Exames nacionais 2026: quando o sistema falhou aos alunos
(Créditos fotográficos: Allen Y – Unsplash)
Durante anos, os exames nacionais decorreram com um modelo de classificação essencialmente estável. Em 2026, o processo ficou marcado por atrasos, falhas técnicas e milhares de alunos sem conhecerem a sua classificação na data prevista. A polémica ganhou rapidamente dimensão política, mas para a compreender é necessário separar os factos das acusações – e há factos novos que vieram complicar a versão inicialmente apresentada pelo Governo.

Um dos temas mais debatidos nas últimas semanas foi a plataforma informática utilizada na classificação dos exames nacionais.
Apesar de muitas críticas dirigidas ao atual Governo, a origem deste sistema não remonta a 2024. O primeiro passo foi dado em 2016, quando o então Instituto de Avaliação Educativa (IAVE), hoje Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação (EduQA), desenvolveu internamente o Sistema de Classificação Online do IAVE (SCOI). Em 2018, já sob o Governo do Partido Socialista, foi celebrado um contrato de 30375 euros com a empresa Blatstudio–MAF Serviços para construir o núcleo original do sistema, incluindo o mecanismo de dupla classificação de respostas com redistribuição aleatória entre corretores. Em 2023, ainda sob tutela socialista, foi assinado um novo ajuste direto, desta vez com a Blat–Creative Powerhouse, no valor de 19080 euros, para atualizar esse mesmo sistema, num contrato financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).
À primeira vista, a empresa responsável pela evolução da plataforma teria sido escolhida ainda durante a governação socialista. Mas esta linha de continuidade entre 2018 e 2023 tornou-se, ela própria, uma das partes mais contestadas de toda a polémica.

O ministro da Educação, Ciência e Inovação, Fernando Alexandre, apresentou publicamente a Blat–Creative Powerhouse como parceira do IAVE “desde 2018”. O problema é que essa afirmação foi posta em causa quase de imediato. O contrato de 2018 foi, na realidade, assinado por uma sociedade juridicamente distinta, a Blatstudio–MAF Serviços, que mais tarde mudaria de designação.
A esta confusão jurídica somou-se uma sucessão de versões dadas pelo próprio ministro em poucos dias. A 1 de julho, em audição parlamentar, Fernando Alexandre recusou identificar qualquer empresa responsável pela plataforma. A 6 de julho, admitiu tratar-se de “uma empresa privada externa” ao serviço do IAVE desde 2018. Só a 7 de julho deu-lhe, finalmente, um nome: a Blat–Creative Powerhouse. No dia seguinte, a própria empresa desmentiu por escrito parte das declarações do ministro, esclarecendo que não gere utilizadores nem decide que provas são classificadas, quando ou por quem, limitando-se a disponibilizar aos classificadores os ficheiros de acordo com especificações definidas pelo IAVE.

Uma investigação do jornal ECO viria ainda a descobrir que a manutenção do sistema está, na prática, entregue a uma microempresa lisboeta com apenas 14 funcionários e uma faturação anual abaixo dos 580 mil euros, dado que alimentou a discussão sobre se uma estrutura desta dimensão tinha capacidade técnica para suportar um processo que envolve mais de 166 mil alunos.
.
Mas, afinal, o que mudou em 2026?
Com a tomada de posse do Governo liderado por Luís Montenegro, o Ministério da Educação, Ciência e Inovação decidiu alargar significativamente a utilização da classificação digital dos exames nacionais, com o objetivo declarado de modernizar um processo que vinha sendo preparado há vários anos, reduzindo burocracia e tornando a correção mais eficiente.
Durante a campanha de exames de 2026, começaram a surgir dificuldades praticamente desde o início. Os problemas surgiram logo com o exame de Português, o primeiro realizado pelos alunos, que tardou a chegar aos classificadores por alegadas dificuldades técnicas. Seguiram-se relatos de folhas mal digitalizadas, respostas incompletas por falta de folhas de continuação e provas que terão desaparecido durante o processo de correção, além de queixas de professores sobre falta de apoio do IAVE perante os pedidos de ajuda. A meio do processo, uma falha de segurança identificada por uma consultora externa, a Deloitte, chamada de urgência, obrigou mesmo à suspensão temporária da plataforma.

Perante os atrasos acumulados, o Ministério da Educação tomou a decisão de adiar a divulgação das classificações da primeira fase – inicialmente prevista para 14 de julho – para 17 de julho. O ministro justificou a decisão afirmando preferir atrasar a publicação das notas a divulgar classificações incorretas ou incompletas. Ainda assim, na véspera da nova data, com cerca de 0,5% das respostas por avaliar, o próprio ministro admitiu a possibilidade de as pautas não serem afixadas nesse dia, acabando por se mostrar confiante horas depois de que a divulgação ocorreria durante a tarde. A segunda fase dos exames, originalmente marcada para datas entre 16 e 22 de julho, foi reagendada para o período de 21 a 24 de julho.
Entretanto, o ministério autorizou um reforço adicional de 500 mil euros para tentar estabilizar o processo em curso, enquanto se confirmou que a solução tecnológica definitiva, a cargo da empresa Axians, só estará operacional em 2027 – o que significa que o mesmo sistema, com as mesmas fragilidades identificadas este ano, ainda vai suportar a segunda fase dos exames nacionais de 2026.

A oposição aproveitou a situação para acusar o Governo de falta de planeamento e exigiu explicações sobre o funcionamento da plataforma, bem como acerca dos contratos celebrados, das responsabilidades pelas falhas verificadas e da preparação da campanha de exames.
Durante o debate do Estado da Nação, vários partidos chegaram a pedir a demissão do ministro da Educação. O primeiro-ministro, Luís Montenegro, respondeu reconhecendo a existência de problemas, mas recusou falar em caos, mantendo confiança política em Fernando Alexandre.
Do ponto de vista técnico, o núcleo da plataforma utilizada em 2026 resulta de um projeto iniciado durante os governos do Partido Socialista, com o SCOI criado internamente em 2016 e desenvolvido através de contratos assinados em 2018 e em 2023. Do ponto de vista político, a responsabilidade pela campanha de exames de 2026 pertence ao atual Governo, que decidiu alargar este modelo de classificação digital e teve de gerir tanto as falhas técnicas como a comunicação pública em torno delas.

A este segundo plano juntou-se agora uma terceira dimensão, que é a da transparência: as versões contraditórias do ministro sobre a identidade e a história da empresa responsável pela plataforma, e a fragilidade da estrutura empresarial a quem foi confiada a manutenção de um sistema usado por mais de 166 mil alunos, levantam questões que já não são apenas sobre falhas técnicas, mas sobre o rigor da informação prestada ao Parlamento e à opinião pública.
A crise dos exames abriu uma discussão importante sobre a modernização da Administração Pública. Digitalizar processos complexos é um objetivo legítimo e desejável, mas exige testes robustos, capacidade operacional, contratos claros e planos de contingência quando surgem falhas. O facto de a solução definitiva só chegar em 2027 significa que esta discussão dificilmente ficará encerrada com a segunda fase de exames deste ano.

Independentemente das conclusões que vierem a ser tiradas sobre responsabilidades contratuais e políticas, algo parece consensual, a confiança de alunos, famílias e professores depende de um sistema de avaliação rigoroso, transparente e capaz de funcionar sem colocar em causa um dos momentos mais importantes do percurso escolar de milhares de estudantes.
.
20/07/2026