O emigrante de Schrödinger
Londres (Créditos fotográficos: Jacob Smith – Unsplash)
Em Londres, sou de Portugal. Em Portugal, sou de Coimbra. Em Coimbra, sou de Montemor-o-Velho. Em Montemor-o-Velho, sou do Seixo de Gatões. Peço emprestado à Física o efeito do observador para compreender esta dinâmica da identidade do emigrante. De acordo com este efeito, observar ou medir um sistema altera o seu estado. Ou seja, uma coisa muda pelo simples facto de ser observada. E, neste caso, quem observa é quem pergunta: “De onde é que és?”

Para as pessoas que vivem no país onde nasceram, a resposta costuma ser simples. Para um emigrante, é necessária uma breve pausa para avaliar o contexto da pergunta. Será que a pessoa do outro lado está a perguntar onde vivo ou de onde venho? Quando digo que venho de Portugal, a reação é uma pergunta inútil: “Ah, de Lisboa?” “Não, de Coimbra.” E como não sabem onde fica, lá entra o silêncio constrangedor. Quando o observador é português, ser de Portugal já não é suficiente. Coimbra pode ser, mas, caso alguém da Bairrada ou das Beiras nos pergunte, é melhor ser ainda mais preciso na localização.

A vítima mais famosa do efeito do observador é o gato de Schrödinger, uma experiência mental em que um gato fechado numa caixa estaria – tecnicamente – vivo e morto ao mesmo tempo. Só ao abrir a caixa é que a probabilidade colapsaria numa realidade. Interessante questão filosófica para todos os envolvidos, menos para o gato. Schrödinger usou isto para ilustrar um paradoxo. O gato não pode estar em dois estados ao mesmo tempo. O emigrante pode.
Dependendo de quem pergunta, podemos ser muitas pessoas diferentes. Uma onda quântica que contém várias possibilidades. É por isso que, quando a onda colapsa, a nossa identidade se ajusta à observação. No Seixo, “Olha, é o filho/neto de fulano” e em Espanha “Mira, es el portugués!”. As pessoas lidam com esta dualidade de maneiras opostas. Há quem escolha continuar com a sua base cultural. Aprendem pouco ou nada da língua de acolhimento, limitam interações com gente de outras nacionalidades, vão a bares e a restaurantes do seu país. Outros optam por mudar a âncora cultural e acabam por assumir a nova cultura como a própria. Por exemplo, conheço uma pessoa que cresceu e viveu na Índia, mas que se apresenta como americana. Eu teria dificuldade em dizer alguma coisa assim, mas se calhar é uma questão de considerar há quanto tempo é que se vive noutro país.


Juan Ordonez – Unsplash)
Tempos houve em que o grande objetivo de um emigrante era voltar triunfante à sua terra natal, com dinheiro para fazer uma casa. Ou ir para tão longe que ninguém voltasse a ouvir falar neles. Acho que muitos dos emigrantes da minha geração estão mais perto de um equilíbrio. Não tenho planos de voltar ao Seixo, mas isso não impede que uma parte de mim continue a ser de lá. O café dos Monteiros ao lado da Igreja Matriz, a escola primária do estilo Estado Novo, os campos de milho no verão vivem confortavelmente no meu mundo mental ao lado da Sagrada Família e da Torre de Londres.
Quer queiramos quer não, os anos em que formamos a nossa personalidade ficam connosco para toda a vida. E não pensem que isto é só coisa minha. O Tony Carreira canta que nunca vai esquecer a aldeia que o viu nascer. O Paulo Alexandre falava de um vinho verde que o ajudava a recordar o lugar que deixou atrás do mar. Eu falo de física quântica. Quando, com os anos e as decisões, a onda de probabilidade colapsa, pelo menos sabemos em que estado acabamos. O tal gato não tem a mesma sorte.
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09/07/2026