquele arco em Washington Square. Onde, em 23 de janeiro de 1917, debaixo de muita neve, seis artistas boémios subiram até ao topo e declararam o sítio como uma República Independente9. Levaram para lá cobertores, lampiões, balões de gás e, sobretudo, o espírito de inconformidade que caracterizaria o Greenwich Village, de que eu tanto gostava. Esse era o meu destino em cada janeiro.

Hoje, a cidade não me agrada: não tenho nenhum interesse em estar a subir 2500 degraus na colmeia do Vessel10 para distanciar-me das pessoas lá no solo. Acho Hudson Yards pedante, presunçosa, naquele seu “feeling” de que chique é ser excludente, exclusivo. E, além disso, retém o verde da Natureza para uns diferenciados julgarem serem diferentes; postura distante daquela do Central Park, onde o verde existe para todos. O 270 Park Avenue aposta num futuro sustentável11: sustenta, sem escrúpulos, que os bancos estão cada vez mais ricos.

270 Park Avenue, em Nova Iorque. (fieldcondition.com)

Não me agrada nada essa “big apple”. Tudo o que encontro me incita à nostalgia. Ponho-me a recordar um tempo comunitário, quando o You era bem-vindo. À simples pergunta “What’s happening?”, ouvia-se “You are happening! Old times”12. Aqueles de contracultura a construir uma cultura. Ao visitar recentemente Nova Iorque, saí de uma “laundromat” (lavandaria) a perguntar: “Para onde foram as peúgas perdidas na lavandaria? Para onde vamos?  Para onde regressamos?”  

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Notas da Redacção:

1 – O Central Park começou a ser construído em 1858, mas a maior parte da obra principal ficou concluída por volta de 1876, embora continuassem melhorias durante décadas.

2 – 1869 corresponde, apenas, ao início dos preparativos do projecto e à constituição da companhia. A construção da Ponte de Brooklyn começou em 1870, tendo sido inaugurada em 1883.

3 – A construção do Chrysler Building começou em 1928 e o edifício foi concluído em 1930.

4 – O Empire State Building começou a ser construído em 1930 e foi inaugurado em 1931.

5 – A frase suscita algum equívoco, ao sugerir a continuidade do edifício original. De facto, a magnífica Pennsylvania Station original foi inaugurada em 1910 e demolida entre 1963 e 1966. A actual estação é, praticamente, uma outra estrutura ou uma estação diferente, construída sob o Madison Square Garden e remodelada diversas vezes. Desde 2021 existe ainda a nova Moynihan Train Hall.

6 – Foi o principal centro federal de imigração entre 1892 e 1954.

7 – Cerca de 2% dos imigrantes foram recusados e repatriados.

8 – Percebe-se que o autor fala metaforicamente. É um jogo de palavras, mas Manhattan não é propriamente “plana” do ponto de vista urbano (há relevo).

9 – O autor refere-se à proclamação da efémera “Free and Independent Republic of Washington Square” por artistas do Greenwich Village.

10 – O Vessel possui cerca de 154 lanços de escadas e, aproximadamente, 2500 degraus no total. Não se sobe “2500 degraus” de forma contínua; é o número total distribuído por toda a estrutura.

11 – O novo edifício da JPMorgan Chase foi concebido segundo elevados padrões ambientais.

12 – O autor refere-se a uma recordação pessoal, não consta que essa expressão tenha sido registada como manifesto comum na contracultura. Em todo o caso, a frase “literária” atesta a sua memória e opinião.

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09/07/2026

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Lúcio Marques Ferreira

Lúcio Marques Ferreira Filho é um brasileiro com ascendência portuguesa. Nas suas próprias palavras, “herdou do pai não apenas o nome, mas também uma inusitada situação cultural e idiomática: soa excessivamente português para ser brasileiro e excessivamente brasileiro para ser português”. Escritor tardio, publicou aos cinquenta anos o livro de contos “Êxodos, Encontros e Desencontros” (Funalfa Edições, em 2004), a que se seguiu o livro de crónicas “Cidades Visíveis” (Martyria, em 2021). A obra “Cá entre Nós” é o seu primeiro romance (Imprensa Nacional Casa da Moeda, em 2025). Com a rubrica “Flanar é preciso!”, Lúcio Marques Ferreira assume-se como “um marinheiro que estará a contar estórias, aportando com bandeiras filosóficas, sociológicas, antropológicas e identitárias, que não foram deixadas de lado no mastro da nau”.

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