A síndrome da savana
Reserva Nacional Masai Mara, no Quénia. (Créditos fotográficos: Bibhash (Polygon.Cafe) Banerjee – Unsplash)
O “software” primitivo por trás da Ibéria esvaziada
Quem sobe ao topo do castelo de Castelo Branco, numa tarde soalheira de verão, e deixa o olhar perder-se na linha do horizonte reconhece, de imediato, a identidade daquela paisagem. É a planície beirã na sua essência: uma extensão vasta onde o restolho dourado alterna com oliveiras e azinheiras dispersas.

Para quem aqui vive, é apenas a fisionomia da região. Para a biologia evolutiva, porém, esta imagem é o espelho de algo mais profundo: o reflexo inconsciente do nosso berço biológico. Sem darmos por isso, passámos milénios a moldar o Mundo para que ele se parecesse com a savana africana de onde saímos. Dito de outra forma, a Humanidade tem estado a executar um programa informático muito antigo, e os resultados estão à vista.
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O monopólio da anomalia
Há cerca de 300 mil anos, a Terra era um planeta partilhado. O Homo sapiens não passava de um ramo secundário num arbusto evolutivo densamente povoado. Dividíamos o mapa com, pelo menos, outras oito linhagens humanas distintas: os robustos Neandertais na Europa, os misteriosos Denisovanos na Ásia e várias espécies insulares de tamanho reduzido na Indonésia e nas Filipinas.

Hoje, somos a única espécie humana viva. Onde o sapiens se estabeleceu, os outros desapareceram, quer por exclusão competitiva na procura de recursos, quer por conflito direto ou por simples diluição genética. Ficámos sozinhos no quarto e, desde então, o nosso impacto na transformação do ambiente nunca mais parou.
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O impulso do terreno limpo
A psicologia evolutiva, há muito, estuda a chamada “Hipótese da Savana”, que sugere que os seres humanos mantêm uma preferência estética inata por paisagens de vegetação rasteira, árvores dispersas e horizontes amplos. Florestas densas e fechadas despertam-nos uma ansiedade ancestral ligada à falta de visibilidade e ao perigo oculto; já o campo aberto oferecia a segurança de detetar ameaças ou presas à distância.
Quando os primeiros membros da nossa espécie chegaram à Europa, o impulso de abrir clareiras começou a desenhar o território. Séculos mais tarde, com o crescimento demográfico e a necessidade de matérias-primas para frotas e cidades, esse abate sistemático intensificou-se. Olhamos para isto como mera evolução económica, mas a raiz subconsciente permanece fiel ao mesmo princípio básico: a conversão de ecossistemas complexos em pradarias abertas.

Até a base da nossa alimentação assenta nessa premissa. O que são os grandes campos de cereais, o trigo, o centeio ou a cevada que dão origem ao pão, senão variedades de gramíneas? Isto é, do ponto de vista botânico, relva gigante. Grande parte da civilização humana consistiu em simplificar ecossistemas florestais para os substituir por extensões de pasto e de cultivo. O problema atual não deriva de uma intenção perversa de destruir a biosfera, mas, sim, de uma questão de escala: somos agora oito mil milhões de indivíduos a executar, de forma industrial, um impulso que outrora era local e de baixa intensidade.
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A ilusão da próxima fronteira
Esta nossa matriz biológica ajuda também a explicar por que razão somos uma espécie de expansão e de fronteira, e nunca de gestão nem de manutenção. Durante a maior parte da nossa história, quando os recursos de um vale se esgotavam, a resposta evolutiva não era restaurar o ambiente; era caminhar para o vale seguinte. O nosso cérebro foi moldado para procurar o que está depois da próxima curva. É por isso que a conservação ecológica e a contenção nos parecem tarefas tão monótonas e difíceis de vender politicamente, enquanto a exploração espacial capta, de imediato, a imaginação coletiva.

Os investimentos astronómicos na utopia de colonizar Marte revelam o auge deste paradoxo. Há um entusiasmo contagiante em torno da possibilidade de transformar um deserto gelado, árido e radioativo, a milhões de quilómetros de distância, enquanto as medidas para mitigar as alterações climáticas na Terra enfrentam resistências ferozes. Subconscientemente, o “Planeta B” apela ao nosso instinto nómada mais primitivo: a ilusão de que existe sempre uma nova fronteira virgem onde podemos reiniciar o ciclo, contornando a obrigação de aprender a gerir a nossa própria casa.
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O despertar do piloto automático
Mapear este comportamento não serve para desculpar a nossa pegada ecológica com base num determinismo genético confortável. Pelo contrário. Perceber que operamos, muitas vezes, sob o efeito de um “software” da Idade da Pedra é o primeiro passo para que a racionalidade possa assumir o comando. O nosso ADN altera-se a um ritmo geológico, mas a nossa cultura tem a capacidade de se adaptar numa única geração.

Ao olharmos, hoje, para as paisagens abertas da Beira, desde as planícies agrícolas aos relevos rochosos que pontuam a região, importa recordar que o território é o resultado das nossas escolhas. O maior desafio do nosso século já não é técnico nem espacial; é o da maturidade de aprender a cuidar do Mundo onde nascemos, em vez de continuarmos a correr atrás de uma savana imaginária no espaço.
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09/07/2026